Fora da Política Não há Salvação

Um espaço para discutir política, uma dimensão inescapável de nossa existência. Idealizado pelo cientista político Cláudio Couto.

Fora da Política Não há Salvação

Morticínio é razão de ser do Bolsonarismo

Os assassinatos de Marcelo Arruda, assim como os de Bruno Araújo Pereira e Dom Phillips, e o de Genivaldo de Jesus Santos, não são mero acaso

O presidente Jair Bolsonaro (PL) é um apoiador ferrenho do aumento da circulação de armas. Foto: Reprodução/Redes Sociais Câmara do MPF critica Bolsonaro por portaria que afrouxou controle de armas
Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro (PL) é um apoiador ferrenho do aumento da circulação de armas. Foto: Reprodução/Redes Sociais Câmara do MPF critica Bolsonaro por portaria que afrouxou controle de armas
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O assassinato do dirigente petista, Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu, neste final de semana, não é um evento fortuito. Ele é expressão da razão de ser do bolsonarismo: a produção da morte e, de preferência, da morte dos que são eleitos por ele como seus inimigos.

Vale dizer que o bolsonarismo não é um movimento político que tenha adversários ou aliados. No lugar de adversários, produz inimigos; no lugar de aliados, conta com cúmplices ou colaboracionistas. Essas são características inerentes à sua condição de movimento político antidemocrático e de motivação assassina. Quem apoia um movimento que é por essência assassino não é mero aliado, mas outra coisa. Quem têm aliados são organizações e movimentos políticos normais; o bolsonarismo, contudo, é por definição, uma anormalidade.

Muitos se negaram a reconhecer tal anormalidade em 2018, quando tratavam Bolsonaro como apenas mais um candidato presidencial. Certos veículos de imprensa se recusaram terminantemente a chamá-lo de extremista – embora, curiosamente, não recusassem esse mesmo qualificativo para políticos radicais de outros países, muitos deles menos radicais que Bolsonaro. Há quem siga negando essa realidade ainda hoje. E há quem o faça pelo recurso odioso às falsas simetrias, que tentam equiparar como “dois extremos” o extremismo de um lado e o não-extremismo do outro.

Essa distorção interessada dos fatos provém de diversas fontes. Desde políticos que desejam se mostrar alternativas sensatas ao que seriam os radicalismos de sinais ideológicos opostos, até certos órgãos de imprensa, que teimam em corrigir os erros não só de avaliação política, mas de informação prestada a seus leitores, ouvintes e espectadores. Tais veículos lhes venderam informação e opinião sabidamente falsas ou falaciosas e, agora, não querem arcar com a responsabilidade do embuste. Tal logro, contudo, tem parte não desprezível da responsabilidade por conduzir o País ao pântano bolsonaresco.

Qualquer pessoa minimamente informada acerca da política brasileira nos últimos 34 anos sabia quem era Jair Bolsonaro, o que pensava, a quem se aliava e que tipo de política promovia. Não era preciso ouvi-lo dizer que iria metralhar toda a “petralhada” do Acre (ou de qualquer lugar que fosse) para perceber que seu governo seria fonte de violência política. Por isso é indesculpável e inverossímil a declaração da senadora Simone Tebet, que dizia não imaginar que Bolsonaro fosse dar nisso que hoje vemos. Por isso é indesculpável o BolsoDória, ou o voto em Bolsonaro por oposição ao programa econômico do PT – argumento, dentre outros, de Eduardo Leite.

Como comum aos extremismos, o Bolsonarismo preconiza a eliminação de seus adversários. Nisso, o seu discurso de “nós contra eles” é muito diferente de congêneres não-extremistas, pois não se trata de mera diferenciação para fins da disputa partidária. É algo bem mais radical que isso. No discurso bolsonarista o “nós” define os únicos legítimos da cena política, pois “eles” são o “mal” – como, aliás, o presidente da República tem feito questão de frisar nas últimas semanas. O mal, como se sabe, é algo a ser extirpado. Se seus adversários (digo, inimigos) são o mal, então não devem sequer existir. É a política como extermínio do outro, a política da morte, a tanatocracia.

Essa vocação morticida se reapresenta a todo tempo no bolsonarismo. Aparece, por exemplo, na persistente pregação em prol da violência policial e da disseminação de armas de fogo entre a população. Esse modo de ser e de dizer cria um caldo de cultura propício a diversos tipos de violência – de gênero, racial, homofóbica, policial, ambiental, política. O aumento dessas formas de violência – e daquela de natureza política, em especial – não é acaso, mas projeto. O bolsonarismo é um movimento político cuja razão de existir é a promoção desenfreada da violência e, com ela, da morte.

Por isso mesmo, a tara bolsonarista por armas de fogo e pela violência dá lugar a um movimento político de tarados. O discurso de Eduardo Bolsonaro pela disseminação de armas, poucas horas antes do assassinato de Marcelo Arruda por um simpatizante do bolsonarismo, é uma demonstração bastante gráfica desse movimento de tarados.

Há uma retórica e uma simbologia da violência, que estimulam e autorizam violência real. Ora, o que dizer de um movimento político cujo símbolo de campanha era uma mão simulando um revolver? Símbolo esse que seguiu sendo usado durante o governo pelo próprio presidente da República – até mesmo na Marcha para Jesus.

O desdém bolsonaresco pela vida pela vida humana, repetidamente demonstrado durante a pandemia, seja pela incúria e pela corrupção governamentais em relação às medidas sanitárias, seja pela total falta de empatia do presidente com relação às mortes causadas pela doença, também estimula a violência – em especial a política. Ora, se a vida em geral não vale nada para o líder do movimento e seus prepostos encarregados de zelar por ela, o que não dizer da vida daqueles apontados como inimigos?

Portanto, não nos enganemos. Os assassinatos de Marcelo Arruda, assim como os de Bruno Araújo Pereira e Dom Phillips, e o de Genivaldo de Jesus Santos, não são mero acaso. São produtos do bolsonarismo. São sua razão de existir.

 

Cláudio Couto

Cláudio Couto
Cientista Político na FGV-EAESP

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