Fora da Política Não há Salvação

Ingenuidade é inaceitável para políticos profissionais. Cinismo e covardia talvez sejam

A ignorância inverossímil de Tebet sobre Bolsonaro é aparentada de outros posicionamentos de candidatos, como Moro e Alessandro Vieira

A senadora Simone Tebet (MDB-MS). Foto: Pedro França/Agência Senado
A senadora Simone Tebet (MDB-MS). Foto: Pedro França/Agência Senado

No dia 26 de dezembro, domingo, o jornal português “Diário de Notícias” publicou uma entrevista com a senadora Simone Tebet (MDB-MS), pré-candidata à Presidência da República por seu partido. No título da matéria, o periódico destacou uma declaração da congressista: “Ninguém imaginava que Bolsonaro seria o pior presidente da história”.

Eis uma afirmação que talvez seja crível saindo da boca de uma pessoa comum do povo, sem vivência ou informação política. Afinal, Jair Bolsonaro foi um deputado por nada menos do que sete mandatos, completando 28 anos de inflamada atuação parlamentar e um incontável número de declarações e posicionamentos ultrajantes. Antes mesmo disso, em 1986, já se tornara figura notória, quando veio a público sua rebeldia ainda como militar, que além de reivindicar maiores soldos por meio da imprensa, planejava nada menos do que plantar explosivos em instalações castrenses e numa adutora do Rio de Janeiro.

Dessas primeiras aparições até a eleição de 2018 foram nada menos do que 32 anos em que o atual presidente figurou na grande mídia exibindo seus predicados autoritários, violentos e toscos. Em 1986 a atual senadora ainda era uma jovem de 16 anos e, quem sabe, naquela época, em tão tenra idade, ainda não tivesse tomado conhecimento das peripécias do capitão extremista. Mas será mesmo? É pouco provável.

Simone Tebet foi criada num ambiente sobejamente político desde pequenina. Afinal, seu pai, Ramez Tebet, foi prefeito de sua cidade natal, Três Lagoas, entre 1975 e 1978, quando a hoje senadora ainda aprendia as primeiras letras. Depois disso, Ramez foi deputado estadual entre 1979 e 1983, quando se tornou o primeiro vice-governador do recentemente criado Estado do Mato Grosso do Sul. Ao fim desse mandato, quando Simone ingressava na adolescência, seu pai se tornou governador do Estado, cujo mandato concluiu antes mesmo que ela chegasse à maioridade. Um pouco mais adiante, quando Simone já havia concluído seu curso de direito na UFRJ, seu pai se elegeu senador, ocupando uma cadeira na Câmara Alta por 11 anos, até seu falecimento em 2016. Nesse ínterim, Ramez presidiu o Senado logo após ter ocupado brevemente o cargo de ministro da Integração Regional de Fernando Henrique Cardoso.

Tão logo se bacharelou em Direito, Simone iniciou sua precoce carreira de docente universitária, ainda em 1992, com apenas 22 anos. Pouco depois, em 1995, enveredou pelas atividades mais diretamente vinculadas à política parlamentar, tornando-se técnica jurídica na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul. Sua evidente competência rapidamente a guindou ao cargo de Diretora Técnica Legislativa, no qual permaneceu por quatro anos, até finalmente se eleger deputada estadual em 2002, com 32 anos.

O potencial político de Simone, contudo, tornava muito limitadas as perspectivas de ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa – o que, aliás, hoje faz seu marido, o deputado estadual Eduardo Rocha (MDB). Desse modo, deixou o legislativo sul-mato-grossense ao se eleger, com dois terços dos votos, prefeita de sua Três Lagoas, que já fora governada pelo pai. A boa avaliação de sua gestão permitiu que se reelegesse com impressionantes três quartos dos sufrágios. Contudo, não terminou seu segundo mandato na Prefeitura, abandonando-o na metade para se eleger vice-governadora do Estado, também outrora governado por seu pai. Além de vice-governadora, ocupou uma posição central no cotidiano da administração, atuando como Secretária de Governo, responsável por coordenar, articular e integrar ações governamentais, dentro e fora dos limites estaduais.

Também o mandato de vice-governadora não foi concluído, pois deixou a posição para se eleger senadora por seu estado. Já no primeiro mandato, presidiu a mais importante comissão permanente do Senado, a de Constituição e Justiça (CCJ). Logo depois disputou a presidência da casa, quando sofreu sua primeira derrota numa disputa importante, sendo batida por Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Ao longo de toda essa meteórica trajetória, Simone Tebet se marcou pelo pioneirismo como mulher política: foi a segunda senadora eleita pelo Mato Grosso do Sul, primeira vice-governadora de seu estado, primeira prefeita de sua cidade, primeira presidenta da CCJ do Senado e primeira candidata à presidência da casa. Em todos esses cargos, sempre se destacou em posições de liderança institucional. Sem dúvida alguma, contaram bastante seu talento para a política, bem como o treino em tal arte desde criança, contando com ambiente familiar tão propício.

A propósito, na mesma entrevista ao Diário de Notícias, a senadora fez questão de frisar sua experiência nessa lida, em particular nos executivos municipal e estadual, enaltecendo os feitos de suas gestões. Diante disso tudo, vale novamente perguntar: é verossímil que alguém com tal trajetória não pudesse imaginar o que significaria um governo de Bolsonaro à frente do país?

Vale citar literalmente a resposta de Tebet ao jornalista do periódico português:

“Ninguém podia imaginar uma gestão tão ruim, nem que o presidente Bolsonaro pudesse entrar para a história como o pior presidente da história do Brasil. Ninguém imaginava que ele poderia namorar com o autoritarismo ou ameaçar as instituições democráticas e tentar mudar todo o pensamento de uma geração com o discurso de ódio contra as minorias.”

Então vejamos.

Ninguém poderia imaginar que namoraria com o autoritarismo ou ameaçaria instituições democráticas o político que inúmeras vezes, antes de disputar a Presidência, elogiou a ditadura militar, enalteceu a tortura e torturadores, defendeu o extermínio como política de segurança, exaltou a milícia e os milicianos, preconizou o fuzilamento de adversários, disse que daria um golpe de Estado tão logo se tornasse presidente, defendeu o fechamento do Congresso e a morte de 30 mil pessoas como limpeza política?

Ninguém poderia imaginar que faria discurso de ódio para mudar as mentalidades um político que, além de fazer tudo o que foi listado acima, elogiou a cavalaria norte-americana por ter exterminado índios, que o Estado deve ser confessional, que uma mulher não seria estuprada por ele por não ter mérito para tanto, que caso tivesse um filho gay, preferia que ele morresse, que doentes de Aids não devem ser ajudados, que quilombolas devem ser pesados tal qual gado, que senegaleses, haitianos e bolivianos são a escória do mundo, dentre outras?

Ninguém poderia imaginar uma gestão tão ruim de um político que, como deputado, jamais teve qualquer atuação relevante, não propôs projetos de lei meritórios, não relatou projetos importantes, não liderou a bancada de seu partido, não presidiu uma única comissão permanente, não ocupou lugar na Mesa Diretora da Câmara, não obteve sequer 1% dos votos quando se candidatou à presidência da casa e apenas se destacou pela defesa de pautas corporativistas, declarações abjetas e comportamento inadequado?

Se toda a brilhante carreira política da senadora tivesse sido feita em Marte, talvez pudéssemos aceitar que ela ignorasse o que poderia vir pela frente. Ainda assim, como professora universitária que é, certamente chegaria neste planeta e procuraria se informar, pois toda essa atuação bolsonaresca foi amplamente registrada ao longo dos anos. Na verdade, não é disso que se trata.

Em 2018, a senadora optou por não manifestar publicamente seu posicionamento no segundo turno. Vindo do estado ruralista que vem e ainda com laços políticos e familiares com o setor, não ter apoiado explicitamente Bolsonaro é até algo notável. Contudo, de políticos sempre se espera posicionamentos claros. É da honra da política tomar partido nas situações, dizer claramente o que se pensa, o que se defende e o que se considera correto fazer. O silêncio de 2018 é tão cínico e covarde quanto a declaração ao Diário de Notícias sobre seu voto, dizendo: “Eu não costumo declarar voto, então não vou dizer em quem votei, nem em quem eu votaria no ano que vem, se eu não for para o segundo turno. Acho que o voto é secreto, acredito que é uma escolha pessoal”.

Assim como para os cidadãos comuns é aceitável não ter noção do que significaria Bolsonaro na Presidência, também para eles é – mais que defensável – necessário o voto secreto. Para políticos profissionais e ocupantes de cargos importantes como a senadora, invocar o segredo do voto é, na realidade, um subterfúgio covarde e cínico. Afinal, políticos profissionais – mormente representantes do povo – devem fazer valer o segredo do voto na hora de o depositar na urna, mas não em seus posicionamentos públicos, quando devem satisfações e posicionamentos a seus representados. Em suma, diferentemente do que diz a senadora, para alguém em sua posição o voto não é uma mera “escolha pessoal”, mas um posicionamento político pelo qual ela precisa ser cobrada e, portanto, deve satisfações.

A ignorância inverossímil de Tebet é aparentada de outros posicionamentos de candidatos da assim chamada terceira via, como Sergio Moro e Alessandro Vieira, ambos arrependidos – um de ter entrado no governo que ajudou a eleger ainda como juiz, outro de ter votado em Bolsonaro em 2018.

E há João Dória, que outro dia encarnou o BolsoDória para se eleger, agora também se diz arrependido, declarando que o apoio a Bolsonaro foi um erro dele “e de milhares de brasileiros”. Ora… Novamente a comparação é descabida. Efêmero prefeito da maior cidade do país e candidato a governador do estado mais populoso, o agora pré-candidato presidencial estabelece uma equiparação descabida ao se colocar junto a cidadãos comuns – reiterando o expediente covarde e cínico. Suas responsabilidades são outras, assim como a capacidade que dele se exige de avaliar o cenário e indicar os caminhos. Ser BolsoDória em 2018 lhe serviu, agora não serve mais. É disso que se trata, para ele e para os demais arrependidos e surpresos da classe política.

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