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Ciro Gomes, o candidato de papel

Brizola, lá atrás, percebeu que, para ganhar uma eleição e governar, o afazer político é mais importante do que planos magistrais de políticas públicas

O ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT). Foto: Reprodução
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A mágoa e o ressentimento são péssimos guias para a ação política, pois turvam a percepção e dificultam a formulação de estratégias eficazes. Por sua própria natureza, tais afetos tendem mais a estimular uma atuação destrutiva do que possibilitar uma empreitada bem-sucedida de conquista ou manutenção do poder – condições mais do que necessárias, indispensáveis, para a implementação de qualquer projeto político. E projetos políticos sem poder para lhes dar concretude são, na melhor das hipóteses, somente belas ideias que morrem no papel.

E não se trata aqui de desprezar a importância dos afetos e das paixões na ação política – pelo contrário. Tais sentimentos­­ são não só inevitáveis, mas necessários. Sem afetos positivos e paixões, o ator político carece de motivação para agir e rapidamente desiste, tão logo apareçam os primeiros obstáculos. Contudo, é a positividade dos afetos e paixões que permite atuar de forma construtiva. Se na balança dos sentimentos políticos a negatividade prevalece, é bem provável que o ator político, ávido por destruir outro, acabe por destruir a si próprio.

Essas considerações iniciais ajudam a entender o caso de Ciro Gomes na eleição presidencial de 2022. Após longa trajetória na centro-esquerda, iniciada em sua primeira participação numa disputa nacional (em 1998, pelo PPS), eis que o hoje pedetista adotou como força motriz de sua campanha o ataque virulento a Lula e ao PT. Não que a virulência seja exatamente um elemento novo de sua conduta; é sua companheira política desde sempre. O que mudou foi o direcionamento e, sobretudo, o sentido em que Ciro a emprega, definido pelo ressentimento de não ter sido ungido como o candidato apoiado por Lula em 2018, após a inviabilização de sua candidatura, bem como pela articulação petista para que o PSB não se engajasse na campanha cirista, permanecendo neutro naquela eleição presidencial.

Vivemos hoje num país governado por um psicopata de extrema-direita, responsável pela destruição do arcabouço administrativo, a descontinuação de políticas públicas, o desprezo pelos direitos humanos, o solapamento diuturno da democracia, a morte evitável de centenas de milhares, a devastação ambiental, o descalabro econômico e o isolamento internacional. E, nesse contexto, o que faz Ciro? Escolhe como seu alvo preferencial não o fascista subletrado que ora ocupa a presidência, mas um ex-aliado político, convertido por ele em inimigo mortal. Justifica sua escolha atribuindo ao ex-aliado, Lula, e a seu partido, o PT, a responsabilidade pela chegada de Bolsonaro à Presidência. Se essa porventura for responsabilidade do “lulopetismo” – termo favorito de Ciro Gomes –, qual seria a responsabilidade dele próprio?

Segundo o próprio candidato pedetista, compete a ele não só denunciar tal estado de coisas do alto de sua superioridade moral, mas também se oferecer como única alternativa digna, tanto por sua autoproclamada competência política, como por supostamente ser o único detentor de um programa de governo capaz de resolver os problemas do país, com diagnósticos e soluções bem ajambrados, tal qual num bom trabalho acadêmico. Nessa narrativa, a autoconferida perícia política é o que lhe permitirá contornar o bloqueio fisiológico e conservador do Centrão, levando a cabo seu genial plano de governo. É o messianismo da competência.

Do ponto de vista eleitoral imediato tal estratégia se revelou um fiasco. Ciro se manteve quase o tempo todo abaixo dos dois dígitos de intenção de voto e corre o risco de um considerável derretimento na reta final, resultante de decisões eleitorais estratégicas, popularmente conhecidas como voto-útil. Observando o cenário, os riscos e possibilidades, com base nas informações disponíveis, eleitores adotam segundas opções, isto é, alternativas mais competitivas, ainda que algo distantes de suas preferências ideais. Ciro não se mostra competitivo, Lula sim. O petista pode não ser o sonho de consumo político de uma parcela dos eleitores, mas se mostra mais capacitado para por fim ao pesadelo bolsonaresco. Logo…

Ademais, o pedetista, tão orgulhoso de sua autoproclamada habilidade política, explodiu pontes à esquerda e nada avançou à direita. Ficou isolado, com bem demonstra seu fracasso na construção de uma coligação. Assim como em 2018, foi obrigado a construir uma chapa puro-sangue – não por opção, mas por falta de opção. Os mais generosos diriam se tratar de um gênio incompreendido.

Seguidas eleições têm mostrado uma tendência ao voto-útil ainda no primeiro turno nos últimos dias de campanha. Numa eleição presidencial como a de 2022, em que há muito em jogo – no caso, a própria democracia –, tal tendência deve se aprofundar. Ela já se revela na consolidação do cenário bipolar, em que Lula e Bolsonaro concentram não só a ampla maioria das intenções de voto, mas também aquelas mais firmes, expressas tanto pela elevada declaração espontânea de voto em ambos, como pela afirmação de seus eleitores de que não pretendem mudar a escolha feita.

Ao não crescer e, ao mesmo tempo, afugentar parte de seus potenciais eleitores com a campanha belicosa adotada contra um oponente do campo democrático, Ciro estimula simpatizantes a lhe abandonarem, rumando para um porto mais seguro. Numa situação dessas de nada lhe servirá o douto plano de governo longamente construído – ao menos desde 1998.

A esse propósito, aliás, vale recordar o que na eleição presidencial de 1989 disse o pai-fundador do PDT, Leonel Brizola, quando questionado sobre ter ou não um projeto. Segundo o caudilho, se quisesse um plano de governo, pediria um ao professor Hélio Jaguaribe, que lhe enviaria o projeto pelo correio (na época ainda não existia o e-mail). “Daí pouco, ele me entregaria um, encadernado e todo bonitinho”, dizia o líder trabalhista.

A blague brizolista mostra como ele sabia que, para ganhar uma eleição e governar, o afazer político é mais importante do que planos magistrais de políticas públicas. De nada adianta um ótimo plano se não há meios políticos para o concretizar. E a política requer concessões, soluções de compromisso; voluntarismo e autoconfiança não resolvem, pois a política é uma arte de engolir sapos – alguns deles barbudos, como Brizola bem reconheceu.

O grande líder pedetista não ganhou aquela eleição, embora tenha passado perto de ir ao segundo turno – quando apoiou Lula, de quem seria candidato a vice-presidente alguns anos depois – em 1998, exatamente quando Ciro tentou pela primeira vez se eleger presidente. Certamente o caudilho pragmático de então agiu com mais sabedoria do que o maioral autossuficiente de hoje. Ciro seguirá sendo um belo presidente, só que apenas no papel. Ou de papel.

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