Fora da Política Não há Salvação

Um espaço para discutir política, uma dimensão inescapável de nossa existência. Idealizado pelo cientista político Cláudio Couto.

Fora da Política Não há Salvação

Michelle Bolsonaro, as profecias e o farisaísmo por procuração

No Novo Testamento, o fariseu é aquele que dá mostras exteriores de sua fé, fazendo questão de se dizer muito pio, mas que peca pela hipocrisia

Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
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Na convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro, sua esposa, Michelle, foi a grande estrela. Num discurso de matiz religioso, como se pregasse em um templo, a primeira-dama disse ser Bolsonaro “um escolhido de Deus”, um homem de “coração puro, limpo”. Deus, aliás, foi citado diretamente por Michelle 29 vezes durante seu discurso – ou, talvez fosse mais adequado dizer, sua pregação – como apontou levantamento da revista Fórum.

A invocação do Criador serviu para que ela defendesse a candidatura de seu marido como decorrente da vontade divina, não como um projeto da ambição humana. Nisso, fez eco a Jair, que tantas vezes já repetiu que só Deus o pode tirar da cadeira presidencial. Ou seja, o presidente e a primeira-dama atribuem não à vontade do eleitorado, ou sequer deles próprios, mas do próprio Deus, sua permanência no governo.

E já que a consulta ao povo é secundária para ambos, seria possível perguntar: será que ao menos Deus foi consultado? Ou sua invocação decorre de um entendimento muito particular que os bolsonaristas, famiglia incluída, dão ao que seria a vontade divina? Como os autênticos cristãos, tementes a Deus, poderão saber que realmente se trata de Sua vontade e não da pregação maliciosa de falsos profetas interessados em promover um falso Messias? Basta confiar na palavra do Messias presidente e nas profecias de sua esposa?

Bolsonaro incluiu Deus em seu slogan político (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”), utilizou um versículo bíblico como bordão em seus discursos (“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, Jo, 8-32), afirmou que “O Estado é laico, mas nosso governo é cristão”, realizou cultos dentro das dependências governamentais e comícios dentro de igrejas, nomeou ministros do Evangelho como ministros de Estados e até mesmo como ministros do Supremo.

Tudo isso faria de Bolsonaro um bom cristão? Tudo isso o habilitaria para ser profeticamente proclamado pela própria esposa com um escolhido de Deus?

Observemos alguns atos da trajetória política do Messias Bolsonaro e vejamos o quanto eles correspondem aos de um bom cristão.

Quando soldado, foi expulso do Exército por indisciplina financeiramente motivada e por planejar ações terroristas – colocar bombas em quartéis e na adutora que abastece de água a cidade do Rio de Janeiro. Dali, pulou para a política eleitoral, quando utilizava de ardis para fazer campanha dentro dos quartéis – o que é proibido – e distribuir panfletos que afrontavam a hierarquia militar.

Quando deputado, enriqueceu lançando mão do já bem documentado esquema de “rachadinha”, por meio do qual ele e seus filhos com cargos eletivos se apropriavam dos salários de funcionários pagos com dinheiro público, alguns deles sem sequer trabalhar. Numa entrevista recente, Messias Bolsonaro minimizou a gravidade das rachadinhas, dizendo serem elas uma “prática meio comum”.

Também como deputado federal, Messias Bolsonaro determinou (como ele próprio fez questão de revelar) que seu filho Flávio, então deputado estadual no Rio de Janeiro, homenageasse o Capitão Adriano – miliciano, matador de aluguel e chefão do principal grupo de assassinatos por encomenda do Rio, o “Escritório do Crime”. Também no gabinete de Flávio, fiel política e pessoalmente ao pai, foram empregadas a ex-mulher e a mãe do miliciano assassino homenageado, o Capitão Adriano.

Durante sua longa carreira como deputado, Messias Bolsonaro defendeu publicamente a atuação das milícias, o extermínio de suspeitos pela polícia (inclusive com a condecoração dos policiais que matassem), a tortura, a ditadura, o assassinato de adversários políticos, a realização de uma guerra civil, o fuzilamento de um presidente da República, assassinatos no campo, dentre outras coisas similares. Na votação do impeachment, em 2016, fez questão de homenagear o militar que torturou centenas de opositores políticos da ditadura, sadicamente fazendo questão de lembrar que ele era “o terror de Dilma Rousseff”. Ao seu lado, o filho deputado federal, Eduardo, repetia simultaneamente as palavras do pai – o que demonstra que a homenagem ao criminoso não foi um arroubo, mas foi premeditada pela dupla.

Ainda durante esse período afirmou que, caso tivesse um filho homossexual, preferiria que ele morresse num acidente de automóvel. Disse a uma deputada que não a estupraria porque ela não mereceria (por não ser atraente o suficiente para ele), disse que revidaria um tapa que ela lhe desse caso ele a tentasse estuprar e, não suficiente, chamou-a de vagabunda, ironizando-a quando ela, abalada com o ataque, chorou. Questionado por uma repórter sobre o porquê de ter utilizado o dinheiro do auxílio-moradia, já que era dono de um imóvel em Brasília, disse que utilizava esse dinheiro para “comer gente”, pois era solteiro. Em seguida, perguntou à repórter se ela estava satisfeita com sua resposta.

Já na cadeira de presidente, caluniou uma repórter que fez matéria crítica ao governo, afirmando que ela pretendia trocar favores sexuais por informações. Disse Messias Bolsonaro que a jornalista queria “dar o furo” a qualquer custo contra ele. Também no cargo de chefe de governo, fez troça de pessoas que agonizavam por falta de ar devido à Covid, apostou na “imunidade de rebanho”, em vez de vacinas, para superar a pandemia – ao custo de centenas de milhares de vidas que poderiam ter sido salvas –, permitiu a corrupção na compra de imunizantes no Ministério da Saúde, nomeando militares incompetentes para a função. Durante seu governo, por meio de decretos presidenciais, facilitou a distribuição de armas de fogo e munições, inclusive reduzindo os impostos sobre elas; como nunca no País multiplicaram as pessoas armadas com autorização do governo.

Vale então perguntar: são todas essas ações de um bom cristão, de um homem de “coração puro, limpo”? São essas ações de um “escolhido de Deus”?

Não é o que parece à luz dos ensinamentos do cristianismo, centrados no amor ao próximo e na piedade. É por isso que Bolsonaro, apesar de se apresentar como um cristão, prefere delegar a outras pessoas a incumbência de apontarem nele um governante por designação divina. Por vezes, quem faz tal serviço são pastores bolsonaristas, como Silas Malafaia e Marcos Feliciano – embora o próprio Malafaia tenha reconhecido que “armar o cidadão é loucura”.

O grande trufo de massas nesta campanha eleitoral, contudo, é a primeira-dama, Michelle. Como mulher, pode ajudar a diminuir a resistência ao presidente no eleitorado feminino. Como evangélica, pode conferir ao marido uma aura de bom cristão que ele próprio é incapaz de ter por méritos próprios. Daí a pregação com finalidades eleitorais dela na convenção partidária que o sagrou como candidato. Daí também as declarações feitas por ela de que, com seu marido, o Palácio do Planalto é devotado a Deus, sendo que antes seria devotado a demônios. Ainda que por experiência própria Michelle possa afirmar que agora as dependências governamentais são espaços de adoração cristã, com base no que pode afirmar que antes eram redutos de práticas satânicas?

Ao se mostrar como uma mulher mais pia e fiel do que o marido, empresta a Bolsonaro algo que ele de forma alguma seria capaz encarnar: a fé de um cristianismo aparentemente verdadeiro. Porém, ao abusar dessa exibição da fé, Michelle incorre na risco de quem faz muita questão de dar mostras exteriores de sua lealdade a Deus: o farisaísmo.

No Novo Testamento, o fariseu é aquele que dá mostras exteriores de sua fé, fazendo questão de se dizer muito pio, mas que peca pela hipocrisia. Uma passagem do Evangelho de Lucas explicita a ideia por meio de uma parábola:

“Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.  (Lc 18, 9-14)

Por sua trajetória e comportamento, sequer como fariseu Bolsonaro consegue se apresentar – não seria crível. Por isso, recorre ao farisaísmo de terceiros: certos pastores evangélicos, alguns padres ultraconservadores e sua esposa, Michelle. Todos esses, por seu comportamento exterior, têm mais sucesso em apresentar-se como os verdadeiramente autorizados a atestar a missão divina supostamente atribuída ao presidente da República. Ora, mas também os fariseus do Evangelho tinham um comportamento exterior que lhes fazia parecer pessoas de verdadeira fé; justamente por isso suas demonstrações públicas de fé eram não só de pouco valor, mas uma forma de afrontar a Deus. Eis o porquê, ao se elevarem, serem humilhados.

Ao se referir à cadeira presidencial, a primeira-dama diz ser ela ocupada de fato não por seu marido, mas pelo maior dos reis – isto é, por Deus. Assim, Bolsonaro seria ali apenas um instrumento do Criador para levar adiante a obra divina. Contudo, há aí outra conduta denunciada nas escrituras sagradas. Ao indicar como escolhido de Deus para o exercício da presidência alguém com a vida política de Bolsonaro, Michelle encarna outro tipo bíblico nada recomendável: o falso profeta.

Isso fica claro numa passagem do Evangelho de Mateus.

“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Da mesma maneira, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! (Mt 7, 15-20)

Se é pelos frutos que se conhece uma árvore, o que os frutos da trajetória política de Jair Bolsonaro e de seu governo demonstram sobre ele? Se Michelle diz que ele é um “escolhido de Deus”, mas ele é quem é e faz o que faz, qual crédito merece essa profecia da primeira-dama?

Uma passagem do Velho Testamento também se encaixa bem nesta situação do proselitismo religioso bolsonarista.

“Mas talvez vocês se perguntem: ‘Como saberemos se uma mensagem não vem do Senhor?’ Se o que o profeta proclamar em nome do Senhor não acontecer, nem se cumprir, essa mensagem não vem do Senhor. Aquele profeta falou com presunção. Não tenham medo dele.” (Dt 18, 20-22).

A se tomar o que Bolsonaro de fato realizou durante toda sua vida e, agora, na presidência, em vez de apenas acreditar naquilo que sua esposa e seus amigos proclamam sobre ele, como levar a sério a profecia de Michelle? Falsos profetas são talvez uma versão até mesmo piorada dos fariseus. Como os fariseus, além de enganar a Deus, querem enganar seus próximos para os levar à perdição.

Contudo, num primeiro momento, essa investida do discurso religioso parece ter rendido frutos – não os bons frutos a que se refere o texto bíblico, mas frutos eleitorais para Jair Bolsonaro. É o que mostra a recente pesquisa de intenção de voto da Quaest; o presidente apresentou crescimento no eleitorado evangélico.

O grande sociólogo da religião Antônio Flávio Pierucci apontava que políticos que abusam do uso da fé no proselitismo político, embora possam colher benefícios, também correm o risco de revelar aos eleitores religiosos o caráter hipócrita dessa instrumentalização. Isso ocorrendo, o efeito pode ser o contrário ao pretendido: em vez de atrair esse eleitorado, acaba por espantá-lo. É o que, com base em estudos inicialmente feitos nos Estados Unidos, Pierucci denominava como “efeito fariseu”.

Não à toa o principal adversário de Bolsonaro, Lula, acusou-o recentemente de farisaísmo. E mais: a campanha do petista elaborou um material, fartamente distribuído nas redes sociais, segundo o qual enquanto “Bolsonaro usa Deus, Deus usa Lula”. É inegavelmente um movimento importante, porém insuficiente.

Não é apenas o farisaísmo de Bolsonaro que precisa ser denunciado, até porque esse não é tão difícil de perceber. Assim como as medidas econômicas recentes – o auxílio emergencial e a redução do preço dos combustíveis – já são percebidas como eleitoreiras pela maioria dos cidadãos (62% segundo a pesquisa Quaest), também a autenticidade do cristianismo do presidente da República é pouco crível para muita gente. O problema é que ainda assim ele é apontado para o público mais religioso como sendo um instrumento de Deus. Isto é, segundo esse discurso, seria Deus a usar Bolsonaro e não o inverso.

Para que a campanha oposicionista tenha efeito é preciso desmascarar, mostrando que o farisaísmo é daqueles que, como falsos profetas, afirmam que Bolsonaro é usado por Deus – quando o que ocorre na realidade é o contrário. Se isso não ficar claro para eleitores e eleitoras religiosas que acreditam nesses pregadores e nessa pregação, continuará a surtir efeito o discurso religioso como mecanismo de obtenção de votos.

O uso instrumental de Deus para fins eleitorais não vem apenas do presidente candidato e de seu discurso maniqueísta do bem contra o mal. Esse uso é promovido de forma bem mais efetiva pelos fariseus e falsos profetas que apontam para ele e dizem que Bolsonaro, sendo o escolhido de Deus, deve ser também o escolhido do povo.

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