Retrospectiva: 10 fatos internacionais que marcaram 2020, além da pandemia

Pesquisadores destacam eventos que pautaram a política global de forma decisiva neste ano

2020 foi marcado pela pandemia, mas outros fatos internacionais deram o tom do ano na política internacional. Foto: matejmo/iStock

2020 foi marcado pela pandemia, mas outros fatos internacionais deram o tom do ano na política internacional. Foto: matejmo/iStock

Mundo

Evidentemente, a pandemia do novo coronavírus abriu um caminho imprevisto na história da comunidade internacional. A doença já deixou mais de 1,7 milhões de mortos e cerca de 80 milhões de infectados pelo mundo, acentuando uma crise econômica que se desdobrará especialmente nos países da periferia do globo.

 

 

Mas não é possível fazer uma retrospectiva de 2020 com olhos apenas na Covid-19.

A partir das opiniões de três especialistas, CartaCapital reuniu 10 fatos internacionais que marcaram o ano além da pandemia. Confira a seleção a seguir.

 

EUA assassinam general Suleimani, do Irã

O mundo abriu o ano com o assassinato do general iraniano Qassim Suleimani, em 3 de janeiro de 2020, após um bombardeio dos Estados Unidos no Aeroporto Internacional de Bagdá, no Iraque. O próprio Pentágono comunicou que o presidente americano, Donald Trump, deu a ordem para matá-lo. O militar era visto como um herói no Irã. No dia seguinte, milhares de pessoas foram ao funeral e pediram vingança.

Desde 1979, ano de uma revolução no país persa, os iranianos desagradam a Casa Branca e Israel por políticas que buscam a liderança na região, com o auxílio da Rússia.

Washington, então, até hoje impõe um bloqueio econômico contra a república islâmica.

Para Danny Zahreddine, geógrafo e membro do Grupo de Pesquisa Oriente Médio e Magreb (GEOMM), o assassinato revelou uma política mais violenta dos Estados Unidos contra o Irã. O professor também lembra a morte a tiros do cientista nuclear Mohsen Fakhrizadeh, em 27 de novembro. O estudioso era a principal figura por trás do projeto nuclear iraniano. O governo do Irã acusou Israel pelo assassinato, maior aliado dos EUA na região.

“Isso é uma pressão enorme, no intuito de fazer com que o regime iraniano responda a essas ações. A resposta do Irã poderia acarretar, inclusive, uma legitimação de uma ação mais dura contra ele próprio, a partir dos Estados Unidos, de Israel ou da Arábia Saudita”, comenta o professor.

 

Em funeral do general iraniano Qassim Suleimani, milhares pediram vingança contra os Estados Unidos. Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP

 

Líbano tem explosão com 200 mortos

Em 4 de agosto, uma explosão no porto de Beirute, capital do Líbano, deixou pelo menos 200 mortos e mais de 6,7 mil feridos, segundo a Associated Press. A tragédia ocorreu pela explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, armazenadas de forma indevida em um depósito.

Em 23 de setembro, o presidente do Líbano, Michel Aoun, disse na Assembleia Geral das Nações Unidas que 200 mil moradias foram atingidas e muitas ficaram inabitáveis. Quase 300 mil pessoas perderam suas casas e há graves danos na estrutura elétrica e na rede de abastecimento de águas.

Investigações estão sob análise no maior órgão judicial do país. Em dezembro, o ex-primeiro-ministro Hassan Diab foi acusado pela Justiça de negligência, segundo informou a agência estatal em 10 de dezembro.

Para Zahreddine, a explosão deteriora um quadro de convulsão política, econômica e social já vivido no Líbano, marcado pelo sectarismo e pela ausência do poder público. Desde a catástrofe, tenta-se fundar um novo governo no país, inclusive por pressão da França, mas isso ainda não ocorreu mesmo após quase seis meses.

“O Líbano, apesar do pequeno tamanho e da pequena economia, é um país muito importante, porque representa uma arena de disputa de vários atores regionais. Há interesses do Irã presentes no Líbano a partir do Hezbollah, interesses sauditas por meio dos partidos sunitas, e interesses da França pelos cristãos maronitas. A explosão é, além de uma catástrofe humana, resultado de uma convergência de fatores políticos.”

 

Causa de explosão no Líbano está sob investigação. Foto: Janine Haidar/AFP

 

Israel firma acordos de paz, a contragosto da Palestina

No segundo semestre deste ano, Israel assinou acordos de normalização de relações com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, a Arábia Saudita, o Sudão e o Marrocos, sob mediação de Trump. Os atos foram veementemente rechaçados pela Palestina.

Os palestinos e israelenses têm conflitos territoriais que datam do século passado, especialmente de 1948, quando foi assinada a Declaração de Independência do Estado de Israel. Desde então, o espaço palestino vem ficando cada vez menor.

Como forma de defender seu território, os palestinos tentam tratar as iniciativas de paz na região como uma questão de âmbito internacional. No entanto, para eles, os acordos de paz tentam reduzir a participação de outros países para solucionar a questão de forma bilateral.

Em 25 de setembro, a autoridade nacional da Palestina, Mahmoud Abbas, disse que “Israel destrói a última oportunidade de paz” no Oriente Médio.

Na visão de Zahreddine, os acordos de paz também serviam como um trunfo para Trump se reeleger nos Estados Unidos, e para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se manter no poder em Israel. Por um lado, contudo, a empreitada não deu certo, já que Trump foi derrotado. Resta saber o que ocorrerá em Israel, que dissolveu o Parlamento em 23 de dezembro e terá a 4ª eleição em menos de dois anos, em 23 de março de 2021.

“Os acordos de paz não trazem ganhos substantivos com clareza, mas enfraquece os palestinos e movimenta a cena árabe-israelense”, analisa Zahreddine.

 

O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: D. Myles Cullen/White House

 

Eleições na Bolívia desmentem narrativa de fraude

Era para Evo Morales estar na Presidência da Bolívia, já que ele foi vencedor nas eleições de 2019. No entanto, ele deixou o cargo após acusações de fraude pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Em seguida, um governo interino tomou o poder na Bolívia, sob o comando da senadora opositora Jeanine Áñez. No entanto, números provaram que não houve fraude, e o processo que beneficiou Jeanine Áñez foi acusado de golpe de Estado.

As eleições presidenciais de 2020 mostraram que a ala de Morales era mesmo a favorita. Em 18 de outubro, o candidato do Movimento ao Socialismo (MAS), Luis Arce, venceu com 55% dos votos, 26% a mais que o segundo colocado.

Para Talita Tanscheit, cientista política, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora sobre a América Latina, a vitória de Arce foi importante porque vivemos em um contexto de “restauração conservadora por vias antidemocráticas”.

“A Bolívia viveu um governo autoritário pela Jeanine Áñez. As eleições de 2020 comprovam que não ocorreu a dita fraude nas eleições de 2019 e restauraram a democracia, por meio de um processo muito interessante de conjugação de lutas sociais e institucionais dirigido pelo MAS”, avalia a professora.

“O golpe de Estado foi extremamente racista, em relação aos povos originários. No período, ocorreu uma série de massacres. Então, a eleição também fez justiça com os grupos sociais que se veem novamente representados em Luis Arce.”

 

Presidente Luis Arce ao tomar posse. Foto: Min. Presidencia

 

Chile enterra a Constituição de Pinochet

Por meio de um plebiscito em 25 de outubro deste ano, os chilenos derrubaram a Constituição Federal estabelecida pelo ditador Augusto Pinochet, em 1980. Não seria possível se não fossem as massivas revoltas iniciadas em 2019, em que mais de 200 manifestantes chegaram a perder os próprios olhos por ações autoritárias dos militares do governo de Sebástian Piñera.

Talita destaca que a votação consolidou a transição do Chile à democracia e finalmente desmantelou o legado da ditadura, que permeou as dinâmicas políticas do país por décadas. Agora, o desafio para o ano que vem é elaborar um novo texto constitucional, com garantias sociais ao povo chileno.

“A Constituição de Pinochet era o último alicerce do autoritarismo a ser derrubado. Então, o plebiscito inaugura um novo período para a democracia no Chile, que era comumente vista como incompleta, devido a esse legado tão forte”, observa a estudiosa.

 

Celebração da reforma da Constituição chilena em Santiago, Chile. Foto: Pedro Ugarte/AFP

 

Colômbia registra 90 massacres em 2020

A Colômbia chegou ao 90º massacre de 2020 no dia 28 de dezembro, quando cinco pessoas foram mortas entre os limites dos municípios Montecristo e Santa Rosa do Sul, no estado de Bolívar. Entre as vítimas, uma ex-combatente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Rosa Mendoza, e sua filha melhor de idade, segundo informou o jornal colombiano El Espectador.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz) define um massacre como um homicídio coletivo intencional de três ou mais pessoas protegidas pelo Direito Internacional Humanitário e sem condição de defesa, em iguais circunstâncias de tempo, modo e lugar.

De acordo com o observatório, 375 pessoas foram mortas em massacres neste ano. O instituto também contabilizou 307 assassinatos de líderes e defensores de direitos humanos. Apurações indicam atuação de grupos narcoparamilitares no campo e de agentes públicos nos centros urbanos.

Em 22 de setembro, o presidente Iván Duque disse lamentar os massacres, manifestou “rechaço contundente a qualquer forma de violência” e homenageou lideranças sociais.

Para Talita, no entanto, Duque, que está no poder desde 2018, tem atuado para esfacelar o Acordo de Paz, firmado em 2016 entre o governo colombiano e as Farc. Na época, a promessa era colocar fim aos 52 anos de conflito armado no país.

“O governo de Iván Duque vem trabalhando para desmantelar esse acordo, em concordância com militares, paramilitares, setores do narcotráfico, em um processo extremamente violento e autoritário por parte do Estado, que coloca a Colômbia na contramão de um processo virtuoso que se esperava com o Acordo de Paz de 2016”, avalia a professora.

 

O presidente da Colômbia, Iván Duque. Foto: Marco Miranda/Presidência da Colômbia

 

Furacões devastam a América Central

Entre os meses de outubro e novembro, os furacões Eta e Iota provocaram pelo menos 150 mortes, causando estragos sobretudo em Honduras, Nicarágua e Guatemala. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), foi a primeira vez que dois furacões se formaram no Atlântico no mês de novembro, período de término da estação de tempestades tropicais.

Somados ao contexto da pandemia, os desastres aprofundaram a crise econômica na região. Em 19 de novembro, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) pediu, com urgência, o levantamento de 42,6 milhões de dólares para oferecer ajuda humanitária a 646 mil pessoas, das zonas mais atingidas.

Segundo o órgão, só o furacão Eta afetou pelo menos 4,6 milhões de pessoas, entre elas, cerca de 1,8 milhão de crianças, mais vulneráveis a doenças decorrentes da tragédia.

“Os efeitos foram muito fortes em países onde as condições de vida da população já são bem precárias”, analisa Talita. “Furacões têm efeitos devastadores em qualquer lugar, mas, nessas condições, eles são ainda maiores.”

 

Escola foi destruída com passagem de furacões em Honduras. Foto: Orlando Sierra/AFP

 

Trump é derrotado em tentativa de reeleição

A derrota de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, em que Joe Biden foi vitorioso, terá desdobramentos diretos em conflitos internacionais, como na Ásia, no Oriente Médio e na América Latina. A eleição foi o fato internacional mais importante neste ano para Leonardo Ramos, professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e especialista em estudos sobre o G8 e o G20.

Para o pesquisador, a entrada de Biden na Casa Branca pode representar uma mudança de agenda nas áreas ambiental e econômica. No cenário doméstico, os movimentos antirracistas que foram às ruas após o assassinato de George Floyd aumentam as pressões sobre a criação de políticas voltadas para a população negra. Na política externa, diz Ramos, a transição tem reflexos na relação com o Brasil, já que o ídolo do presidente Jair Bolsonaro saiu como perdedor, e com a China, país com o qual foi travada uma guerra comercial no último governo.

“O Biden vem de uma trajetória de outra natureza, mais convencional, com outro engajamento. Vai demorar um tempo para restaurar o que a gente poderia chamar de ‘confiança’, principalmente por parte dos estados europeus, mas a ideia é essa: uma reconstrução da hegemonia estadunidense”, observa.

 

Joe Biden e Donald Trump. Foto Mandel Nan, Jim Watson/AFP

 

China celebra maior acordo comercial do mundo

Em 15 de novembro, a imprensa internacional noticiava a assinatura da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês), o maior bloco de livre comércio do mundo, com 15 economias da região da Ásia-Pacífico: China, Austrália, Brunei, Camboja, Cingapura, Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia, Japão, Laos, Malásia, Mianmar, Nova Zelândia, Tailândia e Vietnã. Notadamente, os Estados Unidos foram excluídos.

Para Ramos, o bloco pode dar o que falar no ano que vem. Isso porque, se o eixo econômico mundial já vinha mudando para o Pacífico, agora um acordo assinala a perda da liderança dos Estados Unidos na região durante o governo Trump. Na era Obama, essa agenda foi discutida, mas posteriormente abandonada com a entrada do republicano.

“Na medida em que Trump adota a postura de não continuar as negociações, a China assume a liderança, como um mercado importantíssimo para esses países da Ásia. Para os chineses, essa parceria é fundamental dentro da estratégia Belt and Road [iniciativa conhecida como a ‘Nova Rota da Seda’, lançada em 2013, como um programa de longo prazo para promover investimentos e conexões com todas as regiões do mundo]. É preciso ver como o Biden vai lidar com isso”, analisa Ramos.

 

O presidente da China, Xi Jinping. Foto: Wang Zhao/AFP

 

Multilateralismo em pauta e neoliberalismo na berlinda

Conforme visto na 75ª Assembleia Geral da ONU, em setembro, o multilateralismo foi um tema presente em uma série de discursos de autoridades, como uma necessidade urgente na pandemia.

Líder nos índices de mortes e de casos de coronavírus, os Estados Unidos preferiram se retirar da Organização Mundial da Saúde (OMS), posição criticada pelos países que apoiam ações multilaterais contra a crise sanitária. Já a China, primeira nação a sofrer os efeitos da Covid-19, defendeu ativamente esses valores, como em carta enviada à ONU em 10 de setembro.

Para Ramos, o enfraquecimento a essas ações, por parte de Washington, materializaram-se, por exemplo, na dificuldade apresentada pelo G20 em dar respostas à altura das emergências da crise.

“Para as principais potências, no sentido de manutenção da ordem, essas articulações multilaterais são fundamentais”, diz o professor. “A pandemia mostrou, por exemplo, a relevância de instituições como a OMS. A crise trouxe à tona a importância do multilateralismo para lidar com questões críticas em escala mundial. É preciso pensar em como os EUA e a China vão se comportar daqui para frente nesse sentido.”

O professor observa também que a pandemia explicitou, de maneira radical, os limites do neoliberalismo. Para ele, ficou evidente o protagonismo do Estado em gerenciar a crise, produzir vacinas e medicamentos e estabilizar a economia. Ele dá exemplos de ações na Ásia e na Europa, em que governos atuaram com mãos firmes para deter a contaminação – assim como, por outro lado, ações do Estado fazem falta quando o governo é um mau gestor.

“Deixar nas mãos do mercado significaria uma hecatombe, um genocídio. A pandemia deixou clara a falácia do argumento neoliberal de que o Estado é ineficiente. Obviamente, temos que rediscutir o papel do Estado. Mas não podemos abandonar o Estado como um ator fundamental.”

 

Mulher recebe vacina em Moscou. Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP

 

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Repórter do site de CartaCapital

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