Justiça

Assassinato de Floyd mostra EUA longe de ser a terra da liberdade

Amplificado por vozes que atingem milhões de pessoas, EUA queima no grito sufocado por direitos

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Nos anos 90, Michael Jordan foi alçado ao posto de estrela internacional, o que lhe assegurou uma série de contratos com franquias dispostas a ganhar alguns trocados em cima de sua fama. A marca de Jordan foi estampada nos mais diversos produtos, com destaque para a série de tênis “Air Jordan”, ainda hoje um sucesso de vendas.

Em 1990, a Carolina do Norte, seu estado, viu a disputa ao Senado ocorrer entre o supremacista branco Jesse Helms, pelo Partido Republicano, e o arquiteto negro Harvey Gantt, pelo Partido Democrata. Gantt, após dois mandatos como prefeito de Charlotte, decidira se candidatar ao parlamento com chances consideráveis de vitória.

A pressão sobre Jordan era inevitável. Como não recorrer a uma personalidade negra, que, além de ser uma das mais destacadas na história do esporte, era a mais popular do país? O ala-armador do Chicago Bulls, entretanto, tratou os clamores por engajamento da mesma maneira que fazia com os pivôs que, impotentes, tentavam impedir suas enterradas. No série “Arremesso Final”, da Netflix, o ex-jogador, para explicar sua “neutralidade”, reconhece que chegou a dizer que “republicanos também compram tênis”, ainda que em tom informal. Mesmo os apelos de sua mãe para que subisse no palanque de Gantt foram ignorados. Eram outros tempos.

Tão difícil quanto driblar a pressão era evitar a comparação com Muhammad Ali. Diferente de Jordan – que afirma admirá-lo por seu ativismo -, Ali mostrou-se disposto a enfrentar sem piedade o racismo, esmurrando-o com vigor semelhante ao dos sopapos que desferira contra as dezenas de adversários levou à lona.  Nem que para isso sua carreira fosse comprometida, como de fato ocorreu.

O boxeador aproveitou sua projeção para denunciar o flagrante racismo em solo estadunidense, recusando-se a lutar na guerra do Vietnã e afirmando que não percorreria dez mil quilômetros para assassinar outro povo e contribuir para a continuidade da dominação de brancos sobre negros. Ali, que estava no auge, fez questão de dizer que nenhum vietcongue jamais o chamara de “crioulo” como ocorre nos EUA. Seu verdadeiro inimigo não estava na Ásia.  Acabou sendo alvo de sucessivas ameaças, inclusive de prisão. Seus títulos foram confiscados e sua licença de boxeador cassada. Pouco importou o fato de estar invicto, com 22 nocautes nas 29 lutas que fizera.

As intervenções de Ali desnudaram ainda mais o fato de que a “terra da liberdade” não vai muito além de um slogan.

Em carta escrita em 3 de janeiro de 1960, Hannah Arendt relata os efeitos do horror daquilo que os descendentes dos negros escravizados nos EUA costumam chamar de Black Holocaust:

“Foi proposta a todos os últimos anos das escolas de Nova York uma atividade de produção escrita: imaginar uma maneira para punir Hitler. E veja o que propôs uma jovem negra: ele deveria ser colocado sob uma pele negra e, então, ser obrigado a viver nos Estados Unidos”.

No livro “O que é racismo estrutural?”, Silvio Almeida explica como o significado das práticas racistas é envolto de uma ideologia que, como tal, não é visível em um primeiro olhar. O exemplo de Stokely Carmichael, liderança dos Panteras Negras, mostra a naturalização e o traço estrutural da discriminação racial: “lembro-me de que, quando era garoto, costumava ver os filmes de Tarzan no sábado. O Tarzan branco costumava bater nos nativos pretos. Eu ficava sendo gritando: ‘mate essas bestas, mate esses selvagens, mate-os!’. Eu estava dizendo: ‘mate-me!’. Era como se um menino judeu assistisse aos nazistas levando judeus para campos de concentração e isso o alegrasse”.

O alicerce ideológico da percepção de Carmichael quando criança é o mesmo que naturaliza o encarceramento em massa e o genocídio do povo pobre e preto do Brasil de 2020. São estas as estruturas que fizeram a polícia branca de Minneapolis se ver moral e institucionalmente autorizada a assassinar George Floyd à luz do dia, sem qualquer constrangimento. A morte do adolescente João Pedro, atingido pela PM enquanto brincava em casa com os primos, explica, junto com o assassinato de Floyd, os apelos da mãe de Jordan – uma súplica, na verdade, para que o filho usasse de sua influência para evitar mortes como estas.

Hoje, considerando estarmos em tempos diferente dos anos 90, vemos como um astro do basquete como Lebron James se posicionar tem um potencial transformador.

Com o potencial de vozes proeminentes, sendo seguida por milhões de pessoas, Minneapolis queima junto com os mitos da democracia racial e da terra da liberdade. Que continuem queimando.

Nos anos 90, Michael Jordan foi alçado ao posto de estrela internacional, o que lhe assegurou uma série de contratos com franquias dispostas a ganhar alguns trocados em cima de sua fama. A marca de Jordan foi estampada nos mais diversos produtos, com destaque para a série de tênis “Air Jordan”, ainda hoje um sucesso de vendas.

Em 1990, a Carolina do Norte, seu estado, viu a disputa ao Senado ocorrer entre o supremacista branco Jesse Helms, pelo Partido Republicano, e o arquiteto negro Harvey Gantt, pelo Partido Democrata. Gantt, após dois mandatos como prefeito de Charlotte, decidira se candidatar ao parlamento com chances consideráveis de vitória.

A pressão sobre Jordan era inevitável. Como não recorrer a uma personalidade negra, que, além de ser uma das mais destacadas na história do esporte, era a mais popular do país? O ala-armador do Chicago Bulls, entretanto, tratou os clamores por engajamento da mesma maneira que fazia com os pivôs que, impotentes, tentavam impedir suas enterradas. No série “Arremesso Final”, da Netflix, o ex-jogador, para explicar sua “neutralidade”, reconhece que chegou a dizer que “republicanos também compram tênis”, ainda que em tom informal. Mesmo os apelos de sua mãe para que subisse no palanque de Gantt foram ignorados. Eram outros tempos.

Tão difícil quanto driblar a pressão era evitar a comparação com Muhammad Ali. Diferente de Jordan – que afirma admirá-lo por seu ativismo -, Ali mostrou-se disposto a enfrentar sem piedade o racismo, esmurrando-o com vigor semelhante ao dos sopapos que desferira contra as dezenas de adversários levou à lona.  Nem que para isso sua carreira fosse comprometida, como de fato ocorreu.

O boxeador aproveitou sua projeção para denunciar o flagrante racismo em solo estadunidense, recusando-se a lutar na guerra do Vietnã e afirmando que não percorreria dez mil quilômetros para assassinar outro povo e contribuir para a continuidade da dominação de brancos sobre negros. Ali, que estava no auge, fez questão de dizer que nenhum vietcongue jamais o chamara de “crioulo” como ocorre nos EUA. Seu verdadeiro inimigo não estava na Ásia.  Acabou sendo alvo de sucessivas ameaças, inclusive de prisão. Seus títulos foram confiscados e sua licença de boxeador cassada. Pouco importou o fato de estar invicto, com 22 nocautes nas 29 lutas que fizera.

As intervenções de Ali desnudaram ainda mais o fato de que a “terra da liberdade” não vai muito além de um slogan.

Em carta escrita em 3 de janeiro de 1960, Hannah Arendt relata os efeitos do horror daquilo que os descendentes dos negros escravizados nos EUA costumam chamar de Black Holocaust:

“Foi proposta a todos os últimos anos das escolas de Nova York uma atividade de produção escrita: imaginar uma maneira para punir Hitler. E veja o que propôs uma jovem negra: ele deveria ser colocado sob uma pele negra e, então, ser obrigado a viver nos Estados Unidos”.

No livro “O que é racismo estrutural?”, Silvio Almeida explica como o significado das práticas racistas é envolto de uma ideologia que, como tal, não é visível em um primeiro olhar. O exemplo de Stokely Carmichael, liderança dos Panteras Negras, mostra a naturalização e o traço estrutural da discriminação racial: “lembro-me de que, quando era garoto, costumava ver os filmes de Tarzan no sábado. O Tarzan branco costumava bater nos nativos pretos. Eu ficava sendo gritando: ‘mate essas bestas, mate esses selvagens, mate-os!’. Eu estava dizendo: ‘mate-me!’. Era como se um menino judeu assistisse aos nazistas levando judeus para campos de concentração e isso o alegrasse”.

O alicerce ideológico da percepção de Carmichael quando criança é o mesmo que naturaliza o encarceramento em massa e o genocídio do povo pobre e preto do Brasil de 2020. São estas as estruturas que fizeram a polícia branca de Minneapolis se ver moral e institucionalmente autorizada a assassinar George Floyd à luz do dia, sem qualquer constrangimento. A morte do adolescente João Pedro, atingido pela PM enquanto brincava em casa com os primos, explica, junto com o assassinato de Floyd, os apelos da mãe de Jordan – uma súplica, na verdade, para que o filho usasse de sua influência para evitar mortes como estas.

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Brenno Tardelli

Brenno Tardelli Editor de Justiça e Diversidade no site de CartaCapital. Mestrando em Direito pela USP-Ribeirão Preto. Advogado, fundou o site Justificando, onde foi diretor de redação por quatro anos.

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