Como ficam Rússia, China, Coreia do Norte em relação aos EUA?

Em entrevista a CartaCapital, especialista em Ásia mostra o que muda - ou não - com o resultado das eleições nos Estados Unidos

Estudantes chineses acompanham a cobertura das eleições nos EUA. Foto: Greg Baker/AFP

Estudantes chineses acompanham a cobertura das eleições nos EUA. Foto: Greg Baker/AFP

Mundo

Reta final das eleições nos Estados Unidos. Não à toa, o mundo inteiro com os olhos nos resultados. A mudança de presidente poderia, em tese, afetar de maneira significativa a forma como uma das maiores potências do planeta se relaciona com os demais países. Mas certas condutas da política externa estadunidense não vão mudar, nem com Joe Biden, nem com Donald Trump. É o que afirma Pedro Brites, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais e professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em entrevista a CartaCapital. Especializado nas relações internacionais da região da Ásia, o pesquisador aponta para a pressão contra a China como um dos principais compromissos que seguirão presentes em Washington, independentemente do novo inquilino da Casa Branca.

 

 

O avanço chinês parece inevitável. A nação governada por Xi Jinping deve ser a única grande economia a registrar crescimento neste ano, em plena pandemia do novo coronavírus. No trimestre encerrado em outubro, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês marcou alta de 4,9%. Para Brites, do ponto de vista global, a influência do país em outras regiões é “um caminho sem volta”. Mas isso não muda a agenda de disputa dos americanos. Mesmo que não seja possível deter os chineses, diz o professor, democratas e republicanos projetam formas de restringir os espaços de ação do rival asiático.

“Acho que a gente pode estabelecer alguma diferença no sentido de como isso vai ser feito”, diz o especialista. “Mas me parece que, ao fim e ao cabo, a disputa com a China vai se manter. Hoje, ela é estratégica dentro da inserção internacional dos Estados Unidos.”

No governo da Rússia, a balança pesa contra Biden. A atuação dos EUA na Ucrânia foi expressiva durante o governo de Barack Obama, destaca Brites, em referência à crise na região em 2013. O território ucraniano está localizado no entorno estratégico do país comandado por Vladimir Putin. Nos últimos meses, a Bielorrússia se tornou palco de desestabilização, situação que já foi apontada como oportuna para a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), chefiada pelos EUA. Brites cita ainda as áreas em que os russos combatem as intervenções estadunidenses, como Síria e Venezuela.

“Pensando que Trump deu muita atenção para a China, é de se imaginar que os Estados Unidos voltem com uma carga mais efetiva contra a Rússia com a eleição do Biden”, avalia o professor.

Biden também não sopra bons ventos para a Coreia do Norte. “Seria uma notícia pior do que Trump”, diz Brites. Desde que foi destruído pela guerra entre 1950 e 1953, o pequeno país asiático tenta costurar acordos de paz com os americanos, algo que ainda não conseguiu. Apesar de diferentes tentativas da política externa norte-coreana, a nação governada hoje por Kim Jong-un é vítima de bloqueios econômicos que dificultam o seu desenvolvimento. O investimento militar tornou-se uma via para a Coreia do Norte tentar se impor na mesa de negociações, e isso ocorreu na gestão Trump: o republicano foi o primeiro presidente a pisar no território do país. Do outro lado, conforme diz o professor, o histórico do Partido Democrata é de não negociar com a Coreia do Norte.

“Trump seria um cenário mais promissor, para pensar na possibilidade de a Coreia do Norte conseguir aliviar sanções ou obter algum acordo de médio prazo”, avalia.

Confira, a seguir, a entrevista na íntegra de CartaCapital com o professor Pedro Brites:

 

O presidente russo, Vladimir Putin. Foto: Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP

 

CartaCapital: A Rússia tem razões para temer mais Joe Biden do que Donald Trump?

Pedro Brites: Em algum grau, me parece que os governos democratas adotaram uma política externa mais confrontacionista em relação à Rússia. É claro que, durante as eleições de 2016, muito se especulava que Hillary Clinton tivesse relações com Moscou. Mas se a gente voltar ao governo Obama, veremos que houve uma grande pressão por parte da OTAN e dos Estados Unidos na crise da Ucrânia.

Pensando que o governo Trump deu muita atenção para a competição com a China, é de se imaginar que os Estados Unidos voltem com uma carga mais efetiva contra a Rússia com a eleição do Biden. Especialmente pensando em algumas crises regionais no Leste Europeu, como o caso da Bielorrússia, onde a OTAN não teve uma participação ativa, e a gente viu o Ocidente um pouco mais retraído em tomar uma medida mais drástica.

 

Uma possibilidade, mas não uma prioridade, seria o retorno a uma pressão mais ativa no entorno estratégico da Rússia com a vitória do Biden

 

Fora daquela região, você tem o Oriente Médio. Foi no governo Obama que nós tivemos uma crise, talvez a mais séria, quando falamos da Síria. Em 2013, a gente teve uma situação de quase confronto entre os Estados Unidos e a Rússia sobre a Síria, quando o governo americano acusou a Síria de ter ultrapassado a “linha vermelha”, que era alegadamente o uso de armas químicas. Os Estados Unidos tinham a intenção de intervir, e a Rússia que se colocou contra e evitou que a guerra escalasse para uma intervenção direta americana.

Ou seja, você tem um histórico recente dos governos democratas estabelecendo pressão sobre algumas áreas que são importantes para a Rússia. A gente pode incluir nesse combo a Venezuela.

 

CC: Como a guerra comercial contra a China poderia ser visualizada nos cenários dos dois governos?

Pedro Brites: Acredito que hoje o tema China é bastante consensual dentro do establishment político americano. Independentemente de olharmos para um governo republicano ou um democrata, me parece que a perspectiva de competição e de confrontação com a China vai se manter. Isso também é presente na academia americana: as publicações têm refletido a inevitabilidade dessa disputa entre os dois países.

Acho que a gente pode estabelecer alguma diferença no sentido de como isso vai ser feito.

Me parece que um governo democrata vai tentar trazer a discussão das instituições internacionais para dentro dessa competição. Seria usar o multilateralismo também como um mecanismo para pressionar a China, algo que a gente não viu no governo Trump, que tomou medidas mais unilaterais, seja na guerra comercial, na pressão sobre a Huawei.

Mas apesar de haver uma possível mudança na tática, me parece que, ao fim e ao cabo, a disputa com a China vai se manter. Hoje, ela é estratégica dentro da inserção internacional dos Estados Unidos. Mesmo se a gente pensar em outros atores importantes dos partidos Democrata e Republicano, todos têm reiterado a importância de se manter ativo na disputa com a China.

 

O presidente da China, Xi Jin Ping. Foto: Nicolas Asfouri/AFP

 

CC: Um deles seria capaz de deter o crescimento e a liderança da China perante a comunidade internacional?

Pedro Brites: Há muitos aspectos da posição chinesa no mundo que são inevitáveis. A posição da China de maior economia do mundo é inevitável nos próximos anos. O protagonismo que a China exerce no ponto de vista global está presente em todos os continentes. Isso me parece um caminho sem volta.

Mas é claro que em alguns tópicos específicos os Estados Unidos poderiam trazer prejuízos para a inserção externa chinesa. O caso do 5G talvez seja o mais simbólico. Muitos países, como o Reino Unido, tinham inclinação em assinar com o 5G e voltaram atrás. O Brasil tem sofrido uma pressão para fugir de uma parceria com a China. Claro que isso afeta a estratégia global da Huawei e a internacionalização tecnológica que a China vem propondo. Isso não vai impedir a China de ser uma grande potência. Mas isso mina as capacidades chinesas.

Todo esse embargo feito às empresas chinesas afeta a cadeia de produção tecnológica na China, porque a Huawei tem o domínio tecnológico lá da ponta do 5G, mas não tem as cadeias intermediárias de produção. Ela depende de financiadores externos. E os EUA estão barrando isso. Então, talvez, você jogue a Huawei dez anos para trás, se continuar com essa pressão tão forte sobre a empresa. E os EUA não fazem isso para favorecer suas empresas, porque eles não têm nenhuma empresa competindo por essa tecnologia. Você tem empresas da Europa, da Coreia do Sul, mas no caso dos EUA não há um interesse próprio, é justamente para prejudicar a China nessa competição global.

E do ponto de vista militar, você ainda tem uma discrepância muito significativa. Os Estados Unidos ainda são assimetricamente muito superiores em relação à China em termos militares. Me parece que, hoje, os Estados Unidos sabem que é impossível impedir que a China seja o que ela é, mas tentam restringir o seu espaço de ação.

Na América Latina, é um passo que qualquer um dos dois pode tomar. Já vinha uma pressão por parte do governo Trump, mas o Biden também poderia tentar conter o avanço da China entre os países latinos.

 

CC: O governo chinês acusa os EUA de terem se envolvido nos protestos de Hong Kong. É do interesse de Biden e Trump desestabilizar a China por meio desses movimentos?

Pedro Brites: A gente não tem uma comprovação de que houve uma interferência interna direta, isso é uma alegação do governo chinês.

Mas a gente sabe que houve uma grande reverberação dentro do establishment político americano frente às manifestações. Muitos atores, sejam os congressistas americanos, o próprio presidente Donald Trump, a academia e a sociedade americana, reverberaram e deram apoio aos manifestantes contra o governo central na China. Diplomaticamente, isso é visto pela China como uma interferência, por construir uma narrativa de que os manifestantes estão certos em suas alegações. Para a China, isso é ultrapassar a linha da sua soberania.

O governo chinês reage a isso, como reagiu, estrategicamente, tentando não usar violência muito forte contra os manifestantes, para não gerar imagens que pudessem ser disseminadas pelo mundo de um governo chinês violento. Tem todo um jogo de como lidar com isso internamente.

Olhando para os dois governos [Biden e Trump], é claro que os Estados Unidos têm um histórico de intervenção bem significativo. Os EUA, por exemplo, têm uma parceria militar com Taiwan, algo que a China já denunciou por afetar os interesses chineses. Os EUA forneciam mísseis e venderam uma série de aparatos militares para Taiwan. Isso para a China não é um bom exercício.

Pragmaticamente, essa pressão sobre o entorno chinês vai continuar. Me parece que toda a argumentação voltada a criminalizar as ações chinesas no plano internacional vai continuar. Eu sempre lembro: foi quando Joe Biden era vice-presidente no governo Obama que começou um discurso forte da política de contenção da China, lá em 2011. Quando isso ocorre, há a denúncia de que os Estados Unidos não vão mais tolerar que a China intervenha no sudeste asiático.

É difícil a gente precisar os meios, se os Estados Unidos vão arriscar uma intervenção mais direta ou se vão só continuar com essa pressão diplomática. Depende do governo e das circunstâncias. Mas, com certeza, a pressão sobre a China, nesses pontos principalmente, em Hong Kong e Taiwan, imagino que vá continuar sim.

 

Donald Trump e Kim Jong-un, caminham para uma reunião bilateral, em 2018, em Cingapura. Foto: Shealah Craighead/Casa Branca

 

CC: Após o encontro de Kim Jong-un e Trump, a vitória do republicano seria mais favorável para a Coreia do Norte se livrar dos bloqueios econômicos dos quais ainda é alvo?

Pedro Brites: Esse é um ponto curioso. Paradoxalmente, Trump teve uma política externa agressiva em relação a muito dos seus competidores internacionais, mas abriu à Coreia do Norte possibilidades históricas de cooperações intercoreanas e com os Estados Unidos. Desde a Guerra da Coreia [ocorrida entre 1950 e 1953], a Coreia do Norte trabalhou pela possibilidade de ter negociações diretas com o alto escalão do governo americano, e isso pôde ocorrer durante o governo Trump. Um encontro entre os dois era algo inimaginável há uma década atrás. O governo Obama nunca deu relevância para esse tema como para outros.

Então, por mais que a gente observe essa política externa mais ostensiva do governo Trump, você teve mais espaço para negociação no que diz respeito à Coreia do Norte. Claro que esse momento foi acompanhado de uma chegada de um governo mais progressista na Coreia do Sul, que tem mais interesse em cooperar com a Coreia do Norte.

 

Me parece que, para a Coreia do Norte hoje, uma sequência do governo Trump não seria o pior cenário

 

Acho que seria, inclusive, um cenário mais promissor, para pensar na possibilidade de a Coreia do Norte conseguir aliviar sanções ou obter algum acordo de médio prazo, para poder rever o seu programa nuclear. E os governos democratas, historicamente, fazem uma pressão diplomática mais incisiva, de maior cerceamento, de não-negociação. Não é uma pressão militar e confrontacionista direta, mas é uma pressão de isolamento completo da Coreia do Norte. Acredito que Biden eleito seguiria esse caminho, pensando no modus operandi do Partido Democrata em relação à Ásia.

Então, com certeza, para a Coreia do Norte, a eleição do Biden poderia ser uma notícia pior do que a do Trump. Em que pese o auge das negociações das duas Coreias no final dos anos 1990 tenha ocorrido sob a égide de um governo democrata, desde então, a tendência tem sido os governos democratas lidarem com “paciência estratégica” em relação à Coreia do Norte, tentando esperar o colapso do regime e não se abrindo à negociação.

 

CC: Em um aspecto geral, o que é possível dizer que não mudará na política externa dos EUA, independentemente da vitória do Biden ou do Trump?

Pedro Brites: Tem três pontos que se mantêm. Um é mais histórico e estrutural. Os Estados Unidos vão continuar lutando com unhas e dentes para manterem sua posição de protagonista da política internacional, assegurando-se como hegemon, como Estado dominante do sistema. Isso é intrínseco à política dos EUA, desde que se formam como nação.

Outro aspecto é a questão da China. A competição com a China vai se manter, essa rivalidade vai continuar sendo a pauta central das relações internacionais contemporâneas por um bom tempo. É pouco provável que haja uma alteração nesse sentido, uma alteração, como ocorreu há uma década e meia atrás. Até pela própria China, que já viu que essa possibilidade de cooperação é muito difícil.

Um terceiro aspecto é uma tendência dos Estados Unidos de não aderirem a grandes acordos econômicos internacionais, tendência que o Trump inaugurou. Se a gente olhar o governo Obama, ele tentou acionar a parceria do Transpacífico [Acordo de Associação Transpacífico, TPP na sigla em inglês], um acordo de livre-comércio que envolvia países banhados pelo Oceano Pacífico, com cooperação tecnológica e voltada para patentes. Também durante o governo Obama, fez-se um acordo com a Europa para incrementar o livre comércio.

Isso hoje não me parece mais uma tendência. Trump denunciou esses tratados como sendo um dos elementos que feriam a economia americana. Hoje, é uma pauta tão consolidada que o Biden, mesmo no Partido Democrata, fugiu de abrir margem para que esse tipo de interpretação fosse dada à sua política externa – uma interpretação voltada para a globalização econômica. Isso me parece algo que os Estados Unidos, neste momento, não vão priorizar. Vai ter foco maior em relações bilaterais, com um ou outro parceiro, mas principalmente pensando em suas questões internas. Essa visão mais nacionalista da condução da política econômica me parece uma tendência que se mantém.

 

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Repórter do site de CartaCapital

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