Evo fraudou as eleições na Bolívia? Os números dizem que não

Segundo cientistas eleitorais do MIT, a vitória em primeiro turno do ex-presidente seguiu padrões estatísticos normais

O ex-presidente boliviano Evo Morales. Foto: Bertand Langlois/AFP

O ex-presidente boliviano Evo Morales. Foto: Bertand Langlois/AFP

Mundo

O presidente Evo Morales, da Bolívia, foi derrubado por tentar um quarto mandato às custas de fraude eleitoral. Essa relação de causa e consequência foi, quase sempre, tratada como fato pela imprensa estrangeira. Mas não se sustenta nos números. É o que diz um estudo do MIT, um dos mais prestigiados institutos de ciência e tecnologia do mundo.

É fato, porém, que a acusação da Organização dos Estados Americanos deu fôlego aos protestos contra Morales e mais tarde, à sua queda. O pivô dessa suspeita foi um ‘apagão’ na divulgação das parciais da eleição. Segundo a OEA, a interrupção teria dado a Morales uma suspeitosa vantagem para liquidar a fatura da disputa já em primeiro turno.

De acordo com os cientistas John Curiel e Jack R. Williams, especialistas em auditoria eleitoral, as evidências estatísticas não corroboram a tal fraude. A dupla não crava se houve ou não interferência do governo. Mas mostra que a vitória de Evo já era esperada. E que o pânico que a OEA ajudou a alastrar não tem lastro nos dados oficiais.

O eixo x mostra a vantagem de Morales antes do ‘apagão’ em 1.477 distritos antes e depois do ponto de corte. O eixo y, a margem final relatado na contagem oficial. A alta correlação entre a contagem preliminar e os resultados finais sugere que não há irregularidades significativas (Reprodução/Jack Williams)

Em artigo publicado no Washington Post, a dupla elabora: se a conclusão da OEA fosse correta, seria de se esperar que vantagem de Morales aumentasse após a interrupção. Essa margem seria grande demais para ser explicada por seu desempenho antes do ‘apagão’. E outras anomalias, como mudanças repentinas nos votos de Morales em distritos onde ele era menos popular. Nada disso aconteceu.

Na Bolívia, os votos são registrados em grandes fichas de papel, as actas, e divididos por distritos. A contagem preliminar foi interrompida às 20h10 e retomada no dia seguinte. Àquela altura, 84% das actas haviam sido contadas, dando a Morales 7,9 pontos percentuais de vantagem. Pouco menos de 24 horas depois, a justiça eleitoral boliviana relatou à OEA ter computado 95% dos votos.

Essa parcial dava a Morales a vantagem necessária para vencer ainda em primeiro turno – no sistema boliviano, ganha o candidato que tiver mais de 40% dos votos e dez pontos percentuais à frente o adversário.

Curiel e Williams tentaram descobrir até que ponto aqueles primeiros 84% ​​antes do ‘apagão’ anteviam os resultados finais da votação. E concluíram ser “muito provável” que Morales tivesse os votos necessários. Segundo eles, o ex-presidente boliviano poderia esperar uma vantagem de pelo menos 10,5 pontos percentuais sobre Carlos Mesa.

A OEA desconfiou. Ainda naquele dia, relatou “profunda preocupação e surpresa com a mudança drástica e difícil de explicar na tendência dos resultados preliminares”. A suspeita virou alerta. Semanas depois, a organização alegou que a interrupção resultou em uma alta “altamente improvável” na vantagem percentual de Morales. Em dezembro, veio o relatório final. Adotando uma nova abordagem para a análise de fraudes, a OEA alegou que altos desvios nos dados relatados antes e depois do corte indicariam possíveis evidências de fraude.

Diante da posição da OEA, Morales concordou em realizar novas eleições. Não foi preciso. No dia 11 de novembro ele, deixou ao cargo sob a pressão das Forças Armadas. Acusado de sedição e terrorismo, exilou-se no México e, mais recentemente, na Argentina. O governo dito provisório se esparrama, persegue opositores e concorrerá às eleições, marcadas para maio. Ao menos 35 pessoas morreram durante os protestos.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Editora-executiva do site de CartaCapital

Compartilhar postagem