Justiça

Lula prepara 7 de Setembro verde e amarelo para evitar uso eleitoral do desfile

Presidente deve destacar soberania, combate ao feminicídio e futebol feminino, mas sem símbolos do PT; temor na campanha é repetir precedente que levou Bolsonaro à inelegibilidade

Lula prepara 7 de Setembro verde e amarelo para evitar uso eleitoral do desfile
Lula prepara 7 de Setembro verde e amarelo para evitar uso eleitoral do desfile
O presidente Lula (PT) e a primeira-dama Janja no desfile de 7 de Setembro de 2025, em Brasília. Foto: Evaristo Sa/AFP
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O presidente Lula (PT) deve participar do desfile de 7 de Setembro, em Brasília, na próxima segunda-feira, em uma cerimônia planejada para ter caráter institucional e evitar qualquer associação direta com a campanha. A preocupação no Palácio do Planalto é que manifestações de Lula durante a celebração da Independência sejam interpretadas como propaganda ou pedido de votos, como ocorreu com Jair Bolsonaro (PL) no mesmo evento em 2022.

A programação preparada pelo governo deve priorizar temas considerados de interesse nacional, como soberania, combate ao feminicídio e futebol feminino. A escolha da Seleção Brasileira feminina também dialoga com a realização da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será sediada no Brasil. Lula não deve discursar.

A orientação é que o evento tenha predominância das cores verde e amarelo e preserve distância de símbolos partidários. A expectativa é que ministros, aliados e apoiadores evitem peças que possam ser identificadas diretamente com o PT, como roupas predominantemente vermelhas e acessórios com o número 13. Os preparativos passam pelo crivo da Advocacia-Geral da União, justamente para reduzir o risco de questionamentos na Justiça Eleitoral.

O cuidado tem como referência direta o que aconteceu no 7 de Setembro de 2022, quando Bolsonaro transformou as comemorações do Bicentenário da Independência em uma sequência de eventos oficiais. Pela manhã, em Brasília, o então presidente fez referência explícita à eleição marcada para 2 de outubro daquele ano e pediu que seus apoiadores fossem votar e convencessem eleitores que pensavam de maneira diferente.

Depois do desfile, Bolsonaro participou de um ato na Esplanada dos Ministérios. O uso da estrutura pública e a conexão entre a cerimônia oficial e a manifestação eleitoral foram posteriormente analisados pelo Tribunal Superior Eleitoral. Em outubro de 2023, por 5 votos a 2, a Corte declarou Bolsonaro e seu candidato a vice, Walter Braga Netto, inelegíveis por oito anos por abuso de poder político e econômico nas comemorações do Bicentenário. O TSE também aplicou multas aos dois.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em ato político no 7 de Setembro de 2022. Foto: Ruy Baron/ AFP

O entendimento da maioria foi de que houve desvio da finalidade da celebração oficial para beneficiar a campanha. Segundo o TSE, recursos, bens e serviços públicos foram utilizados em uma estratégia que conectou o desfile aos atos eleitorais realizados na sequência.

A lembrança de 2022 se soma a outro episódio que marcou a relação de Bolsonaro com o 7 de Setembro. No ano anterior, em 2021, o então presidente aproveitou manifestações em Brasília e na avenida Paulista para atacar diretamente o Supremo Tribunal Federal e, especialmente, Alexandre de Moraes. Em São Paulo, afirmou que não cumpriria decisões do ministro e “pediu” que Moraes deixasse o cargo.

Naquele discurso, Bolsonaro disse que “qualquer decisão” de Moraes não seria mais cumprida por ele e afirmou que o ministro deveria “se enquadrar” ou deixar a Corte. O episódio elevou a crise entre o Executivo e o Supremo e provocou uma reação institucional. Dias depois, Bolsonaro recuou parcialmente e afirmou que suas declarações haviam ocorrido no “calor do momento”.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em ato do 7 de Setembro de 2021, em São Paulo. Foto: Paulo Lopes/AFP

Em 2026, a situação envolvendo Moraes volta a ocupar o centro dos atos de 7 de Setembro da direita, mas por um motivo diferente. As revelações de mensagens e encontros entre o ministro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, deram novo combustível à mobilização bolsonarista. 

O caso deve ser explorado no ato da Avenida Paulista, em São Paulo, que terá Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um dos principais personagens. A crise envolvendo Moraes deve dividir espaço com os ataques a Lula e com a defesa do afastamento do ministro. A manifestação ganhou força justamente após a divulgação do conteúdo apreendido no celular de Vorcaro. A mobilização vem sendo convocada por expoentes da direita, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), o pastor Silas Malafaia e o candidato à presidência Romeu Zema (Novo).

Apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) levantam cartazes contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes durante ato no 7 de Setembro de 2024, em São Paulo. Foto: Nelson Almeida/AFP

Há, porém, uma contradição evidente na estratégia de Flávio. O próprio candidato está diretamente ligado ao banqueiro que passou a ser usado como instrumento de ataque ao Supremo. Vorcaro financiou o projeto do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, depois de Flávio procurar recursos para a produção. Flávio também chamou Vorcaro de “irmão” em uma mensagem, embora posteriormente tenha negado que houvesse intimidade entre os dois e atribuído a expressão ao seu “modo carioca” de falar.

O episódio continua sendo uma vulnerabilidade para a campanha de Flávio. A imprensa tem questionado reiteradamente o candidato sobre os recursos destinados ao filme, mas o filho 01 do ex-presidente evita apresentar as contas da produção.

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