Política

PF encontrou registros de encontros entre Vorcaro e Moraes até a véspera da prisão

Os diálogos encontrados apontam reuniões em Brasília, São Paulo e Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira

PF encontrou registros de encontros entre Vorcaro e Moraes até a véspera da prisão
PF encontrou registros de encontros entre Vorcaro e Moraes até a véspera da prisão
O ministro Alexandre de Moraes durante o 4º dia de julgamento da trama golpista no STF. Na sessão, o ministro Luiz Fux profere o voto. Foto: Evaristo Sa / AFP
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A análise da Polícia Federal sobre o celular de Daniel Vorcaro identificou indícios de ao menos nove encontros presenciais entre o banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, entre 2024 e 2025.

Os diálogos encontrados apontam reuniões em Brasília, São Paulo e Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, e mostram que o dono do Banco Master recorria a diferentes interlocutores para combinar compromissos com o ministro. O material da PF foi tornado público nesta terça-feira, após o ministro André Mendonça retirar o sigilo de documentos relacionados ao caso das fraudes do Master.

Os registros mais antigos remontam a 2024. Em 13 de março daquele ano, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e Vorcaro trataram da possibilidade de marcar uma conversa com Moraes, identificado nas mensagens como “Alex”, para “tomar um whisky”. O compromisso, segundo a PF, acabou sendo remarcado por causa de um choque na agenda do banqueiro.

Um mês depois, em 17 de abril, Faria pediu a Vorcaro o endereço de sua residência no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, para repassá-lo a “Alex”. A mensagem dizia que seria apagada depois. Em julho, novamente por intermédio de Faria, as mensagens registram a confirmação de um encontro com “Alexandre”, previsto para as 19h30.

Em 5 de novembro de 2024, o próprio Vorcaro relatou à filha que estava “com alexandre moraes”. É um dos registros utilizados pela PF para apontar que o contato entre os dois não se limitava às tratativas por mensagens.

A relação presencial aparece novamente em 2025. Em 26 de fevereiro, um motorista de Vorcaro avisou ao banqueiro que o “Min Alexandre” havia chegado à residência. Pouco menos de um mês depois, em 19 de março, outro episódio descrito pela PF indica uma reunião que avançou pela madrugada.

Naquela noite, às 20h23, um funcionário avisou Vorcaro de que o “Min Alexandre chegou”. Em mensagens posteriores, o banqueiro informou à então namorada, Martha Graeff, que estava com o ministro e, pouco depois, disse a um diretor do Banco Central que estava “com Moraes aqui”.

Na madrugada do dia seguinte, o dono do Master informou ainda que outras pessoas haviam chegado para falar com “Alexandre”. Para os investigadores, a sequência das mensagens indica que o encontro pode ter se estendido por mais de quatro horas.

Em 19 de abril, durante o feriado, Vorcaro informou a Martha que estava saindo para encontrar Moraes “aqui perto de casa”. Questionado se o ministro estava em “Campos” pela então namorada, em provável referência a Campos do Jordão (SP), o banqueiro confirmou que o ministro passava o feriado na região.

Dez dias depois, em 29 de abril, Vorcaro voltou a dizer que estava com “Alexandre”. Mais tarde, ao ser questionado por Martha sobre quem estava com ele, respondeu novamente: “alexandre moraes”.

Em 21 de maio, o banqueiro disse à namorada que estava em casa com “Ciro e alexandre”. Em 8 de agosto, quando questionado sobre uma viagem, afirmou que provavelmente não conseguiria viajar porque estava “c alexandre” e que depois teria uma reunião com “Ciro”. A PF não confirma que o Ciro a quem Vorcaro se refere é o senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, ou o advogado Ciro Soares. Os dois são investigados por envolvimento nas fraudes do Master.

Os documentos enviados ao STF também registram uma sequência de contatos presenciais nas semanas que antecederam a prisão de Vorcaro, em novembro de 2025. Essa parte dos registros é mais detalhada nas mensagens recuperadas pela PF e indica sucessivas tentativas do banqueiro de se encontrar com Moraes.

Em 28 de outubro, Vorcaro informou ao ministro que iria a Brasília e perguntou se poderia passar em sua residência. Disse que, caso não fosse possível naquele dia, poderia ir no dia seguinte para uma conversa “rápida” e para “dar uma atualizada”.

Dois dias depois, em 30 de outubro, voltou a sondar Moraes sobre sua agenda e perguntou quando ele estaria de volta ao Brasil. Naquele período, o ministro estava em Madri, na Espanha, para participar de um congresso internacional.

A partir de 10 de novembro, a frequência dos convites aumentou. Naquele dia, Vorcaro perguntou se Moraes poderia encontrá-lo em Brasília na noite seguinte. Repetiu a pergunta em 11 de novembro.

No dia 12, depois de mencionar que não queria atrapalhar um “programa família”, o banqueiro explicou o motivo da insistência: disse que iria a Brasília “somente pra te ver e atualizar de tudo” porque havia “muita coisa acontecendo”. Sugeriu ainda que poderiam se encontrar na sexta-feira, em São Paulo. Na mesma sequência, Vorcaro afirmou que poderiam marcar o encontro e perguntou se seria melhor na casa dele ou na do ministro.

A PF identifica o dia 14 de novembro como uma das datas em que houve encontro presencial. Na véspera, Vorcaro confirmou o compromisso. No dia 14, às 10h03, escreveu: “Vou chegar 14h30 ok! La em casa marcado”.

O encontro ocorreu três dias antes da prisão do banqueiro. Depois dele, Vorcaro enviou uma mensagem de agradecimento a Moraes na qual afirmou ter uma “dívida de vida” com o ministro e sua família.

No dia seguinte, 15 de novembro, Vorcaro voltou a procurar Moraes para marcar uma nova reunião. Às 21h23, perguntou: “Podemos nos ver amanha rapidamente algum horário?”. Dez minutos depois, indicou que poderia ir à tarde e pediu que o ministro escolhesse um horário. Às 21h41, os dois acertaram a reunião para as 14h. Vorcaro perguntou se deveria passar na casa de Moraes ou se o ministro preferia a sua.

No domingo, 16 de novembro, às 13h40, o banqueiro avisou que já estava em voo, que pousaria às 14h20 e que iria “direto praí”. Segundo os registros reunidos pela investigação, houve novo encontro naquele dia, um dia antes da prisão de Vorcaro.

Na noite seguinte, 17 de novembro, Daniel Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Ele estava prestes a embarcar em um jato particular com destino aos Emirados Árabes Unidos. A investigação apontou suspeita de que ele pretendia deixar o País, mas a defesa do banqueiro alega que ele viajaria para tratar da venda do Master após o Banco Central barrar uma operação com o Banco de Brasília.

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