Jamil Chade

Jornalista, correspondente internacional, escritor e integrante do conselho do Instituto Vladimir Herzog

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A vez delas

A Copa do Mundo feminina em 2027, no Brasil, testará a promessa da Fifa de igualar as premiações entre homens e mulheres

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Terminada a Copa do Mundo nos EUA, a Fifa foca as atenções no Mundial Feminino, que será disputado no Brasil em 2027. Apesar da expectativa de que seja o maior torneio do futebol feminino da história, os cartolas da entidade viverão um teste, cumprir a promessa feita ainda em 2023 de equiparar os prêmios das mulheres ao volume de dinheiro dado aos homens.

Ao longo dos últimos anos e depois de décadas de uma negligência escandalosa, a Fifa tem, de fato, incrementado a premiação para as mulheres. Em 2019, distribuiu 30 milhões de dólares às seleções. Em 2023, o valor subiu para 110 milhões, o equivalente a 25% de tudo que foi repassado às seleções masculinas em 2022, durante a Copa no Catar.

Como tudo na Fifa, nem as promessas são tão claras. Segundo Gianni ­Infantino, a equiparação de receita ocorrerá apenas se as emissoras que transmitem o Mundial aceitarem incrementar o valor que pagam pelos direitos dos jogos. Em alguns mercados, o que emissoras oferecem para comprar os direitos do Mundial Feminino é de dez a cem vezes menor do que estão dispostas a pagar para mostrar os jogos dos homens.

Os levantamentos realizados internamente pela Fifa revelam que, em dezenas de países, a audiência do Mundial Feminino tem se aproximado aos níveis dos homens, ainda que nos principais mercados a taxa ainda esteja entre 20% e 50% abaixo da média. Mesmo assim, nada justifica que essas emissoras ofereceram valores bem mais modestos pelos jogos das mulheres.

A esperança de muitos dos negociadores na entidade é de que patrocinadores e parceiros do torneio entendam que uma revolução está em curso na sociedade. Um sinal desse terremoto ocorreu quando a seleção masculina dos EUA foi eliminada pela Bélgica, há poucas semanas. Por ter chegado às oitavas de final, a US Soccer ficou com 16 milhões de dólares em premiação da FIFA.

A grande novidade foi, no entanto, a decisão dos dirigentes norte-americanos de dividir a premiação igualmente entre os 26 jogadores e as 26 jogadoras que integrarão o time dos EUA para a Copa do Mundo Feminina de 2027. Esse acordo fazia parte do entendimento que as jogadoras exigiram de seus dirigentes, após quase seis anos de luta pública e ações judiciais da seleção feminina contra a US Soccer por igualdade salarial. Segundo o acordo, a federação retém 20% da premiação de cada Copa do Mundo e os 80% restantes são divididos igualmente entre os jogadores e jogadoras que integram as respectivas convocações para o torneio.

A divisão não acontece por acaso. A seleção feminina dos EUA conquistou quatro Copas do Mundo, incluindo títulos consecutivos em 2015 e 2019. Já a seleção masculina apenas chegou às quartas de final em 2002, há mais de 20 anos.

Para cumprir sua promessa, a Fifa tem vários desafios. Um deles vem de sua própria decisão de ter aumentado o prêmio para os homens, em 2026, de forma radical. No total, 727 milhões de dólares foram distribuídos para as 48 seleções que estiveram nos EUA, Canadá e México. Mas, com um torneio, que gerou quase 8 bilhões de dólares e com o ciclo de receita de quatro anos da Fifa atingindo 13 bilhões, muitos afirmam que a entidade tem recursos suficientes para aproximar os prêmios de mulheres e homens.

Uma decisão por parte da Fifa de equiparar prêmios teria um impacto profundo no esporte. Na Inglaterra, um relatório publicado em 2023 revelou que a diferença de salário nas respectivas primeiras divisões pode ser de cem vezes. Já um levantamento do sindicato dos atletas mostrou que dois terços das jogadoras na Copa de 2023 tiveram de pegar férias não remuneradas de seus empregos para poder competir.

Equiparar prêmios não apenas teria uma repercussão no futebol. Poderia servir de exemplo para a sociedade como um todo. No ritmo atual do avanço dos direitos das mulheres, o Fórum Econômico Mundial estimou que serão necessários 132 anos para garantir uma igualdade plena de gênero.

Por todos esses motivos, o Mundial de 2027 é por si só um evento político. Talvez no sentido mais profundo dessa palavra. O que está em jogo não é apenas quem ficará com o troféu, mas o espaço legítimo, igualdade e dignidade de uma parcela de 50% da população mundial.

Desembarcar no século XXI não é aprimorar o VAR. É garantir às mulheres seu lugar de direito, dentro e fora de campo. E não se trata de uma concessão. Um gesto de insurreição contra um sistema que ainda viola, asfixia e promove o controle político, social e sexual do corpo feminino. Um corpo que desde a infância precisa aprender a driblar pelo simples fato de ser mulher. Em jogo, no Mundial de 2027, está a liberdade. •

Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A vez delas’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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