Sociedade

Polícia investiga ataque incendiário a comunidade quilombola que inspirou ‘Torto Arado’

O episódio, ocorrido no último final de semana, tem como pano de fundo um conflito fundiário que se arrasta há anos

Reprodução/Comunidade Quilombola Iúna, em Lençóis (BA)
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A Polícia Civil da Bahia tenta localizar os responsáveis por um ataque incendiário à comunidade quilombola Iúna, em Lençóis (a 417 km de Salvador), local que inspirou o livro Torto Arado, do escritor Itamar Vieira Júnior. O episódio, ocorrido no último final de semana, tem como pano de fundo um conflito fundiário que se arrasta há anos.

Lideranças da comunidade perceberam a ação criminosa nas primeiras horas da sexta-feira, 26 de janeiro. Três residências de uma mesma família foram arrombadas e outra foi completamente incendiada, segundo contam os moradores. Os responsáveis pelo ataque também tentaram incendiar um trator da associação comunitária. Não houve feridos.

CartaCapital conversou com testemunhas e teve acesso a vídeos e fotos que mostram o rastro de destruição deixados pela ação: telhas queimadas, paredes e cortinas chamuscadas pelo fogo.

“Foi muito triste ver todos os meus móveis queimados. Ainda consegui salvar cinco sacos de ração para alimentar os bichos. Cheguei a achar que fosse um incêndio causado pela fiação elétrica, mas não, foi criminoso porque a casa tinha sinais de arrombamento”, afirmou uma moradora, que pediu reserva por medo de represálias.

Peritos estiveram no local no dia seguinte após lideranças registrarem um boletim de ocorrência na Delegacia Territorial de Lençóis. Moradores só devem prestar depoimento sobre o caso na próxima semana, apurou a reportagem.

O ataque voltou a impor temor entre lideranças da comunidade sete anos após uma chacina que vitimou oito pessoas. Os trabalhadores rurais foram mortos dentro das suas casas por homens que estavam em um veículo preto não identificado. À época, a Polícia atribuiu o morticínio à disputa entre facções criminosas – tese até hoje questionada pelos quilombolas.

Localizado na Chapada Diamantina, e marcado pela agricultura familiar, o território quilombola Iúna abriga ao menos 40 famílias, que chegaram ao local na seca que assolou o Nordeste em 1932, fugindo de outros quilombos. A população é ligada à mística religião do Jarê.

O local foi tema da tese de doutorado do geógrafo Itamar Vieira Júnior, nacionalmente conhecido pelo romance Torto Arado. A obra fala sobre a exploração, a fome, a seca, as relações de poder, as ameaças e a violência que afetam diretamente os povos tradicionais da Bahia.

Nos últimos anos, moradores da Iúna têm travado uma batalha contra fazendeiros que tentam expulsá-los do local e impedir a titulação das terras pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. A comunidade é reconhecida como remanescente de quilombo desde 2005 pela Fundação Palmares e aguarda a conclusão dos trâmites no Incra.

Enquanto a titulação não vem, famílias têm deixado a comunidade e buscam abrigo em cidades vizinhas. Antropólogo e representante da Comissão Pastoral da Terra, Claúdio Brito destaca que o impasse fundiário tende a fortalecer a especulação imobiliária e provoca a constante desintegração com o espaço físico.

“A relação ancestral com a pesca e o extrativismo tem sido enfraquecida, pessoas de fora têm mudado a dinâmica no território. O crescimento do monocultivo de banana, que não era uma tradição na comunidade, e o uso de bombas de irrigação vem provocando desintegração e mudanças nas fronteiras, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia, especificamente após as constantes crises hídricas do rio Utinga”, analisa.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia informou não ter sido comunicada do ataque incendiário. O Incra e a prefeitura de Lençóis foram procurados, mas ainda não retornaram. O espaço permanece aberto.

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