Brasileiro atrela esquerda a conflito e direita à ordem, diz pesquisa

Estudo procurou entender como a sociedade se comporta diante a temas como valores, família, segurança, política e desigualdades

Brasileiro atrela esquerda a conflito e direita à ordem, diz pesquisa

Sociedade

Parte da sociedade brasileira atrela os partidos, lideranças e militantes de esquerda a ideias de caos, conflito, defesa de pautas identitárias, arrogância e doutrinação. A direita, por sua vez, é atribuída às noções de ordem, hierarquia, respeito pela opinião do próximo, igualdade, valorização da família, e defesa do esforço individual/livre- mercado.

Os dados são parte dos identificados pela pesquisa  “O conservadorismo e as questões sociais”, realizada pela Fundação Tide Setubal e o Plano CDE e divulgados na segunda-feira 10. O estudo buscou identificar como parte da sociedade, considerada não radical politicamente, se posiciona diante temas como valores e família, criminalidade e segurança e política e corrupção. O estudo parte da ascensão de uma nova direita nos últimos dez anos e da emergência de tendências conservadoras na sociedade, impulsionadas pela nomeação de Jair Bolsonaro como presidente.

O estudo aplicou pesquisas qualitativas a um grupo de 120 pessoas residentes das cidades de São Paulo (36 pessoas), Rio de Janeiro (36 pessoas), Porto Alegre (24 pessoas) e Recife (24 pessoas), entre 18 e 45 anos, com renda per capita de, no mínimo, 469 reais e, no máximo, 1499 (correspondente à faixa do intervalo intermediário de renda no país – excluindo os 25% mais ricos e os 25% mais pobres), que não possuem vínculos com quaisquer organizações políticas.

Confira um resumo dos principais pontos da pesquisa:

Valores

Os valores mais importantes para as pessoas entrevistadas estão organizados em torno de um eixo central: ordem. Há uma percepção compartilhada de que faltaria ordem dentro das famílias, das escolas, no espaço público e na política, e isso estaria relacionado: com a existência de uma decadência moral generalizada; com o aumento da criminalidade; da violência; e com a corrupção e a impunidade na política nacional. Para os entrevistados, a falta de estrutura dentro das famílias, e de disciplina dentro das escolas, faz com que as crianças e jovens, na ausência de referências morais sólidas, ‘mandem’ em pais e professores, sejam isolados e pouco afetuosos, bebam e pratiquem sexo mais precocemente. Tal decadência moral também estaria ligada ao aumento da violência e da criminalidade, tendo em vista que os criminosos seriam essencialmente pessoas que possuem mau-caráter. Desse modo, a despeito de reconhecerem a existência de injustiças nas instituições de combate ao crime relacionadas à racismo, preconceito e desigualdade social, a maior parte dos entrevistados considera que uma punição mais severa para os infratores é a melhor solução para combater a criminalidade.

 

Os entrevistados também associam a decadência moral aos partidos, lideranças e militantes de esquerda – especialmente quando pensam em corrupção política e na defesa de costumes considerados imorais. Há uma compreensão de que a esquerda faz uma defesa ostensiva e arrogante de pautas identitárias em detrimento de valores como igualdade e respeito pelo próximo, o que causa sensações de desconforto, revolta e desconfiança.

Família

Existe  um desejo de que a família volte a ocupar um papel central na educação sexual e moral das crianças e jovens em detrimento das escolas e que é necessário recuperar a convivência familiar para restabelecer a ordem da sociedade.

Segurança e criminalidade

De maneira geral, quase todos os entrevistados sentem medo de sair na rua por conta da violência. A maioria das pessoas  acredita que se sentiriam mais seguras se houvesse mais policiamento nas ruas e se as penas para os criminosos fossem mais duras. A defesa de punições mais duras e da redução da maioridade penal foi muito frequente. Há uma percepção generalizada, especialmente nos grupos masculinos, de que existem pessoas “boas” e “ruins”, e de que praticar um crime ou não é sempre uma escolha de pessoas que já são ruins por natureza, daí a percepção da impunidade causar tanta revolta entre as pessoas, afinal, a percepção de que, de um lado, existiria o trabalhador honesto com valores familiares, e do outro, o bandido mau-caráter.

As mulheres, contudo, tendem a ter visões mais nuançadas em relação à oposição ‘trabalhador vs. bandido’ em comparação com os homens, sobretudo as entrevistadas mais jovens, moradoras de bairros mais periféricos, e que vivem em condições socioeconômicas piores considerando os demais participantes. As mulheres chamaram a atenção para visões preconceituosas que igualam favelados a bandido, e da distância que existe entre a realidade das favelas e de outros bairros da cidade, o que favoreceria a falta de empatia entre as pessoas. Além de relarem episódios de abusos, injustiças e corrupções praticadas por policiais nos bairros onde moram, e terem medo de que seus filhos sejam vitimados pelo crime e/ou pela política, elas também citaram casos de pessoas próximas que foram detidas e/ou presas injustamente, inclusive afirmaram possuir amigos, conhecidos e familiares que já passaram pelo sistema prisional, e por isso tendem a se mostrar mais solidárias.

Chama a atenção o repúdio quase unânime ao termo ‘direitos humanos’ ainda que, para os entrevistados, não exista uma oposição à ideia de dignidade humana. As pessoas associam imediatamente a ideia de direitos humanos à defesa de criminosos/presidiários e acreditam que a luta pelos direitos humanos estaria equivocada na medida em que representaria uma inversão de valores: foco em quem comete crime e não em quem sofre com eles; defesa de quem não cumpre a lei e desprezo por quem cumpre a lei.

Política nacional e eleições

A maioria dos entrevistados se diz tão descrente que não enxerga possíveis soluções, dado que o sistema político em si seria completamente corrompido. Tendo em vista o sentimento generalizado de desconfiança e decepção em relação à classe política como um todo, era muito comum afirmarem que seu voto nas eleições de 2018 foi para o candidato menos pior, e que ‘não botavam a mão no fogo’ por nenhum político.

Vários entrevistados afirmaram que durante os governos petistas havia mais trabalho e o país estava melhor economicamente, mas ao mesmo tempo alguns destacaram que o crescimento que o país experimentou neste período não foi graças ao PT, e sim a uma conjuntura nacional e internacional favoráveis. Também se destaca um grupo que afirma ter votado em Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições sem grandes convicções, ainda que afirmassem ter simpatia por certas pautas que o político defendia durante a campanha no que diz respeito à educação nas escolas, como o caso do ‘kit gay’.

As pessoas que expressam esperança, otimismo e expectativas positivas para o futuro da política, a despeito da crise representativa-partidária, consideram Bolsonaro um político diferente que poderia mudar o Brasil, de modo que as palavras ‘diferente’ e ‘mudança’ são constantes quando as pessoas argumentam os porquês de seu voto no atual presidente.

Desigualdades

Todos os entrevistados reconhecem a existência de uma desigualdade econômica estrutural no país e entendem que este é seu maior problema. Já a percepção desigualdades de raça e gênero/LGBT é mais nuançada. Ainda que todos reconheçam que exista muito preconceito e violência com negros, mulheres e LGBTs, e que fossem abundantes os relato de casos sofridos pelos próprios entrevistados ou por familiares e conhecidos, o entendimento é o de que tais episódios não estariam relacionados a questões estruturais, mas principalmente à falta de educação e respeito de certos indivíduos. Há uma compreensão geral de que os militantes ligados a tais pautas, especialmente as feministas, seriam agressivos, desrespeitosos, e arrogantes, e que tais grupos não deveriam demandar maior representatividade social por meio de políticas afirmativas, pois estas seriam uma forma de diferenciá-los das demais pessoas. Toda política que transmita a ideia de diferença era vista com maus- olhos, afinal, diziam repetidas vezes: ‘todos somos iguais’.

Desigualdades raciais

Nas relações sociais, a grande maioria dos entrevistados reconhece que existe preconceito contra pessoas negras no Brasil. Foram muito frequentes os relatos da população negra entrevistada sobre racismo cotidiano na busca por empregos, no ônibus, e em supermercados e lojas. Mesmo pessoas que não são negras também relataram casos de racismo que ocorreram com conhecidos ou parentes.

Alguns poucos entrevistados porém, especialmente homens brancos, afirmam que o racismo diminuiu muito e que muitas vezes os negros exageram porque na atualidade teriam praticamente as mesmas oportunidades que os brancos. Entre estas pessoas, especialmente entre os mais pobres, percebe-se um sentimento de mágoa pelo fato dos negros serem mais contemplados pelo Estado em políticas de cotas, por exemplo, pelo fato de serem negros. Alguns argumentam que, às vezes, os negros utilizariam sua cor de pele para buscar privilégios, identificando nessa atitude ora um certo vitimismo, ora uma certa superioridade e arrogância.

Desigualdades de gênero

Nas desigualdades de gênero, há uma percepção unânime entre os entrevistados de que houve avanços importantes e positivos para as mulheres nos últimos anos, mesmo que todos concordem que ainda existe machismo na sociedade. Novamente o argumento da igualdade entre homens e mulheres é muito mobilizado para defender as mulheres, porém esta igualdade está relacionada, principalmente, ao reconhecimento de uma situação equiparável no mercado de trabalho.

Entre o grupo de entrevistados evangélicos, tanto homens como as mulheres falaram sobre a ideia de ‘submissão’ da mulher que está na Bíblia. Era consensual que homens e mulheres teriam naturezas diferentes e qualidades diferentes, porém, para uma parte dos entrevistados, principalmente mulheres, isso significa que a mulher tem o papel de guiar, ajudar, e aconselhar o homem que seria o executor, mas que é necessário que ambos se respeitem, já outros entrevistados, principalmente homens, entendem que de fato a mulher exerceria um papel secundário em comparação ao homem e lhe deveria obediência.

A grande maioria das pessoas entrevistadas é a favor da educação sexual nas escolas para prevenir a gravidez indesejada e doenças de transmissão sexual, mas, com muita frequência, educação sexual confunde-se com sexualizar as crianças e incentivar o sexo precoce. A defesa da educação sexual ‘em abstrato’ é confrontada com um ataque à educação sexual ‘em concreto’, existente nas escolas e que teria por objetivo expor crianças a temas inapropriados. Uma educação sexual considerada ‘boa’ seria aquela baseada exclusivamente em um modelo de relação heteronormativo e monogâmico, e a educação considerada ‘ruim’ seria aquela que não elegesse tal modelo como paradigmático.

Preconceito contra LGBT

As mulheres jovens, e as menos religiosas, têm mais facilidade para falar sobre a questão LGBT, mas para a maioria dos entrevistados que eram homens, evangélicos, e mais velhos, a homossexualidade é respeitada desde que tornada invisível, que se mantenha no âmbito privado. Nesse sentido apareceu com frequência a figura do ‘gay comportado’ frente ao ‘gay exagerado, obsceno, que se exibe demais’. Esta homossexualidade tida como ‘ostensiva’ não é aceita porque seria desrespeitosa, agressiva, afrontosa.

Muitos dos entrevistados dizem que hoje ser gay é uma ‘modinha’, e que a televisão ou a esquerda incentivam as gerações mais jovens a serem gays.  Há um posicionamento geral contra a ideia do politicamente correto, de uma ‘vitimização’ da população LGBT, argumento muito similar ao utilizado nos casos dos negros e das mulheres: há um temor de que argumentos identitários passem a pautar as relações sociais. Para a maior parte dos entrevistados, as questões identitárias não devem ter prioridade nem na identificação dos sujeitos e nem em sua sociabilidade, porque do contrário isso poderia aumentar as diferenças
entre as pessoas, reduzir às pessoas a tais identidade e contribuir para a divisão do país.

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Repórter do site CartaEducação

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