“A esquerda precisa parar de ter medo de admitir seus erros”

A socióloga Sabrina Fernandes, sucesso no Youtube, lança seu primeiro livro

“A esquerda precisa parar de ter medo de admitir seus erros”

Cultura,Política,Sociedade

Foi lançado em pré-venda, no início do mês, o livro Sintomas Mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira, da editora Autonomia Literária. É a primeira obra da goiana Sabrina Fernandes, doutora em Sociologia pela Carleton University, do Canadá, professora substituta na Universidade de Brasília e articulista da revista novaiorquina Jacobin. O rosto da autora, entretanto, ficou conhecido pela web: é dela o canal Tese Onze, que faz sucesso no Youtube.

Capa do livro “Sintomas Mórbidos”

O título do livro é uma homenagem a Antonio Gramsci, cuja citação “o velho está morrendo e o novo não está pronto para nascer, e nesse interregno, sintomas mórbidos aparecem” é resgatada por Sabrina para analisar o momento atual e uma possibilidade de renascimento da esquerda brasileira.

No cardápio da obra estão as manifestações de junho de 2013, o golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a ascensão do antipetismo e do anticomunismo e a despolitização do país. Leia abaixo a entrevista:

CartaCapital: Sintomas Mórbidos pode ser um material introdutório para quem quer entender quem são e como se mobilizaram nos últimos anos os movimentos e partidos de esquerda brasileiros?

Sabrina Fernandes: Não diria que é um livro completamente introdutório. Certamente não é um “a esquerda para completos iniciantes”. É um livro que visa contribuir pro estado da arte da sociologia política, então há bastante teoria e análise aprofundada. Porém, antes que as pessoas se assustem, gosto de enfatizar que há também muita didática. Escrevi o livro durante mais de um ano com a preocupação de deixar os argumentos complexos compreensíveis através de certas repetições, exemplos e costuras no decorrer do livro. Dá para identificar algumas organizações de esquerda e entender melhor porque cada uma defende o que defende. A maior contribuição, porém, vem ao identificar o todo do campo da esquerda. Suas tendências e apegos e gerar reflexão sobre isso.

A socióloga Sabrina Fernandes

CC: Você inicia o livro falando da dificuldade de “se pesquisar um objeto em movimento contínuo”. Como foi esse processo? As mudanças de conjuntura trouxeram outras perspectivas sobre o que já havia escrito?

SF: Entre 2015 e 2016, escrevi a tese de doutorado que depois deu origem ao livro, concomitantemente a uma pesquisa de campo. Porém, Sintomas Mórbidos é outro projeto. Possui outra linguagem, outros exemplos e uma análise mais acertada, ao meu ver. Ao mesmo tempo que foi difícil escrever tudo isso, especialmente durante a confusão que foi 2018, me permitiu refletir sobre certas conclusões e torná-las mais precisas. Vejo que o meu tratamento do PT e do PSOL se tornou mais apurado ao final. Vejo mais semelhanças nos dois partidos hoje do que identificava no começo. Para o bem e para o mal.

CC: No livro, você diz que seu objetivo é trazer “orientação de fórmulas e práticas políticas”. Acredita que suas análises servem apenas de compreensão do que foram os últimos anos ou elas também trazem proposições de como a militância de esquerda deve trabalhar nos próximos anos?

SF: No final, trago algumas reflexões breves como uma forma de abrir o debate. Do ecossocialismo e da construção de uma unidade de diferenças. Certamente são debates necessários para hoje – até mesmo para ontem – e espero que fiquem mais presentes. A primeira porque vivemos num momento decisivo da crise ecológica global e ambas porque não enxergo remédio para isso sem uma síntese ecossocialista em uma esquerda disposta a fazer sínteses, ao invés de impor conclusões organizacionais convenientes acima de tudo.

CC: O seu livro é uma autocrítica da esquerda?

SF: A autocrítica de esquerda não pode ser feita por uma militante, uma autora e tampouco uma organização. É um esforço coletivo que passa por repensar o campo e colocar a crítica em seu devido lugar de destaque. Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária, como a tradição leninista nos lembra, e essa relação é uma relação dolorosa de reflexão e reorganização contínua. O que espero é que o livro demonstre como é possível encaminhar a autocrítica como uma norma organizativa e estratégica para esquerda e não como algo derrogatório. A esquerda precisa parar de ter medo de admitir seus erros para que enfim possa celebrar seus acertos de forma mais frequente e reocupar o lugar na história e no campo político que tanto a extrema-direita quanto os liberais do “nem esquerda nem direita” tentam lhe negar.

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