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‘Liberal’, MBL oscila entre o Estado mínimo e o conservadorismo moral

Política

O encerramento precoce da exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira pelo Santander Cultural de Porto Alegre foi encorajado por uma campanha de boicote ao banco promovida pelo Movimento Brasil Livre (MBL) nas redes sociais. Com o argumento de que as obras ofendiam a fé cristã e faziam apologia à pedofilia e à zoofilia, o movimento que se diz “liberal” atacou a mostra, que contava com o trabalho de artistas como Candido Portinari, Lygia Clark, Alfredo Volpi, Adriana Varejão e Bia Leite.

Curvando-se à pressão, o banco Santander suspendeu a exposição que abordava a diversidade sexual e tinha estudantes como público-alvo.

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Com poder e influência cada vez maiores, o MBL diversificou a sua pauta e não se limita ao discurso do liberalismo econômico e seus ideais de Estado mínimo e livre mercado. Agora, o movimento que ganhou projeção nacional com a defesa do antipetismo e de uma suposta bandeira anticorrupção tem se aventurado a debater moral e costumes. Entre as pautas abraçadas pelo MBL está, por exemplo, o projeto Escola Sem Partido e o combate à discussão de gênero nas escolas.

“Ainda que eles defendam uma ideologia liberal e invoquem autores como [Ludwig Von] Mises e [Friedrich] Hayek, eles mantêm proximidade com militantes e lideranças do campo conservador. Então eu diria que, hoje, o MBL é um movimento liberal-conservador”, afirma a cientista política Camila Rocha, doutoranda na Universidade de São Paulo (USP).

“O boicote à exposição Queermuseu é um indicativo desse conservadorismo. Eles dizem ser contra o patrocínio do Estado a inciativas culturais, mais especificamente a iniciativas culturais que eles identificam como ‘de esquerda’ ou que promovam valores ligados à diversidade sexual, e para isso utilizam uma justificativa conservadora, de que a mostra incentiva a pedofilia e a zoofilia”, continua Rocha, que atualmente pesquisa estratégias de think thanks liberais na América do Sul.

Crianca-Viada

‘Travesti da lambada e deusa das águas’, obra da artista Bia Leite

Para Maria Cristina Castilho Costa, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP e autora do livro Censura em Cena: Teatro e Censura no Brasil, o caso do Santander é emblemático porque expôs uma série de fragilidades dos processos de produção artística e incentivo no País.

“Esse é o problema de o Estado abrir mão de sua função de gestor das artes e da cultura. Eu não sou absolutamente contra nenhum tipo de financiamento, uma parceria público-privada pode funcionar em áreas onde há convergência de interesses, mas há certas áreas que precisam de um incentivo estatal”, afirma Costa.

Em sua coluna na Folha de S.Paulo, o professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP Pablo Ortellado analisa o modus operandi do MBL e conclui que o grupo tem centrado esforços nas “guerras culturais”, nome dado à disputa entre conservadores que defendem uma autoridade tradicional que puna o desvio da norma e progressistas que preferem uma autoridade diluída e valorizam a diversidade, diz o professor.

Entre as bandeiras adotadas pelo MBL estão, por exemplo, a extinção de políticas afirmativas como cotas raciais e o combate às ideias de desencarceramento. De acordo com Ortellado, as lideranças do MBL “descobriram que as chamadas ‘guerras culturais’ eram um ótimo instrumento de mobilização e que por meio do discurso punitivista e contrário aos movimentos feminista, negro e LGBTT podiam atrair conservadores morais para a causa liberal”.

Para a escritora e jornalista Eliane Brum, agir ora como liberal, ora como conservador faz parte da estratégia de sobrevivência do MBL, pois dá ao movimento “uma consistência que não condiz com a realidade de seu conteúdo”. “Eles são o que lhes for conveniente ser”, escreveu Brum sua coluna no El País Brasil.

“A dificuldade de nomear o que são, é importante perceber, os favorece. […] Isso lhes facilita se moverem, por exemplo, da luta anticorrupção para as bandeiras morais, agora que não lhes interessa mais derrubar o presidente”, continua a escritora, referindo-se à inércia do MBL em relação a Michel Temer, envolto em diversos escândalos de corrupção.

A necessidade de responder a uma base heterogênea faz com que o MBL não seja coerente, tanto do ponto de vista ideológico quanto estratégico, diz a pesquisadora Camila Rocha. “Eles tentam se coordenar minimamente, mas a impressão que eu tenho é a de que o movimento não é tão coeso. Essa decisão de apoiar o boicote ao Santander, por exemplo, não foi recebida sem conflito pelos simpatizantes do MBL. Teve gente que não gostou.”

Segundo Rocha, as lideranças do campo da direita podem ser divididas em dois grupos principais. Um deles, propriamente liberal, se agrupa em torno de políticas pró-mercado e é favorável a uma liberalização dos costumes ou são alheios a esse debate. O outro compõe o campo liberal-conservador e encampa o discurso da moral e dos costumes.

“Essa é a direita que está alinhada em torno da família [do deputado federal Jair] Bolsonaro e dos políticos de extração religiosa. O campo propriamente liberal está mais a fim do João Doria e tem simpatia também pelo Partido Novo, por exemplo”, afirma a pesquisadora. 

Adriana-Varejao

‘Cena de interior II’, obra da artista Adriana Varejão

Coerente ou não, fato é que o MBL tem ampliado sua influência. Artigo publicado na segunda-feira 18 pelo jornal O Estado de S.Paulo aponta que o grupo se consolidou como “o principal movimento político virtual brasileiro”, sendo líder no segmento em interações e crescimento no Facebook, de acordo com a ferramenta CrowdTangle, da própria rede social.

“Basta ver a influência que a página do MBL no Facebook tem entre presidenciáveis. No universo de publicações com a palavra ‘Doria’ no Facebook ao longo de 2017, o MBL foi, de longe, o maior responsável por comentários, likes e compartilhamentos: 8 milhões de interações – quase o dobro das provocadas pela página oficial do próprio João Doria”, diz o artigo. No mesmo período, o MBL foi responsável por 16,9 milhões de interações e 52 milhões de visualizações de vídeos que continuam a palavra ‘Lula’, mas que “não eram propriamente elogios”, conclui o texto.

A um ano das eleições presidenciais de 2018, não é possível dizer se as questões morais terão algum protagonismo na disputa, como foi em 2010 com a pauta do aborto, ou se a campanha será dominada exclusivamente pela crise econômica. Temas ligados ao universo LGBTQ e à defesa dos direitos das minorias têm sido, contudo, explorados por partidos e ativistas, e não fica difícil constatar que essas bandeiras têm servido a projetos de poder. Basta observar os efeitos do encerramento da exposição Queermuseu.

“Esse fato serve de combustível para as disputas políticas, para alimentar a agenda política dos partidos em época de eleição. Porque, no mundo da comunicação, tudo isso é inócuo: as imagens transitaram pela internet muito mais do que teriam circulado se nada disso tivesse acontecido”, conclui a professora Cristina Costa.

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