Política

Dia da Consciência Negra tem protestos com a palavra de ordem ‘Fora Bolsonaro Racista’

Atos antirracistas podem fechar o calendário de grandes manifestações pelo impeachment. Políticas econômicas do governo seguem como alvo

Dia da Consciência Negra completa 50 anos em 2021 com rechaço ao governo Bolsonaro. Foto: Reprodução/Coalizão Negra por Direitos
Dia da Consciência Negra completa 50 anos em 2021 com rechaço ao governo Bolsonaro. Foto: Reprodução/Coalizão Negra por Direitos
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Pelo menos 110 cidades brasileiras devem ter manifestações pelo Dia da Consciência Negra, neste sábado 20, com a palavra de ordem “Fora Bolsonaro Racista”, segundo monitoramento de coordenadores. A liderança é de organizações do movimento negro, em uma parceria com a Campanha Fora Bolsonaro, coalizão de movimentos, entidades e partidos que tem realizado atos massivos pelo impeachment desde 29 de maio.

 

As mobilizações marcarão os 50 anos da instituição do Dia da Consciência Negra, em memória aos intensos questionamentos sobre a legitimidade do dia 13 de maio – quando foi assinada a Lei Áurea – como data para celebração e defesa da população negra. Fixou-se em 1971, então, o 20 de novembro, por lembrança ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.

A expectativa é de que a cidade de São Paulo, onde ocorrerá a 18ª Marcha da Consciência Negra, concentre o maior número de pessoas. A manifestação tem início na Avenida Paulista, ao meio-dia, com apresentações culturais até as 15h. Na sequência, parlamentares e ativistas devem fazer discursos, enquanto a marcha segue para a Rua da Consolação.

Algumas figuras devem ser homenageadas, como João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos que trabalhava como prestador de serviços e foi assassinado por seguranças em um supermercado Carrefour de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 19 de novembro de 2020. Um ano depois, o caso ainda está em tramitação, sob segredo de Justiça. Seis pessoas são rés por homicídio triplamente qualificado com dolo eventual: dois seguranças estão presos e quatro pessoas respondem ao processo em liberdade.

Devido à proximidade do fim do ano, a tendência é de que a manifestação encerre o calendário de grandes atos contra Bolsonaro em 2021. O último protesto com participação expressiva ocorreu em 2 de outubro, quando houve tentativas de formar uma “frente amplíssima” e de levar ao palanque alguns políticos que não são do campo da esquerda. No entanto, boa parcela dos nomes cancelou presença, e alguns que compareceram foram hostilizados. Até Ciro Gomes (PDT), ligado ao campo progressista, recebeu vaias em São Paulo.

Conforme CartaCapital havia mostrado, parte das legendas progressistas, articuladas pelo movimento Direitos Já – Fórum pela Democracia, afastou-se da Campanha Fora Bolsonaro e manteve a pretensão de mobilizar atos em 15 de novembro pelo impeachment, mas acabou desembarcando da ideia. A projeção agora é realizar um festival com shows de artistas no início do ano que vem.

Os efeitos práticos das mobilizações são discutíveis. Do lema “vacina no braço, comida no prato e fora Bolsonaro”, é possível dizer que se viu progresso apenas na primeira reivindicação. Sob uma Presidência que fez campanha contrária à vacinação, vale dar créditos à pressão dos atos nas ruas, da CPI da Covid e das instituições pelo avanço: hoje, 60% da população está totalmente imunizada (mais de 127 milhões de brasileiros), e o número diário de mortes está mais baixo.

O problema da “comida no prato”, porém, ainda é dramático. Segundo o Departamento Intersindical de Estudos Econômicos e Sociais, o Dieese, a alta da cesta básica é de 30% em um ano, chegando a atingir os 700 reais. CartaCapital mostrou que as crianças estão entre as mais prejudicadas: uma em cada cinco pessoas até os 14 anos de idade está com fome e sob extrema pobreza. A TV Globo divulgou nesta semana que somente 26% das crianças entre dois e nove anos conseguem garantir as três refeições diárias, sendo que em 2015 o percentual era de 76%.

Sobre o “Fora Bolsonaro”, então, o diagnóstico é evidente. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mantém na gaveta mais de 130 pedidos de impeachment. Nem o “superpedido” de junho, apontado como “sólido” e redigido até por antigos apoiadores de Bolsonaro, foi capaz de sensibilizar o líder do Centrão.

O cenário exigiu grandes esforços dos movimentos sociais, que tiveram de sustentar, em uma mão, as mobilizações pelo “Fora Bolsonaro”, e, em outra, a garantia de uma série de programas de combate à fome e a outras precariedades. O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, por exemplo, inaugurou mais de 20 cozinhas solidárias no País, com distribuição de refeições gratuitas, enquanto viu aumentar o quadro de integrantes da organização, devido ao crescente número de despejos em plena pandemia.

Os movimentos sociais chegaram em 2021, portanto, com uma lista de tarefas monumental, agravada pela crise do coronavírus e pelos efeitos das derrotas políticas acumuladas desde o golpe contra Dilma Rousseff (PT), em 2016. Essa sobrecarga de fatores negativos é apontada como um dos principais obstáculos para as mobilizações deste ano.

Foi assim que, como mostrou análise do jornalista Igor Felippe Santos em CartaCapital, a capacidade de atrair mais gente para os atos contra Bolsonaro bateu no teto e estagnou. Avaliações colhidas pela reportagem levam em conta os próprios indicadores sociais, que, em vez de estimularem protestos, acabaram por dificultar a articulação dos mais pobres.

Quanto às forças do governo, observadores acreditam que o projeto de Bolsonaro não foi totalmente implementado porque foi freado pelas instituições, como o Supremo Tribunal Federal, e porque as pesquisas eleitorais sugerem a derrota do ex-capitão para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano que vem.

Além disso, parte significativa das análises no campo progressista responsabiliza as elites econômicas pelo apoio aos projetos de privatizações e reformas prometidos pelo Ministério da Economia, de Paulo Guedes.

Apesar de muitos atores do mercado demonstrarem descontentamento com Bolsonaro, a situação dos mais ricos não acompanha o drama do conjunto da população brasileira. Afinal, uma crise social profunda com 117 milhões de pessoas sob algum grau de insegurança alimentar não impediu a estreia de 11 brasileiros na lista de bilionários da Forbes. O saldo é suficiente para que o mercado financeiro passe a mensagem de clima de festa ao inaugurar um touro dourado na frente da Bolsa de Valores.

Movimentos antirracistas pressionam por mais leis que garantam proteção à população negra. Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas

Crise atinge mais a população negra

Em boletim divulgado na sexta 19, o Dieese mostrou que essa trágica conjuntura de desigualdade atingiu os negros com muito mais impacto. No primeiro semestre da pandemia, das 8,9 milhões de pessoas que ficaram desempregadas, 6,4 milhões eram negras, enquanto 2,5 milhões eram não-negras. No Distrito Federal, foram os homens negros e mulheres negras de 18 a 24 anos que formaram os maiores grupos entre os desempregados (34% e 31,9%, respectivamente), segundo o governo local.

Simone Nascimento, jovem de 29 anos e militante do Movimento Negro Unificado, lembra, por exemplo, que negros formavam a maioria das pessoas que lotavam ônibus durante a pandemia, e que a primeira pessoa a morrer por Covid-19 no estado do Rio de Janeiro foi uma mulher negra de 63 anos que trabalhava como empregada doméstica.

A pauta do protesto de 20 de novembro, portanto, vai além do rechaço a declarações racistas de Bolsonaro, como quando se refere a negros como animais, mas tem como foco a política econômica do governo.

“O nosso povo sabe que são os negros que mais estão desempregados e que mais passam fome”, diz Simone. “A gente na periferia é a primeira a sentir que as pessoas estão voltando a passar nos portões para pedir um arroz, um feijão. Que não estão conseguindo pagar as contas de luz que aumentaram. Quando falamos ‘Fora Bolsonaro Racista’, evidenciamos uma realidade que o nosso povo sabe.”

Como já mostrou CartaCapital, a falta de uma correlação de forças favorável à abertura do processo de impeachment no Congresso cria um clima de divergências entre os próprios organizadores dos protestos. Uma série de atores dessas mobilizações acredita que um determinado setor sempre viu mais esperanças em tirar Bolsonaro do poder nas urnas, em 2022. Outra ala, que se diz mais comprometida com o impedimento imediato, defendia a utilização de mais instrumentos, como a redução dos intervalos entre os atos e a mobilização de uma greve geral.

Simone Nascimento diz acreditar que a defesa ao impeachment imediato não ficou em segundo plano. Para a militante, “não é mais radical ou menos radical ir todos os dias às ruas ou ir uma vez por mês”. Além disso, ela afirma que “muitos setores acreditam que uma greve geral se dá por autoproclamação”, ou seja, que depende apenas de uma convocação. Em sua visão, há uma série de desafios para engrossar a pressão contra Bolsonaro, o que exige, especialmente, o trabalho de mobilização das bases.

“A gente precisa fortalecer os espaços de organização da classe trabalhadora para construir um processo de greve. Para além disso, no Brasil de hoje, temos que pensar formas que envolvam o conjunto da diversidade dos trabalhadores. Radical é conseguir juntar uma maioria para pautar o impeachment“, avalia ela. “E existem momentos em que o Estado nos ignora mesmo quando a gente é maioria. Esses são os regimes autoritários.”

Victor Ohana

Victor Ohana
Repórter do site de CartaCapital

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