Sucesso dos atos de rua contra Bolsonaro inspira articulação de novos protestos

Frentes se reúnem nesta semana para definir calendário; novas pautas e possíveis apoios entram nas discussões

Protesto do dia 29 de maio em Belo Horizonte (Foto: DOUGLAS MAGNO / AFP)

Protesto do dia 29 de maio em Belo Horizonte (Foto: DOUGLAS MAGNO / AFP)

Política

Depois de atos massivos contra o presidente Jair Bolsonaro em 29 de maio, em mais de 200 cidades e 10 países, organizações se articulam para decidir uma data para mais um protesto. Propostas devem ser discutidas em reuniões nesta semana; há perspectivas de que uma nova agenda seja costurada até a 2ª quinzena de junho.

 

 

Nesta terça-feira 1, às 17 horas, a coordenação da Frente Povo Sem Medo, que engloba diversos movimentos sociais, faz reunião virtual com cerca de 20 lideranças para definir a 1ª avaliação sobre o último ato e iniciar a construção do calendário do mês. A expectativa é de um encontro entre as frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, outra aglutinadora de organizações, ainda nesta semana. Ambas integram a Campanha Fora Bolsonaro.

Uma Assembleia Geral também está sendo mobilizada para esta terça-feira, às 19 horas, pelo partido Unidade Popular. A ideia é decidir a próxima data com a participação de internautas.

Além do calendário, as organizações ainda devem decidir novas estratégias. A decisão do governo em trazer a Copa América, se mantida, eleva o tom dos próximos atos. O caso já virou alvo de ação no Supremo Tribunal Federal.

Também surge a proposta de conectar essas manifestações a greves que estão em curso.

Estão paralisados os trabalhadores da Petrobras Biocombustível, desde 20 de maio em usinas na Bahia e em Minas Gerais e em escritório no Rio de Janeiro, e sob “estado de greve” os funcionários de subsidiárias da Eletrobras, como Eletronorte, Furnas e Companhia Hidrelétrica de São Francisco. As duas categorias protestam contra as privatizações de seus setores e pedem preservação dos direitos trabalhistas.

Um desafio pela frente é o aumento de casos de Covid-19 em eventual 3ª onda da pandemia, agravada pela variante indiana. Estudo da Fundação Oswaldo Cruz mostrou em maio que uma nova leva de contaminações será catastrófica, porque o Brasil partirá de um patamar alto mantido no curto período de estabilidade. Para o médico Miguel Nicolelis, o País só vence essa fase com 3 milhões de vacinados por dia e sob a adoção de lockdown.

 

Segundo a organização Our World in Data, só 10,4% dos brasileiros foram totalmente vacinados até agora: 22 milhões de pessoas.

 

Mesmo que pesquisas tenham minimizado a responsabilidade de grandes protestos para a disseminação da Covid, como nos atos pela morte de George Floyd, preocupações sanitárias levaram organizações a anunciarem que não convocariam atos para 29 de maio. Alguns diretórios estaduais, como o PT e o PSOL de Pernambuco, avisaram na véspera que acatariam a recomendação do Ministério Público estadual para evitar aglomeração.

[Atualização de 2 de junho: Anteriormente, a reportagem incluiu a CUT como uma das organizações que anunciaram que não convocariam aos atos de 29 de maio. Porém, dois dias antes, a Central havia emitido nota em que salientou que fazia parte da Campanha Fora Bolsonaro, que convocou o protesto.]

Não é um momento fácil para se tomar a definição de ir às ruas, diz Josué Rocha, coordenador da Povo Sem Medo. Mas a linha defendida pela organização é de que as mobilizações têm que seguir. A tentativa é dialogar com quem se disponibiliza a ir ao protesto, apesar da exposição ao vírus, mas adotando discurso e prática responsáveis em relação à prevenção. De fato, a reportagem verificou, em São Paulo, por exemplo, uso de máscaras e álcool em gel por imensa maioria dos manifestantes, além de fornecimento de equipamentos de proteção por equipes de saúde.

“A gente respeita quem não se sente à vontade nesse momento e continua convocando coletivamente”, diz Rocha. “Não há uma divergência na política. Há grande unidade sobre a necessidade de mobilização pelo Fora Bolsonaro. O que existe é uma situação delicada que colabora para posições diferentes sobre o momento de estar na rua.”

Para o cientista político Ricardo Leães, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, não é absurdo evitar o protesto para preservar a saúde, mas a decisão de certas organizações pode refletir, como pano de fundo, hesitação na defesa do impeachment contra Bolsonaro.

“Temos que considerar a possibilidade de que se trate muito mais de uma desculpa para não mobilizar a população contra Bolsonaro, imaginando que o melhor cenário seja sangrar o governo até o final do mandato e vencer as eleições no ano que vem”, analisa o cientista.

 

 

Lula e Ciro Gomes

Divide opiniões também a postura de presidenciáveis do campo progressista, especialmente Lula (PT) e Ciro Gomes (PDT), que não fizeram campanha para os atos. Para alguns, convocações aos protestos feitas por fortes líderes da oposição poderiam demonstrar unidade maior na mobilização contra o presidente. Porém, o petista e o pedetista não chegaram a publicar nem uma foto dos protestos na data.

Glauber Braga (PSOL-RJ), deputado que já teve o nome ventilado para a eleição presidencial, questionou nas redes sobre a falta de pronunciamento de Lula e Ciro Gomes após as manifestações. Ouvido por CartaCapital, Braga diz que ampliar os esforços para Bolsonaro cair imediatamente é a melhor tática da oposição contra o atual governo.

“A força política deles é importante, sim, para a mobilização dos próximos atos e para as consequências daqui para frente. O melhor posicionamento é reconhecer o que foi o dia 29 de maio e trabalhar pelas ações futuras.”

Na mesma linha, Leães considera que Lula alimenta a estratégia que coloca o impeachment em segundo plano. Dependerá, portanto, do tamanho da escalada dos protestos para que o petista seja, enfim, forçado a participar deles.

“Todas as manifestações que a gente tem do ex-presidente é de que ele tem que ser levantado em 2022. Em momento algum, ele coloca a necessidade de derrotar o Bolsonaro agora”, analisa o professor.

 

Ciro Gomes e Lula. Fotos: Evaristo Sá/AFP e Filippo Monteforte/AFP

 

Líder da bancada do PT na Câmara, o deputado Elvino Bohn Gass (PT-RS) faz ótima avaliação dos atos e se diz favorável à continuidade, para inclusive pressionar o Congresso a pautar o impeachment e fortalecer a CPI da Covid. Bohn Gass fez ampla repercussão dos protestos em suas redes sociais. A postura foi comum entre outras grandes figuras correligionárias, como a presidenta da sigla, Gleisi Hoffmann (PT-PR), presente na capital paulista.

“Está tão grave a situação que, se a gente não se manifestar, teremos mais genocídio”, diz Bohn Gass.

Questionado sobre o silêncio de Lula, o deputado disse que o ex-presidente tem seguido agenda de oposição a Bolsonaro e destacou visita do petista a uma metalúrgica em Diadema, interior paulista, em 26 de maio. O parlamentar rejeita a tese de que o ex-presidente esteja evitando tratar do impeachment por um cálculo eleitoral.

“Lutar pelo impeachment, fazer CPI, manifestações, tudo isso faz parte do processo político. Não é nenhuma coisa isolada. Não é nem só fazer atos agora, nem só aguardar a eleição. O gesto do Lula em ir à fábrica durante a semana mostra onde os líderes têm que estar, com o povo”, afirmou Bohn Gass.

 

“O PT vai seguir nas manifestações”, diz líder petista na Câmara.

 

Cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Josué Medeiros diz crer que a posição mais correta para Lula é não se manifestar sobre o ato. Por um lado, as manifestações já favorecem o seu campo político, já que aumentam as pressões contra Bolsonaro. Por outro, o petista evita receber críticas por incentivos a aglomerações.

Para o pesquisador, o cálculo é muito mais sobre uma conjuntura imediata do que um plano para 2022: Lula tenta manter uma capacidade de se diferenciar de Bolsonaro enquanto uma liderança política, mas, de modo indireto, estimula para que sua militância ocupe as ruas.

Se Lula não quisesse essa agenda, diz Medeiros, não incentivaria seus parlamentares a falar sobre ela sempre que possível e a articular, com outras legendas, o protocolo de pedidos de impeachment na Câmara.

“O cálculo é: meu campo está lá mobilizando, acho que tem que mobilizar mesmo, essa mobilização me ajuda. Mas eu me preservo e posso continuar criticando Bolsonaro”, avalia o professor. “O Lula não se posicionar sobre os atos não significa que ele não adotou a agenda. O PT está chamando Fora Bolsonaro, é o partido dele.”

 

Presiente Jair Bolsonaro foi alvo de protestos em 29 de maio. Foto: PR/AFP.

 

Manifestações no Chile e na Colômbia inspiram

Edmilson Costa, secretário-geral do PCB, faz referência aos protestos chilenos ao condenar a agressão dos policiais militares no Recife, que fizeram dois homens perderem parte da visão por dispararem balas de borracha em seus olhos. O partido de Costa, que teve presença expressiva na capital pernambucana, avalia ser no mínimo “inusitado” que um governo localizado no campo progressista (Paulo Câmara, PSB) tenha protagonizado o maior escândalo de violência policial no País durante os protestos.

“Vimos a polícia imitar o que aconteceu no Chile, onde carabineiros atiravam nos olhos para impedir os manifestantes de participarem de novos protestos”, diz Costa. Para ele, é fundamental que, até os próximos atos, as frentes de esquerda cobrem punições e reparações sobre os casos de abuso. O governo de Pernambuco já anunciou indenizações às vítimas e afastamento do comandante da PM, mas Costa acredita que é preciso ser “mais firme”.

Apesar da violência, as movimentações no Chile e na Colômbia são inspiração para muitos manifestantes brasileiros, que no sábado ergueram faixas em homenagem a esses protestos. Os chilenos, em 2019, enfim enterraram a Constituição do ditador Augusto Pinochet depois de intensas revoltas. Já os colombianos, em plena pandemia, paralisaram o País por um mês contra a reforma tributária do presidente Iván Duque.

O que esses dois casos têm em comum é que eles não se tratam de protestos episódicos, em uma única data; as conquistas foram resultado de dias seguidos de reivindicações.

Medeiros afirma que é preciso de uma “jornada de mobilização” para que os efeitos de 29 de maio não se percam no tempo. Simultaneamente, é preciso diferenciar o caso brasileiro em relação aos vizinhos, diz ele. Na Colômbia e no Chile, os protestos ganharam dimensões comparáveis às das jornadas de 2013 no Brasil, após uma adesão que ultrapassa a capacidade de convocação pelas esquerdas, grau que ainda não alcançamos contra Bolsonaro.

“A ocupação das ruas tem que continuar. Mas se as organizações erram no timing, chamam atos para poucos dias depois e eles ficam mais vazios, cria-se um processo de desmobilização”, avalia.

Glauber Braga, por sua vez, mantém a Colômbia como norte, após êxito da agenda progressista na crise sanitária.

“Não podemos terceirizar às instituições a derrota do Bolsonaro. Temos que seguir os exemplos eficazes que fizeram a direita dar um passo atrás”, defende o deputado.

 

Povo colombiano protesta contra o presidente Iván Duque. Foto: Joaquin Sarmiento/AFP

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Repórter do site de CartaCapital

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