Inflação, agronegócio e a ausência de políticas públicas fazem subir o preço dos alimentos no País

Para quem ganha um salário mínimo, foi preciso comprometer mais de metade da renda com alimentação

Foto: Tânia Rego - Agência Brasil

Foto: Tânia Rego - Agência Brasil

Economia,Sociedade

Em agosto, uma reportagem que mostrava pessoas na fila de um acougue que fazia doação de ossos chocou o País. Os resquícios de carne que ficam nos ossos tem sido a principal fonte de alimento na casa de cuiabanos que vivem em situação de vulnerabilidade financeira e insegurança alimentar. Essa cena se repetiu na última semana, quando uma senhora foi flagrada aguardando a doação de gordura de boi, desprezada por um comércio.

No Brasil, mais de 125,6 milhões de pessoas vivem com algum tipo de incerteza quanto ao acesso à alimentação. Com a crise agravada pela pandemia e o aumento do preço dos alimentos, muitos brasileiros estão com dificuldade de colocar comida na mesa.

A ida ao supermercado ficou mais cara nos últimos meses. E não é apenas impressão. Um estudo da Universidade de Oxford com dados do Banco Mundial mostrou que foi no Brasil onde os preços dos alimentos subiram mais depressa na pandemia.

Segundo um levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese, divulgado em 5 de agosto, todas as capitais registraram aumento no preço da cesta básica. Brasília foi a cidade onde esse valor subiu mais, com 29%, seguida por Porto Alegre (28,5%) e Vitória (26%).

Essa alta é provocada, em grande medida, pelo encarecimento dos alimentos que compõem esse kit. O quilo do arroz subiu quase 70%; o feijão preto, 51%; a batata, 47%; a carne, quase 30%; leite, 20%; e no óleo de soja alta de 87%, entre março de 2020 e o mesmo mês de 2021.

Para quem ganha um salário mínimo, foi preciso comprometer mais de metade da renda com alimentação. Ainda segundo o Dieese, o trabalhador remunerado pelo piso nacional comprometeu 55%, em média, do seu salário mínimo líquido para comprar alimentos básicos para uma pessoa adulta. Em junho, esse percentual foi de 53%.

A edição de maio da Pesquisa Nacional da Cesta Básica da Dieese apontou que o salário mínimo necessário para as despesas básicas de um trabalhador e sua família teria que ser de 5.351,11 reais. Esse valor corresponde a 4,86 vezes o mínimo oficial, de 1.100 reais. 

Ao comentar sobre o assunto, o presidente Jair Bolsonaro, chegou a colocar a alta dos preços dos alimentos na conta do consumo, baseando-se na lógica mercadológica de que quanto maior a demanda, maior serão os preços. No entanto, tal afirmação ignora a realidade brasileira. 

O auxílio emergencial de 600 reais permitiu que as pessoas continuassem a consumir apesar da crise. Mas o valor passa longe do suficiente para atender as famílias vulneráveis. 

Hoje o Brasil tem vinte milhões de pessoas, aproximadamente, sem ter o que comer e mais da metade da população brasileira sofrendo diferentes níveis insegurança alimentar. A comparação com 2018 (10,3 milhões) revela que são 9 milhões de pessoas a mais nessa condição. 

O Brasil, que havia deixado o chamado Mapa da Fome da ONU em 2014, registrou um retrocesso. Nos anos de 2017 e 2018, o IBGE mostrou que a situação de insegurança alimentar era vivenciada por 63,3% dos domicílios pesquisados.

Ao assumir o governo federal, o presidente Jair Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que tinha atribuição de propor ao governo federal diretrizes e prioridades da política de segurança alimentar e nutricional.

Um estudo de pesquisadores vinculados a universidades na Alemanha e no Brasil, que mostrou que 59% dos domicílios entrevistados no fim de 2020 estavam em situação de insegurança alimentar durante a pandemia, também citou o fim desse Conselho como um dos “retrocessos institucionais e orçamentários na agenda da segurança alimentar e nutricional”.

Os pesquisadores destacam o fim do Ministério do Desenvolvimento Agrário (2016) e o baixo investimento no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), como fatores importantes para analisar este cenário. 

Em junho, o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez uma declaração, em que comparou a quantidade de comida do prato dos europeus e dos brasileiros, numa clara tentativa de atribuir a situação atual do País com o apetite do brasileiro e falou em direcionar alimentos desperdiçados a programas sociais.

No entanto, o problema da fome no Brasil é estrutural e não pode ser resolvido com a distribuição de sobras para população vulnerável. 

Desde o começo da pandemia, o percentual de brasileiros que vivem em extrema pobreza quase triplicou – de 4,5% para 12,8%. Os dados são do relatório da Oxfam, divulgado em julho. 

Grupos desfavorecidos, incluindo negros, mulheres, população rural e indígena foram os mais atingidos pela fome. No final de 2020, 11% das famílias chefiadas por mulheres conviviam com a fome, enquanto mais de 10% das famílias negras enfrentavam o problema, em comparação com mais de 7% das famílias brancas. 

“A pandemia de Covid-19 escancarou as desigualdades brasileiras e trouxe essa emergência da fome a milhões de pessoas no país”, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. “Vivemos uma situação catastrófica. Há uma negligência sem tamanho com a vida das brasileiras e brasileiros, que estão sem vacinas, sem ter o que comer, sem emprego e sem renda.”

Os efeitos da pandemia, entretanto, não são suficientes para justificar o aumento do preço dos alimentos para o patamar atual.

Em outros momentos, o presidente também faz o que sabe fazer de melhor: terceirizar a culpa. Ele atribui a responsabilidade do aumento dos preços dos alimentos às medidas de isolamento adotadas pelos governadores em meio à pandemia de covid-19 e à alta do valor do combustível nos estados.

Economistas discordam do presidente e atribuem a alta dos preços dos alimentos a três grandes fatores: a alta do dólar, a inflação em descontrole e o desmonte da Conab. 

 

Política de comércio exterior

O primeiro desses fatores é o desmonte da Companhia Nacional de Abastecimento, o Conab, desde 2019. A empresa pública, ligada ao Ministério da Agricultura, é responsável pela estocagem de grão produzidos no País, um dos reguladores internos do valor dos alimentos.

Além disso, a empresa também tem uma função social baseada na doação de alimentos e no fornecimento de insumo para pequenos agricultores. 

No entanto, durante o governo Bolsonaro os armazéns de armazenamento vêm sendo esvaziados. Somente em 2019, foram vendidas 27 unidades. Em 2021, foram colocados para estudo de venda e concessão 180 armazéns e 25 imóveis.

Especialistas afirmam que a falta de armazéns causa prejuízo financeiro e de abastecimento interno. 

O Brasil não tem onde guardar toda a produção que sai do campo, acumulando um déficit de armazenagem de 100 milhões de toneladas por safra, conforme estudos da consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio.

“Há um descolamento significativo entre a produção e a capacidade estática disponível e a situação é mais grave, especialmente em algumas regiões, como Mato Grosso, e em determinados períodos do ano, como no auge da safra, afirmou Thomé Guth, superintendente de Logística Operacional da Conab.

A falta de estocagem deixa o País suscetível a mudanças bruscas nos custos de produção e impede a doação de alimentos para os mais necessitados

A estocagem regular o preço do grãos: quando há muito grão em circulação, o governo estoca uma parte da produção para que os preços não despenquem. Quando os preços estão muito altos, são liberadas partes do estoque para forçar a baixa de preços. Essa lógica também funciona para outras coisas, como a reserva de dólar pelo Banco Central. 

O alto valor da moeda norte-americana também faz com que seja vantajoso exportar. Com o câmbio desvalorizado, o País recebe valores maiores comercializando os grãos em dólar do que fazendo o uso interno da safra. 

Sem a estocagem, o País perde seu mecanismo de regulação interna. Além disso, com a maior exportação, falta matéria-prima para atender as demandas internas. 

O Brasil é o maior produtor mundial de soja, ultrapassando os Estados Unidos. Mas, por falta de planejamento e má-administração, terá de importar o grão para alimentar as cadeias produtivas aves e suínos, bem como para o sistema agroindustrial. 

No entanto, os altos valores comercializados não são repassados para o pequeno agricultor, ficando nas mãos das empresas de comércio exterior.

 

Desvalorização do real

Outro fator que se atribui a alta do valor dos alimentos é a desvalorização da moeda nacional em comparação com o dólar. 

Em março de 2020, quando o dólar passava de 4,60 reais, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que, “se fizesse muita besteira”, a cotação da moeda americana poderia passar de 5 reais. Após o avanço da pandemia e a insegurança institucional interna, o dólar fechou em 5,19 nesta sexta-feira, 27.

A desvalorização do real é fruto da crise econômica e política vivenciada pelo País desde 2015 – e agravada pela pandemia. A pouca capacidade de gestão a falta de previsões sobre a retomada econômico do País no pós-pandemia afugenta investidores.

Neste cenário, diversos insumos importados acabam tendo seus preços influenciados pelo vaivém das cotações internacionais: o que, consequentemente, provoca aumento do preço da comida no mercado interno. 

O dólar alto também acaba elevando o preço de insumos, já que muitos deles são comercializados sob a moeda norte-americana. E também encarece o valor do maquinário importado que é utilizado na produção. 

O preço do petróleo, outra commodity em alta, interfere no valor do diesel, utilizado no transporte das mercadorias.

A alta no preço das commodities é atribuída por analistas à pandemia. Em 2020, houve desorganização de cadeias de produção, com paralisação de atividades, o que gerou desequilíbrio nos mercados do mundo todo.

A projeção do banco norte-americano J.P. Morgan desde o fim do ano passado aponta para uma cotação mais próxima de R$ 5,40 no fim de 2021.

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, o mercado tem reagido mal às sucessivas queda de braço protagonizadas pela equipe econômica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, que defende um controle maior de despesas, e setores do governo que querem expandir os gastos.

A alta do dólar nos últimos dias também reflete outro cenário: PEC dos precatórios enviada pelo governo ao Congresso, que tem como objetivo postergar o pagamento de dívidas da União e as discussões sobre a criação de despesas fora do teto de gastos.

Considerando a desvalorização acumulada desde 2013, o real hoje só perde para a lira turca: é a segunda moeda que mais perdeu valor, considerando a taxa de câmbio de equilíbrio.

 

O descontrole da inflação

Outro fator que os especialistas atribuem a alta do valor dos alimentos é a inflação descontrolada. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial do País, acelerou a alta para 0,89% em agosto, após registrar taxa de 0,72% em julho. É o maior aumento para agosto desde 2002. Os dados do IBGE foram divulgados em 25 de julho. 

A alta foi puxada pelo aumento de 5% na energia elétrica e de 2,05% na gasolina. No ano, o índice acumula avanço de 5,81% e nos últimos 12 meses, de 9,30%.

O resultado veio pior do que o esperado. Uma pesquisa da Reuters com economistas estimava alta de 0,82% para o período. “Esse resultado é o maior para um mês de agosto desde 2002, quando atingiu 1%”, informou o IBGE. 

A crise sanitária mundial veio acompanhada de uma crise econômica. A pandemia causou a perda de 255 milhões de postos de trabalho em 2020, segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho, a OIT. 

Analistas apontam que a consequência do desemprego é a diminuição da demanda por diversos produtos, no entanto, não foi isso que aconteceu. Com a diminuição da circulação de pessoas em razão das medidas de isolamento social, a produção na totalidade diminuiu de ritmo, encarecendo o produto final. 

Entre maio de 2020 e maio de 2021 a inflação medida pelo IPCA subiu 15% na alimentação domiciliar. Isso influência muito mais nas famílias mais pobres, que dedicam uma fatia muito maior da renda para essa categoria de consumo. 

A alta da gasolina e a alta nos valores da produção de energia causada pela crise hídrica  também são repassadas para os produtos finais. A inflação de transporte cresceu 15% nesse mesmo período medido pelo IPCA. 

Contudo, a situação que fez aumentar os preços, deveria ser passageira, conforme análises de diversos economistas. Mas novamente, as previsões falharam. 

Os países ricos injetaram vultosas somas para que a economia interna voltasse a girar normalmente, reforçando a alta dos preços.

A alta dos preços dos produtos pode causar distorções quando aos números de crescimento do País. 

Enquanto os consumidores pagam mais por alimentos básicos, porém, estados e governo federal se beneficiam. Na União, por exemplo, a arrecadação de impostos teve aumento real de 24,49% no primeiro semestre de 2021 na comparação com o período homólogo no ano anterior. É a maior arrecadação da série histórica, iniciada em 2007.

Em julho de 2021, segundo dados divulgados pelo Ministério da Economia, houve alta de 37,5% na média diária de exportações, na comparação com o mesmo mês de 2020. Esses fatores contribuem para o aumento do PIB e uma falsa impressão de reestabelecimento econômico. 

Em junho tivemos a notícia de que o PIB do Brasil cresceu 1,2% no primeiro trimestre de 2021 e voltou ao patamar pré-pandemia. O que parece ser uma notícia animadora. O anúncio da subida do PIB foi comemorado pelo governo e também ajudou para manter a narrativa de que o Brasil está avançando. 

No entanto, uma análise mais minuciosa dos dados apontam que a maior fatia do PIB brasileiro foi do agronegócio, que se beneficiou da inflação. Com os preços dos produtos mais altos, arrecada-se mais e acaba causando a subida do PIB. Mas essa subida não indica crescimento econômico. 

O PIB de serviço, que o setor que mais gera empregos no Brasil, continuou encolhendo e o consumo das famílias também. Cenas de pessoas fazendo fila na porta de um açougue para a doação de ossos e gordura bovina não conversa com o aumento do PIB. O número de desempregados no Brasil também não parece se encaixar na perspectiva da alta do PIB. 

Analistas também alertam que a subida do PIB era esperada, dado que a queda no ano anterior foi muito acentuada. 

A utilização dos números de forma publicitária e com análise rasa dos fenômenos econômicos, pode ajudar a elevar a popularidade do presidente Jair Bolsonaro, mas não refletem uma melhora na vida do brasileiro.

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Repórter do site de CartaCapital

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