Relembre os ataques de Bolsonaro ao Centrão, hoje fiador de sua sobrevivência política

Sob condições cada vez mais adversas, o presidente abandona o discurso de 2018 e se alia ao que chamou de 'o pior do Brasil'

Foto: Isac Nóbrega/PR

Foto: Isac Nóbrega/PR

Política

Com alta rejeição popular, acuado pelo avanço das investigações da CPI da Covid e atrás de Lula nas pesquisas de intenção de voto para 2022, o presidente Jair Bolsonaro se afasta cada vez mais do que pregava em 2018 sobre o Centrão, bloco de partidos outrora demonizado por ele e seus apoiadores.

 

 

Nesta quinta-feira 22, ao tentar justificar uma reforma ministerial que levará o senador Ciro Nogueira (PP-PI) à chefia da Casa Civil – no lugar de um general, Luiz Eduardo Ramos -, o presidente disse que “Centrão é um nome pejorativo”.

“Eu sou do Centrão, eu fui do PP metade do meu tempo, fui do PTB, fui do então PFL. No passado, integrei siglas que foram extintas, como PRB, PPB”, disse Bolsonaro em entrevista à rádio Banda B, de Curitiba.

“Nós temos 513 parlamentares. O tal Centrão, que o chamam pejorativamente disso, são alguns partidos que lá atrás se uniram na campanha do Alckmin e ficou, então, rotulado Centrão como algo pejorativo, algo danoso à Nação. Não tem nada a ver, eu nasci de lá”, acrescentou.

Apesar da argumentação, o próprio Bolsonaro se referiu ‘pejorativamente’ ao Centrão em diversas oportunidades durante a campanha eleitoral de 2018.

Um dos momentos mais emblemáticos se deu em seu primeiro discurso como candidato à Presidência, em julho daquele ano. Na convenção do PSL, ele minimizou a importância de alianças formais e atacou os concorrentes que costuravam acordos. O então postulante ao Planalto chamou o Centrão de “escória”, ao criticar a adesão de partidos do bloco à candidatura de Geraldo Alckmin, do PSDB.

“Para fazer esse time campeão, o seu chefe não pode estar devendo nada para partido político nenhum”, afirmou Bolsonaro. “O Brasil não precisa de marqueteiro, centrões, demagogos e populistas. O Brasil só quer uma coisa: a verdade”.

Naquele dia, ainda disse que “de um lado está a esquerda e, de outro, o Centrão” e que agradeceria a Alckmin “por ter juntado a nata do que há de pior no Brasil ao seu lado”.

Aquele 22 de julho foi marcado também por um forte discurso do general Augusto Heleno, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional. Ele classificou o Centrão como “a materialização da impunidade” e fez uma paródia de um samba do cantor Bezerra da Silva, insinuando que os integrantes do bloco são ladrões. “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, cantou no evento. Em maio deste ano, Heleno chamou de “brincadeira” as declarações de 2018 e afirmou que o bloco não existe mais.

Mas esses não foram os únicos ataques de Bolsonaro ao Centrão. Em setembro de 2018, com a aproximação das eleições, o então candidato rechaçou, em entrevista à Jovem Pan, a possibilidade de se aliar ao bloco, se eleito. Também refutou qualquer chance de aceitar indicações políticas para ministérios a fim de construir uma base aliada. ”Não, não vai existir isso aí”, disse. ”Não será esse o critério, será a competência.”

Os ataques de Bolsonaro ao Centrão também foram frequentes em propagandas do PSL. Em uma delas, de 16 de agosto, o candidato mencionava a diferença no tempo de TV e rádio destinado a cada coligação.

“De um lado o Centrão, com essa gente que você muito conhece. De outro, a esquerda, que teima em voltar ao poder. Juntos, têm todo o tempo de televisão e de rádio, bem como quase 1,7 bilhão de reais para investir em campanha”, disse Bolsonaro.

Em outra gravação, ele afirmava que, nos anos anteriores, o presidente indicava seus ministros de acordo com interesses político-partidários. “Tem tudo para não dar certo. Qual é a nossa proposta? Indicar as pessoas certas para os ministérios certos. Por isso não integramos o Centrão, tampouco estamos na esquerda de sempre”.

 

Apenas promessas

A nomeação de ministros independentemente de indicações políticas não foi a única promessa descumprida por Bolsonaro. Nesta semana, ao anunciar a reforma ministerial que conduzirá Ciro Nogueira à Casa Civil, o presidente também comunicou a recriação do Ministério do Emprego e Previdência.

A ‘nova’ pasta deve ser ocupada por Onyx Lorenzoni, hoje à frente da Secretaria-Geral da Presidência.

O movimento contraria o que pregava o candidato Bolsonaro. No início de outubro de 2018, ele disse que montaria em três semanas “um ministério enxuto, com no máximo 15 ministros, que possa representar os interesses da população, não de partidos”.

O ressurgimento do Ministério do Emprego levará a 23 o total de pastas no governo, oito a mais que o máximo anunciado há três anos.

 

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