Dono da Davati admite que não tinha as 400 milhões de doses de vacina

Herman Cardenas, no entanto, negou que sua empresa tenha tentado vender imunizantes, dizendo ser apenas um ‘facilitador’ do negócio

(Foto: Yasuyoshi CHIBA / AFP)

(Foto: Yasuyoshi CHIBA / AFP)

Política

O dono e CEO da Davati Medical Supply, Herman Cardenas, admitiu que a empresa não tinha as 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca oferecidas ao governo federal. A declaração foi dada em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo nesta quinta-feira 15.

“Nossa intenção nunca foi vender as vacinas, mas apresentar as partes porque a Davati não tem as vacinas da Covid. Não tínhamos a garantia que conseguiríamos oferecer as 400 milhões de doses da vacina. O número apareceu em nossa proposta porque, quando perguntamos ao Cristiano quantas doses o Brasil precisava, ele disse que a população do Brasil é de cerca de 200 milhões de pessoas”, disse.

Cardenas explicou que o que existia era uma promessa de alocação das vacinas feita pela empresa de um médico junto à AstraZeneca. O CEO, porém, se negou a informar os nomes, devido ao sigilo contratual.

“Quando comecei a conversar com os alocadores, pedi que mandassem provas de que eles tinham essa alocação das vacinas, apesar de ser um grupo de boa reputação. Eles nos enviaram uma carta comprovando que tinham essa alocação com a AstraZeneca”, explicou.

 

 

 

O empresário informou que nunca conseguiu confirmar diretamente com a AstraZeneca se essas doses existiam ou não. “Eles não atenderam as nossas ligações”, justifica. A AstraZeneca, por sua vez, nega que trabalhe com representantes.

A não confirmação, porém, não impediu que sua empresa ofertasse as doses ao governo do presidente Jair Bolsonaro.

Na entrevista, Cadernas afirmou que nunca ficou sabendo de qualquer oferta de propina envolvendo a negociação.

O empresário também alega que Cristiano Carvalho não é representante legal da empresa, nem CEO dela no Brasil. Segundo informou, Carvalho é apenas representante de vendas dos produtos da Davati.

De acordo com Cardenas, o representante foi contratado em 25 de fevereiro, no mesmo dia em que teria ocorrido a oferta de propina na negociação. Ele diz não conhecer Carvalho e que ele foi uma indicação de um amigo, o coronel Glaucio Octaviano Guerra.

Sobre Luiz Dominguetti e o reverendo Amilton Gomes de Paula, que atuaram em nome da Davati nas negociações, Cardenas diz não ter autorizado a participação.

“Nós ficamos bem surpresos de ver recentemente cartas que surgiram na mídia de Cristiano adicionando pessoas como representantes da Davati, como Dominghetti, sem a minha ciência. Ele nunca foi autorizado a ser representante legal da empresa ou assinar em nosso nome, ele só representa a Davati na venda de produtos. A Davati não tem representantes legais no Brasil”, destaca.

Ele explica que soube da Senah, ONG do reverendo Amilton, quando foi informado que a negociação saiu das mãos de Roberto Ferreira Dias e passou a ser feita com Élcio Franco, então secretário-executivo do Ministério da Saúde:

“Soubemos que, em algum momento, as negociações passaram de Dias para Élcio Franco [ex-secretário executivo do ministério]. Nunca foi explicado porque as negociações não foram para frente. O que Cristiano disse foi que o governo não poderia comprar diretamente com a Davati ou AstraZeneca, mas de uma empresa brasileira, que teria que ser incluída na segunda oferta”, explica. Cardenas completa que a Senah não poderia acrescentar nada ao valor que vinha sendo negociado.

A negociação está na mira da CPI da Covid no Senado. Até o momento apenas Dominguetti e Dias foram ouvidos. O celular de Dominguetti foi apreendido e as mensagens indicam participação direta de Bolsonaro na negociação. Já Dias teve sua prisão decretada por mentir durante o depoimento.

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