Diversidade

O alerta de Sueli Carneiro para a ascensão do nazifascismo no Brasil

Nesse movimento de refletir sobre o passado e pensar o presente, ela faz uma afirmação que assusta, mas ajuda a compreender as motivações de episódios recentes de violência

(Foto: Marcus Steinmayer)
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Lançado em agosto de 2021, Mano a Mano, comandado pelo rapper Mano Brown, é um dos podcasts mais comentados do país. Nesse período, o líder dos Racionais MC’s entrevistou figuras importantes do cenário nacional, como Emicida, Djamila Ribeirto, Taís Araujo e Lázaro Ramos. Brown recebeu também o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ex-presidenta Dilma Rousseff.

Na semana passada, Brown dividiu os microfones com a filósofa Sueli Carneiro, a quem ele nomeou como “uma das mulheres mais poderosas do Brasil”. Ao longo de mais de duas horas, a fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, deu boas risadas, falou da paixão pelo futebol e da infância na Vila Bonilha que, em meados dos anos 1950, “nem existia no mapa”. Como não poderia deixar de ser, Sueli falou também sobre racismo, que conheceu na escola aos seis anos de idade: “Eu era chamada de Pelezinho!”, disse a primeira negra a receber o título Doutora Honoris Causa na Universidade de Brasília (UnB).

Filha mais velha de uma família composta por sete irmãos, no podcast, Sueli Carneiro deu uma verdadeira aula magna. Ela teceu reflexões importantes a respeito do Brasil, país em que negros são mortos de forma impiedosa, “igual passarinho, igual pardal”. Ao tratar dessas questões, a conversa iniciada com riso solto ganhou um tom sério, duro, de denúncia. Sueli apontou o genocídio que tem ceifado a vida dos jovens pretos, definido como um projeto deliberado de extermínio da população negra, iniciado ainda no século XIX: “Eles assinaram uma abolição que significava: vocês estão livres para morrer na sarjeta desse país. Não tinha um projeto de inclusão, não tinha um projeto de Reforma Agrária que nos permitisse lidar com a terra, não havia nenhum projeto educacional. Fomos jogados na lata do lixo das cidades brasileiras”.

Créditos: Jef Delgado / Spotify/Divulgação

Nesse movimento de refletir sobre o passado e pensar o presente, a doutora em Educação pela USP fez uma afirmação que assusta, mas ajuda a compreender as motivações de episódios recentes, como a chacina da Vila Cruzeiro e o assassinato de Genivaldo de Jesus Santos, morto em uma câmara de gás construída por agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF): “Nós estamos vivendo um fenômeno racista que é novo. Está ascendendo no Brasil a ideologia nazifascista. Ela vem atravessada pelas ideias de um supremacismo branco. Se a gente não parar esse tipo de ideologia que está em ascensão, que o governo atual trouxe, reproduz e pretende aprofundar, se a gente permitir, vamos ter uma situação de exacerbação da violência racial nos mesmos padrões que a África do Sul ou no regime de segregação racial norte-americano”.

No encontro permeado por um cenário de tantas ameaças, Sueli Carneiro fez duras críticas à política neoliberal que “uberiza”, precariza a vida, principalmente da população negra, alijada dos empregos formais e com melhor remuneração. Ao responder uma pergunta de Mano Brown sobre empreendedorismo, tema em voga no momento, Sueli recorreu mais uma vez à História, ressaltando o pioneirismo das afro-brasileiras: “Nós somos pioneiras no empreendedorismo. É uma coisa que desde o século XIX, sobretudo, as mulheres negras realizam. Se não fosse empreendendo, como sobreviveríamos nas condições de miserabilidade em que sempre vivemos? Para nós, não tem novidade nenhuma nisso”.

Durante a conversa com Brown, Sueli ainda falou da expectativa em relação a uma possível vitória do ex-presidente Lula nas próximas eleições, como esperança de melhoria nas condições de vida da população: “A gente está acreditando que o Lula traz essa nova possibilidade”. Em meio a um presente que amedronta e exige ação, mestra que é, Sueli Carneiro indicou caminhos: “São múltiplas as estratégias de luta que nós temos que desenvolver para sobreviver nessa sociedade que nos exclui. Nós não podemos renunciar a nenhuma possibilidade. Tem que buscar organizar nossa gente, tem que conscientizar nossa gente de que precisamos lutar coletivamente. Nós precisamos ter estratégias coletivas de luta, [entender] que a ideologia neoliberal e individualista não nos emancipa”.

Influenciada pelo movimento de mulheres negras, pelo lema das mães pretas que choram os filhos mortos pela violência policial e buscam justiça, Sueli Carneiro fez questão de lembrar: “Para nós, luto é verbo”.

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