Opinião

Lula disse a verdade e o Brasil deveria retirar seu embaixador de Israel

Em sua maioria, a mídia nacional reproduz chavões da imprensa do Norte, que, por sua vez, há tempos, não faz mais jornalismo

O presidente Lula e m viagem à Etiópia, em 17 de fevereiro de 2024. Foto: Ricardo Stuckert/Presidência do Brasil/AFP
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“Ser poeta é viver três doses acima” –  Vinicius de Moraes

Parabéns ao Lula! Disse a verdade. O que o estado de extrema-direita de Israel faz em Gaza é genocídio, em tudo similar e comparável ao Holocausto hitlerista.

Não vou comentar a repercussão na imprensa nacional porque não tem importância. Em sua maioria, reproduz chavões da imprensa do Norte, que, por sua vez, há tempos, não faz mais jornalismo, dedicando-se basicamente à propaganda de guerra.

Portanto, a forma como os meios de desinformação do Norte receberam a declaração de Lula demonstra que ele estava 1000% correto.

O canal de TV estatal da França France 24 Heures demonstrou mais uma vez seu racismo colonialista, que Franz Fanon tão bem denunciara.

A “correspondente” no Rio de Janeiro (se a capital é Brasília, por que está no Rio?) estava visivelmente perturbada: disse que Lula ultrapassara a “linha vermelha”. Não deixou claro se era a que ela traçara (“pretensão e água benta, cada um toma o quanto quer”, diria minha avó), ou a que Bibi Netanyahu, o genocida senil, estabelecera como limite para a verdade.

A referida pessoa ainda proferiu impropérios sobre Lula ter se excedido e que já não será o líder “do Terceiro Mundo” (ela deve achar que o dela é o Primeiro, risos para isso).

A incompetente ao menos nos fez o favor de fazer a matéria em rua bastante movimentada (para dar a impressão de ser a própria voz dos locais), de tal sorte que mal se ouviam as bobagens que proferia, todas, porém, financiadas pelos cidadãos e cidadãs franceses.

Os mesmos cidadãos e cidadãs que, desde ontem, passaram a pagar 100% mais pela franquia de medicamentos, o que, obviamente, atingirá os mais vulneráveis economicamente daquela sociedade: idosos, enfermos, pessoas com necessidades especiais, entre outros.

Por outro lado, o desgoverno do mesmo Hexágono anunciou que alocará 2% do orçamento para a guerra, ou a defesa, como a chamam hipocritamente por lá.

Graças a essas políticas de concentração de renda, a extrema-direita desponta como favorita a vencer as próximas eleições para o Parlamento Europeu.

Vale notar que não se trata de caso isolado: os gastos militares aumentaram 9%, como um todo, com relação ao ano passado, o ápice desde a Segunda Guerra.

Os EUA lideram o genocídio, sendo responsáveis por 41% dos gastos com armamentos, estando a outrora pátria dos direitos humanos, a França, entre os “dez mais”…

Coerentemente com essa necropolítica, a Inglaterra também está entre os dez maiores assassinos, sendo que no segundo semestre de 2023, já registrou recessão econômica.

Nesse quadro sombrio, fica evidente que o desafio é a paz.

Lula já percebeu isso, resta a esperança de que o Itamaraty também o faça.

Todo e qualquer tema deveria estar subordinado a ela. Sem paz, não haverá segurança alimentar ou qualquer outra segurança.

Vale notar que sequer na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 10 de dezembro de 1948, o direito à paz está inscrito como um direito humano, provavelmente porque os países que hegemonizam a ONU são os maiores produtores de armas e guerras.

Não está na hora de a cidadania mundial exigir essa inserção?

Está claro que o armamentismo e as guerras só servem para matar e concentrar ainda mais a riqueza e a renda, como vimos nos casos antes citados da França e da Inglaterra.

Com efeito, o Papa Francisco tem relembrado que o negócio mais rentável do mundo (depois de subornar nossa “grande imprensa” para promover golpes de Estado, acrescentaria eu) é a fabricação de armas.

Para não dizer que tudo são trevas, o bem é tão poderoso que o mal não pode com ele, no médio prazo. Dois exemplos: a guerra da Otan contra a Rússia fez com que o fluxo de comércio russo, desviado da Europa para a China, crescesse 26%, em um único ano, entre o maior país do mundo e o império do meio.

No mesmo sentido, após ruptura de 10 anos, Egito e Turquia reataram laços diplomáticos, no mais alto nível, por meio da simbólica visita do presidente Erdogan ao Cairo. Não é pouco.

Ao lado disso, uma certa independência para um país 100% alinhado à Otan, a Austrália.

O Parlamento daquele país acaba de aprovar moção para o repatriamento de Julian Assange, o corajoso jornalista que denunciou as espionagem ilegais dos EUA e seus crimes de guerra – no Afeganistão e no Iraque -, com a solicitação ao Reino Unido de que não seja extraditado para os EUA, onde morreria, sem sombra de dúvida.

Veremos agora se o fato de ambos os países terem o mesmo rei Charles III, como chefe de Estado, não passa de um retrato na parede ou se tem algum outro significado. Se a Comunidade Britânica ainda sobrevive ou se já está morta e enterrada. Se o rei terá aprendido algo de compaixão com sua enfermidade, ou se o câncer não terá tido nenhum significado. Se o fato de chefiar a Igreja Anglicana não passa de protocolo herdado de Henrique VIII ou se há um coração de carne sob uma coroa que tantos flagelos trouxe ao mundo.

Por fim, já que o governo de extrema-direita de Israel quer chamar o embaixador do Brasil, por que não retirá-lo?

Deixemos um encarregado de negócios no lugar. Não faz sentido algum manter embaixador em país desgovernado pela extrema-direita.

Seria um belo precedente: em países fora do arco diplomático, queremos ser representados no mesmo nível, de forma adequada.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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