Roberto Amaral

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Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle)

Opinião

Na paz e na guerra, a força dita o domínio

Exemplar é o permanente choque entre os povos árabes, apoiados pela URSS e agora pela Rússia, e Israel, apoiado pelos EUA

Joe Biden e Benjamin Netanyahu em Tel Aviv, em 18 de outubro de 2023. Foto: Brendan Smialowksi/AFP
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“No Brasil não se organiza exército contra o estrangeiro; desenvolvem-se as instituições militares contra a ordem civil” – Rui Barbosa. Discursos parlamentares

Advertindo-nos sobre o desfecho previsível, embora indesejável, da crise político-estratégica que divide o mundo — mais uma vez como dois blocos adversos de forma mais aguda do que aquela dos anos da Guerra-fria –, o historiador e cientista político Manuel Domingos Neto (O que fazer com o militar) lembrava, recentemente,  em palestra no Instituto Brasileiro de Estudos Políticos-IBEP, a inexistência de registro histórico de desfecho de conflito hegemônico, como o que vivemos presentemente, fora do embate militar.

É suficiente percorrer o currículo do Ocidente, nosso espaço cultural, desde quando se fez conhecer como civilização em busca do mando. Basta recorrer às duas disputas do século passado, determinando duas guerras que se prorrogaram, chegando aos dias presentes mediante formas as mais variadas, mantida porém, a essência: o embate pela hegemonia.  Porque, desde sempre, é a força que dita o domínio. Na paz e na guerra.

Em 1945, vencida a chamada segunda guerra mundial pelos “aliados”, as bombas jogadas contra o Japão (70 mil civis mortos) eram, do ponto de vista exclusivamente militar, absolutamente desnecessárias e, do ponto de vista humano — portanto do ponto de vista ético, segundo uma suposta ética ocidental, própria, nossa –, uma imoralidade, ademais de um crime monstruoso.

Politicamente, porém, o genocídio pareceu necessário aos EUA, empenhados em demarcar o território sobre o qual passaria a exercer seu projeto de senhor do mundo, realizando seu alegado “destino manifesto”, impondo seus valores específicos a todo o mundo, por variados instrumentos, com realce para o fuzil. Os cruzados da contemporaneidade estavam voltados ao desafio (visto como imperativo) de estabelecer limites políticos e espaciais ao inimigo que sua visão de mundo elegera. Little Boy” e “Fat Man, as bombas de 6 e de 9 de agosto de 1945, de fato, miravam Moscou, ao tempo em que estabeleceram um novo conceito de guerra, ao qual o restante do mundo procuraria inclusive a União Soviética. Os blocos políticos eram necessariamente blocos de guerra, e jamais politica e guerra estiveram tão atadas. As reuniões de Ialta, quando os vencedores, nessa altura já não tão aliados, redesenharam o mundo seguindo as rotas traçadas pelas suas tropas, só se realizaram após a inauguração, pelos EUA, da era nuclear.

Ainda não haviam se dissipado os cogumelos atômicos, e ao mundo era apresentada uma nova realidade geopolítica, imperativa, à qual todos se deveriam adaptar. Para além dos conflitantes notórios, os líderes dos dois polos administravam em consórcio o projeto estratégico, que ficou mais claro com o ingresso da URSS no clube atômio. EUA e URSS foram por muito tempo os xerifes da nova ordem, na qual deveriam ser respeitados os respectivos projetos de expansão, condicionados por um pacto não declarado: as duas potências, sem renunciarem à disputa acirrada, evitariam o conflito direto e reconheceriam a zona de controle de cada um. Esse entendimento foi posto às claras quando da invasão, pela URSS, da Hungria (1956) e da Checoslováquia (1968). Entramos na fase da guerra fria sob condições ditadas pela corrida nuclear, presente ainda hoje, apesar da autodissolução da URSS e sua renúncia ao experimento comunista e adesão ao capitalismo, recusadas pelos EUA, segundo Putin, o czar moderno.

O adversário, hoje, e talvez definitivo, é a Eurásia, onde pontificam a potência chinesa e o arsenal nuclear da Rússia.

As bombas sobre  Hiroshima e Nagasaki não apenas apressaram por uns poucos dias a rendição de um Japão de joelhos (as tropas soviéticas já se haviam instalado em Berlim), como alteraram substancialmente a lógica e a estratégia da guerra, ao tempo em que, igualmente, determinavam a logística de seu adversário: a URSS de então, sem alternativa, ingressou na corrida pela bomba atômica. Era a alternativa, supostamente a única, para sobreviver diante do inimigo luciferino. Para muitos analistas, a expectativa do armagedon, anunciada pela ameaça atômica, teria evitado, ou mais precisamente adiado, a terceira guerra mundial, esta que já se trava, como as que se sucederam à vitória dos aliados: mediante terceiras forças, subsidiadas, assistidas, financiadas.

As guerras contra os palestinos e a invasão da Ucrânia põem nas mesmas posições tático-políticas os exércitos que lutaram na Coréia e no Vietnam, como na China, cuja revolução maoísta foi decisivamente apoiada pela URSS. (Este apoio, porém, não seria suficiente para evitar as difíceis relações entre a China de Mao e a URSS, acusada de imperialismo pela vizinha, o que  valeu a associação dos chineses ao Pentágono em projeto de desestabilização da URSS (v. Sobre a China, Henry Kissinger).

Mas essas não foram as únicas guerras, digamos guerras regionais ou localizadas ou terceirizadas, nas quais os interesses dos EUA e da URSS eram defendidos por outras formas. O confronto era a opção mais radical, a que se valeu seguidamente o Pentágono, complementando a intervenção nos embates puramente políticos que assolaram — com ditaduras pró-americanas  e golpes de Estado contra governos esquerdistas ou simplesmente democráticos todo o mundo –, mas especialmente na Ásia, no continente africano, e na América Latina. No Brasil, principalmente após 1945, com o retorno dos oficiais que estagiaram com as tropas americanas no final da segunda guerra mundial.

A característica nodal da segunda metade do século é essa: o intervencionismo acompanhando as guerras por procuração. Ainda é a fase de hoje, embora cada vez mais se distanciando do conceito estrito de Guerra Fria.

Onde houvesse qualquer sinal de emergência de algo que sugerisse um movimento comunista, seja nos limites do processo político institucional, seja já no campo do conflito armado, os EUA se faziam presentes, para seu combate, e essa era, ipsis litteris, a lógica de enfrentamento da URSS, o apoio às insurgências de esquerda e aos movimentos de libertação nacional e descolonização.

Assim seguia a história, repetindo quase sempre o mesmo enredo com os EUA frequentando com suas tropas o teatro da guerra, que a URSS, até o desastre do Afeganistão, procurava evitar. Exemplar é o permanente choque entre os povos árabes, apoiados pela URSS e agora pela Rússia, e Israel, apoiado pelos EUA. O governo sionista de Tel Aviv, com provável posse de artefatos artefatos nucleares, poderosas forças armadas e avançada indústria bélica e armamentos fornecidos pelos EUA e a Otan, fez-se, a um tempo, protetorado dos EUA e seu posto avançado no Oriente Médio, onde prossegue o conflito que vem da segunda metade do século passado, na sequência do esquartejamento imposto pela Inglaterra, nas pegadas da primeira guerra mundial e do colapso do Império Otomano.

Certamente era a tudo isso que se referia o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao lembrar, no Conselho de Segurança, que o ataque do Hamas a Israel deveria ser considerado numa visão histórica, irritando como vimos o sionismo.

O conflito segue no Oriente, de onde jamais se afastou, e põe, nesta fase, seu primeiro pé na Europa, emprestando sua marca ao novo século.

A delimitação dos campos prossegue. É assim que se preparam as grandes guerras, pois nenhuma é improvisada. O mundo assistiu, sem dar-se conta do que via, ou fingindo não ver a realidade para melhor conviver com ela, ao rearmamentismo da Alemanha, como estamos vendo, hoje, a arquitetura de um amanhã que não nos pode atrair. Para a humanidade seria de bom proveito conhecer a alteração de objeto e sujeito da guerra fria contemporânea, desde o suicídio da União Soviética, a ascensão da China e a crise do capitalismo de nossos dias, posta a nu principalmente com a crise sistêmica deflagrada em 2008 com a debacle financeira dos EUA que atingiu todo o mundo. Esses movimentos se conjugam, pois correm, em paralelo às dificuldades dos EUA, com o crescimento continuado da China.

Vivemos os novos tempos que impueram uma nova guerra fria, esta de hoje. Não há mais por que falar em defesa da democracia, nem em ameaças do comunismo, posto que o conflito, a rigor, é intercapitalista e seu objeto vem das calendas gregas: a disputa da hegemonia econômica e politica que depende da hegemonia militar. Como toda grande guerra, a que se aproxima não chega pronta. Sua infantaria é a batalha ideológica abrindo a trilha para os primeiros choques de interesses, os bloqueios de toda a ordem, até os primeiros conflitos, que são sempre operados por outras forças. Refiro-me às guerras ou conflitos por procuração. Nas estepes russas e ucranianas não há combatentes nem chineses nem norte-americanos, nem iranianos.

A segunda guerra mundial tem-se como iniciada em setembro de 1939, com a falsa surpresa da Inglaterra diante da invasão da Polônia, escancaradamente anunciada pela Alemanha, com reiteradas ações de beligerância, além de discursos grandiloquentes diante de massas hipnotizadas: em 1936 a  remilitarização da Renânia; em 1938 a anexação da Áustria; ainda em 1938 a anexação dos Sudetos da Checoslováquia e, em março, a ocupação do que sobrara da Checoslováquia.

Nada obstante tanta clareza, o primeiro ministro inglês, Arthur Neville Chamberlain, em setembro desse assustador 1938, regressa da “Conferência de Munique”, onde negocia com Mussolini e Hitler, proclamando que havia alcançado “a paz para o nosso tempo”. E é mantido no cargo até 1940! Os EUA —  acossados pelo ataque nipônico a Pearl Hambourg (1941) — só entrariam no teatro da guerra em abril de 1942, com um bombardeio de efeito psicológico e pouco danos materiais sobre Tóquio.

Hoje, o que desponta no horizonte a olho nu é o conflito entre um Ocidente em crise contínua (crise política com o avanço da direita e a extrema-direita, e crise econômica crônica, mas ainda fortíssimo no plano militar, pois sua cabeça está em Washington) e uma Eurásia liderada por uma China em permanente crescimento tendo à sua ilharga o paiol atômico da Rússia. Por sem dúvida a realidade não se conforma com o congelamento e todos sabemos que o processo histórico é um composto de variáveis, muitas imprevisíveis. Mas consideremos o que os números podem sugerir.

Nos últimos 10 anos, o crescimento médio do PIB dos EUA ficou em torno de 1,5% e 2,5% ao ano. No mesmo período, a China apresentou um crescimento médio do PIB entre 6% e 7% ao ano. A tradução dominante desses números, para analistas do chamado primeiro  mundo, é que que a China vem, há anos, apresentando indicadores de crescimento contínuo, candidatando-se a, na margem de 10 a 20 anos, superar os EUA como a maior economia do mundo. O conflito está exposto e muito depende de  como se encaminhará o Pentágono: esperará o maior crescimento do adversário para então enfrenta-lo?

De uma forma ou de outra colocar-se-á a questão crucial da hegemonia, da qual nenhum líder, ou candidato a líder, pode abrir mão.

O que temos com isso? Tudo, porque, independentemente de nossa vontade, seremos afetados. O que nos resta, nas circunstâncias, é ditar esses limites e sua inclinação.

Independentemente de nossa vontade, esperemos que seja segundo nossos desígnios, seremos afetados. Somos o maior país da América do Sul, a nona economia do mundo, a 7ª população do mundo, a maior da AL. Somos grandes importadores de manufaturados e produtores e exportardes de alimentos e commodities. Precisamos saber que não somos parte na disputa hegemônica, e zelar pela nossa autonomia. Para tal, porém, carecemos de uma politica nacional de soberania, um projeto claro de país que fale à sua população e não só à Faria Lima, e, principalmente, carecemos de forças armadas bem treinadas, bem aparelhadas, com o máximo de nacionalização de seus equipamentos, apartadas dos interesses hegemônicos em jogo.

Precisamos discutir de que forças precisamos para assegurar nossa soberania, à margem do jogo das grandes potências e blocos, e privilegiando nossos interesses. Um sistema no qual o poder civil não seja, como hoje e em toda a historia republicana, manietado pelo fuzil. Como conditio sine qua non para a afirmação de nossa soberania, retorno ao professor Manuel Domingos, precisamos “de uma nova Defesa, que revise o papel, a organização e a cultura das Forças Armadas”.

Precisamos, passado mais de um século, responder a Rui Barbosa, o mais louvado de nossos liberais.

(Com a colaboração de Pedro Amaral)

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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