Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

A recuperação silenciosa de Jair Bolsonaro é mito ou verdade?

Ao “denunciarem” a “recuperação silenciosa” de Jair Bolsonaro, os analistas fazem uma transposição indevida entre a avaliação do governo e as eleições

Fotos: Evaristo Sá/AFP e Fabrice COFFRINI/AFP
Fotos: Evaristo Sá/AFP e Fabrice COFFRINI/AFP
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Há uma recuperação silenciosa do presidente Jair Bolsonaro? Esse é um esforço de constatação que tem se tornado um mantra e um bordão dos analistas políticos de verdade e aventureiros de “redes sociais” após as últimas pesquisas do Ipespe, da Quaest e, agora, da FSB.

Mas será que há realmente essa recuperação? 

Em primeiro lugar, antes de se aventurar em maiores conclusões, é preciso fazer uma distinção fundamental. Uma coisa é a popularidade e a aprovação de governos. Uma outra coisa são as intenções de voto. São gêneros que dialogam e se relacionam, mas, definitivamente, não se confundem. 

Os índices de popularidade e aprovação de um presidente e o seu governo costumam ser manifestações de avaliações absolutas. Manifestações de intenção de voto, por outro lado, são relativas. 

Se tomamos o primeiro caso como parâmetro, o que esses institutos têm mostrado é, realmente, uma pequena amortização da avaliação negativa do governo Bolsonaro. Pequena porque, no geral, o que vemos de janeiro de 2022 para cá é uma oscilação dentro da margem de erro: de 54%, desceu para 52% na última pesquisa Ipespe. A avaliação positiva subiu só um ponto acima da margem de erro: de 24%, passou para 27%. Na Quaest, quase a mesma coisa. No mesmo período, a avaliação negativa sai de 50% para 48%. A positiva, de 22% para 24%. 

E por que usei o esse intervalo temporal? Propositalmente porque, em janeiro do ano corrente, o governo Bolsonaro começou a pagar parcelas de R$ 400 da deformação eleitoreira do Bolsa Família: o Auxílio Brasil. E é nisso que analistas (os de verdade e os de mentirinha) têm apostado suas fichas para vender a ideia de “recuperação silenciosa” de Jair Bolsonaro. Contudo, como se vê, não há absolutamente nenhuma evidência empírica que dê conta disso. O que se tem é a velha e manjada premissa (falsa) de que o eleitores mais pobres são mercadorias que trocam suas disposições políticas por algumas cifras de auxílio governamental. 

Já estamos com três meses de parcelas de R$ 400 sendo distribuídas nas economias menos favorecidas do país e tudo que Jair Bolsonaro conseguiu foi oscilar dentro da margem de erro ou um dos milímetros cima dela, no geral. 

Mas o mais importante: todo esse rebuliço analítico se dá porque, ao “denunciarem” a “recuperação silenciosa” de Jair Bolsonaro, os analistas fazem uma transposição indevida entre a avaliação do governo e as eleições. Eu explico melhor em forma de quase anedota: o eleitor ou a eleitora, amigos e amigas, pode até mudar suas disposições sobre um governo porque está recebendo um benefício essencial a sua sobrevivência e dignidade, mas isso não significa que, diante de uma disputa eleitoral, essa sua disposição seguirá um vetor que aponte para o mandatário como sua opção eleitoral. 

Em outras palavras, o cidadão ou a cidadã, beneficiária direta ou indireta do auxílio do governo, pode até observar melhoras para si e seu entorno, mas isso não significa que ela seja cega às opções eleitorais que lhe estão disponíveis. Eleitores, no geral, fazem cálculos idênticos para decidir pelo voto. E aí a porca torce o rabo: a agenda moral (e não o tal do antipetismo) que elegeu Jair Bolsonaro em 2018 não tem dado demonstrações de que consegue competir com a deterioração da economia, o aumento no preço dos combustíveis, o desemprego, a fome, a miséria, o desemprego galopante e a inflação. 

Não que o eleitor de 2018 tenha mudado. Nada disso. Continua sendo profundamente alinhado com a agenda moral ultraconservadora do bolsonarismo e avessa a qualquer princípio universal de direitos humanos. Mas entre valores morais, convicções ideológicas e as privações materiais que o aumento do custo de vida proporcionam, não há dúvidas de qual será a prioridade. É por isso que Lula continua com 43% de intenções de voto contra 28% de Jair Bolsonaro na última pesquisa Ipespe e chegam a 48% e 28%, respectivamente, na última pesquisa Quaest. 

E por quê? Porque 2022 será sobre a economia. A constatação de que a vida piorou desgraçadamente sob o governo Bolsonaro versus o tipo de memória que se têm da vida social sob a gestão do petista. E sobre isso, a última pesquisa do BTG Pactual é elucidativa: para a maioria do eleitorado, Lula é o mais capaz de reduzir a pobreza (49%), tratar de programas sociais (47%), gerar empregos (43%) e controlar preços  para reduzir impostos e produzir crescimento econômico (42%). Tudo isso fica sob o imenso guarda-chuva da categoria “economia”. Mas o mais impressionante é que Lula também é o mais indicado para combater a corrupção na avaliação de 30% dos eleitores.

O que estamos vendo é um cenário profundamente consolidado para outubro. Sim, Jair Bolsonaro irá crescer mais. Mas não por conta do seu governo ou de dinheiro de auxílio, mas apesar de tudo isso. O derretimento natural de intenções de voto no ex-capitão era nada mais era do que briga de casal, não divórcio. Jair Bolsonaro ainda chegará até outubro apoiado por 30-35% do eleitorado, a base social que ele trabalha arduamente para manter mobilizada e que deve levá-lo ao segundo turno.

Como disse e reforço, ele já sabe que em 2022 sua disputa não é contra Lula. As chances de ganhar são cada vez mais ínfimas. Sua disputa será contra a democracia brasileira. Como, de resto, tem sido ao menos desde janeiro de 2019. 

Voltarei a comentar mais aspectos das pesquisas nas próximas colunas. 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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