Entrevistas

A ‘autocrítica’ de deputada da esquerda peruana após destituição de Pedro Castillo

Em entrevista a CartaCapital no Foro de São Paulo, Maria Antonieta Gutiérrez diz que falta de unidade na esquerda levou o Peru à crise política atual

A deputada peruana Maria Antonieta Agüero Gutiérrez. Foto: Victor Ohana/CartaCapital
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Dois anos após o triunfo contra a extrema-direita nas eleições presidenciais de 2021, o partido de esquerda Perú Libre viveu desdobramentos frustrantes: o político que a legenda levou à Presidência, Pedro Castillo, foi destituído por acusação de promover um golpe de Estado; o atual governo é visto pela sigla como ilegítimo; e a bancada no Congresso encolheu de 37 para 15 parlamentares. 

Prestes a liderar uma paralisação nacional em 19 de julho, o Perú Libre teve representantes no Foro de São Paulo, evento realizado pelo PT com grupos de esquerda estrangeiros, no último fim de semana, em Brasília.

Uma das integrantes da agremiação era Maria Antonieta Agüero Gutiérrez, congressista com mandato até 2026. Em uma entrevista a CartaCapital durante o encontro, Gutiérrez afirmou que o Perú Libre está “pagando as consequências” da falta de unidade do partido e que trouxe essa lição ao Brasil. 

A declaração ocorreu logo após o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que incentivou os partidos de esquerda a revisarem os seus próprios erros e defendeu a importância de que essas organizações tenham compromisso com o processo democrático.

Depois que Castillo sofreu impeachment, por ter anunciado a dissolução do Congresso e decretado um governo de exceção, Lula havia escrito em sua rede social que lamentava a deposição, mas que considerava constitucional a decisão do Congresso.

Na época, nem mesmo ministros do governo concordaram com o ato de Castillo. Desde então, o Perú Libre vem perdendo representantes no Congresso. A última grande renúncia foi a da deputada e ex-ministra Silvana Robles, por “diferenças políticas substanciais”.

Com os protestos contra a posse de Dina Boluarte, que era vice-presidente, repressões violentas das forças de segurança resultaram em pelo menos 67 mortes e 1.785 feridos. O período mais caótico ocorreu entre 4 de janeiro e 11 de fevereiro. 

Confira os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: Qual foi a sua primeira impressão após o discurso do presidente Lula?

Maria Antonieta Agüero Gutierrez: A mensagem que se reitera é a da luta pela democracia e a de que não haveria solução para nossos problemas, comuns aos países da América Latina, se não praticarmos a democracia. Ele nos chama à unidade. Começou fazendo um testemunho de como o Foro de São Paulo surgiu, com Fidel Castro, e como dialogavam. Também mostrou que as pessoas de esquerda devem se criticar internamente, mas que ficamos lisonjeados quando fazemos o contrário publicamente. Creio que essa reflexão fortalece a organização, com o povo, desde o povo e para o povo. No meio de tanta diversidade, compartilhamos a mesma problemática. Conquistar a unidade seria a nossa vitória. 

CC: Quais são as contribuições do Perú Libre para o Foro de São Paulo?

MAAG: Vieram dois representantes do Perú Libre, cujo símbolo é o lápis. O partido levou o Pedro Castillo ao governo. E agora, temos uma crise por não termos entendido o tema da unidade e não termos reunido todas as organizações de esquerda e progressistas. Era a primeira vez que um partido de esquerda chegava ao governo do Peru. Agora, estamos pagando as consequências do nosso erro de termos separado o partido e de nos vermos divorciados do povo. Estamos pagando, inclusive, com vidas. O atual governo não é legítimo, porque o povo não o reconhece e não o aceita. Aqui, conversamos com diferentes grupos políticos para levar a mensagem de unidade. É a primeira vez que participo.

CC: Sobre o ex-presidente Pedro Castillo, houve acusações de que ele foi autor de uma tentativa de golpe de Estado. Houve erros por parte dele?

MAAG: A realidade é que ditadura existe agora com Dina Boluarte, porque, com Pedro Castillo, por mais que tenha lido o que leu, nunca vimos tanques nas ruas ou a polícia a reprimir o povo. Não houve o que se viu imediatamente após o ingresso de Dina Boluarte, com as Forças Armadas e a Polícia. 

CC: Quais são as tarefas práticas a partir desta reunião?

MAAG: Se não tivermos autonomia econômica, tampouco poderemos falar de liberdade de expressão ou de qualquer outra liberdade. Infelizmente, todos os países da América Latina, alguns mais que outros, visivelmente, dependem economicamente de um império que se chama governo dos Estados Unidos. Os políticos que estão no governo dos Estados Unidos reprimem os povos latino-americanos, e isso se dá mais fortemente em Cuba e na Venezuela, que não podem fazer negócios com outros países porque os Estados Unidos podem intervir e sancioná-los. O bloqueio amedronta muitos governos. Ameaçaram Pedro Castillo. Como presidente, Castillo foi aos Estados Unidos e não fez nenhuma mudança. Na verdade, seguiu dentro das políticas neoliberais e regressou dizendo “América para os americanos”, uma frase clássica dos grupos de poder econômico dos Estados Unidos.

No Peru, estamos convencidos que se não mudarmos a Constituição, que temos há 30 anos, não mudaremos nada. Essa Constituição está feita para entregar os recursos naturais às empresas transnacionais, que de nenhuma maneira vão garantir os direitos fundamentais.

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