Economia

Refinaria privatizada reduz produção de gás de cozinha e Bahia sofre com desabastecimento

Imprevistos em manutenção programada comprometeram fornecimento do produto, prejudicando a população

Acelen, criada pelo fundo Mubadala Capital, dos Emiradores Árabes, assumiu controle da Rlam Foto: Divulgação
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*Vinicius Konchinski

A Acelen, empresa que comprou da Petrobras a Refinaria Landulpho Alves (Rlam), em São Francisco do Conde (BA), reduziu o fornecimento de gás de cozinha a distribuidoras do produto. Por conta disso, segundo o Sindicato dos Revendedores de Gás da Bahia, aproximadamente metade dos postos de venda de botijões de Salvador e região estão fechados. Há escassez também em cidades do interior do estado.

O gás que chega a esses estabelecimentos é predominantemente produzido na Rlam, que foi privatizada em 2021. Desde dezembro, a planta passou a ser administrada pela Acelen, empresa criada pelo fundo Mubadala Capital, dos Emirados Árabes Unidos.

A Acelen passou a chamar a Rlam de Refinaria de Mataripe. Também adotou uma política de custos de combustíveis própria, que aumentou a gasolina e o diesel na Bahia e tornou o estado campeão de preços altos.

Mais do que isso, a Acelen passou a ser responsável pelas manutenções obrigatórias da antiga Rlam. Esses procedimentos por vezes exigem a suspensão de unidades de produção da refinaria. Foi justamente um deles que comprometeu o abastecimento de gás.

De acordo com o diretor do Sindicato dos Petroleiros da Bahia (Sindipetro-BA), Radiovaldo Costa, a Acelen foi obrigada a fazer uma manutenção na sua unidade de produção de gás. Programou utilizar outra unidade, que permanecia paralisada desde 2019, para tentar manter o fornecimento de gás. Acontece que a reativação dessa unidade teve imprevistos, comprometendo seu funcionamento. O resultado foi o desabastecimento.

“Houve uma ‘barbeiragem’ da atual gestão da Rlam”, criticou Costa. “A Petrobras sempre fez manutenções periódicas e nunca deixou faltar gás.”

Problemas diários

“Eu, agora, estou sem gás para vender”, disse Adelson dos Santos, às 15h de quinta-feira (17) ao Brasil de Fato. “Era para ter recebido logo cedo, até as 9h, mas não veio ainda.”

Santos tem três revendas de gás, todas no bairro das Cajazeiras, o mais populoso de Salvador. Segundo ele, desde o final do mês passado, o abastecimento de botijões está reduzido. Por conta disso, falta gás.

“Na semana passada, enviei um botijão para um casal de idosos que passou dias me ligando atrás de gás”, contou. “Quando o entregador voltou, me disse que eles estavam cozinhando com álcool. Imagine essa situação.”

Ele afirmou que, diariamente, recebia 70 botijões em cada uma de suas revendas. Por conta dos problemas na antiga Rlam, recebe agora só 35. “Teve um dia, inclusive, que não recebi gás em nenhuma das revendas.”

Adriana Araújo administra outra revenda de gás em Salvador. Ela também notou os atrasos nas entregas para sua loja e a preocupação de clientes.

“Todo mundo está levando um botijão de reserva para casa”, contou. “Criou-se um pânico nas pessoas, que precisam do gás.”

“Tudo isso demonstrou um despreparo da atual direção da Acelen”, complementou Costa, do Sindipetro. “A Rlam é estratégica, abastece todo o estado da Bahia e outros estados como Sergipe e Minas Gerais. Isso não poderia ter acontecido.”

Socorro via navio

A Acelen informou que está atuando ativamente para restabelecer o fornecimento de gás liquefeito de petróleo (GLP) aos seus clientes. Informou também que contratou navios carregados com gás para reforçar o abastecimento até que sua produção não tenha sido regularizada.

“A operação está próxima da estabilização e a expectativa é que, nos próximos dias, já seja possível retornar ao suprimento de 100% dos volumes contratados”, declarou.

O Sindicato Nacional das Distribuidoras de Gás (Sindigás) ratificou que o desabastecimento de GLP na Bahia é causado por problemas na operação da antiga Rlam. Segundo a entidade, empresas estão trazendo gás do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Recife e até importando da Argentina e da Bolívia em cargas rodoviárias para minimizar a questão.

O Sindigás ressaltou que não há razão para uma corrida pela compra de botijões “pois o seu suprimento será regularizado brevemente”. “O Sindigás alerta que compras antecipadas podem gerar uma sensação de escassez, pressionando os preços, o que pode trazer mais danos à sociedade.”

Histórico de problemas

O desabastecimento de gás não é o primeiro problema causado pela Acelen. A empresa deixou navios sem óleo combustível na Bahia por pelo menos seis meses entre o final de 2021 e o início de 2022.

Fora isso, realizou reajustes sucessivos no preço dos combustíveis desde que assumiu a Rlam. Por conta disso, em outubro, Salvador tinha a gasolina mais cara do país, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Privatização contestada

A venda da Rlam por US$ 1,65 bilhão foi contestada pois, segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), ela valia pelo menos o dobro.

Baseada nesse estudo, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) denunciou a venda ao Tribunal de Contas da União (TCU). O órgão não viu irregularidades no negócio.

A venda da Rlam faz parte do programa de desinvestimentos da Petrobras. Das 14 refinarias que a estatal tinha, oito foram postas à venda nesse programa. A Rlam foi a primeira cuja administração já foi transferida da estatal à iniciativa privada.

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