Antonio Nóbrega homenageia Marielle Franco

O novo projeto do artista, chamado Rima, reúne canções inéditas, líricas e antenadas, além de quatro releituras de clássicos

Antonio Nóbrega (Foto: Silvia Machado)

Antonio Nóbrega (Foto: Silvia Machado)

Cultura

O novo projeto de Antonio Nóbrega, chamado Rima, apresenta canções inéditas e quatro releituras. Segundo o artista, “as músicas foram feitas nos últimos anos e dentro da perspectiva da canção referenciada no universo da poesia rimada popular”.

São utilizadas no espetáculo modalidades poético-musicais com sextilhas, décima sete sílabas, quadras, carretilhas e martelos agalopados, empregadas por poetas e cantadores sertanejos em suas manifestações e “algumas vezes adotadas na MPB, mas que no seu conjunto não foram suficientemente explicadas”, segundo Nóbrega.

As canções do repertório desse projeto musical reúnem esses elementos e outras formas livres, em composições de Nóbrega com Wilson Freire, antigo parceiro, e Bráulio Tavares, conhecedor da literatura de cordel, na qual as modalidades poéticas populares estão ainda bem enraizadas.

 

Uma das músicas do projeto Rima, que terá seis apresentações no Instituto Itaú cultural, em São Paulo, a partir do dia 3 de maio, é “Quem mandou matar Marielle?”, em parceria com Wilson Freire.

Mural em homenagem a Marielle Franco (Foto: ABr)

A composição inédita no estilo samba é uma expressão de angústia desse brilhante artista brasileiro preocupado com os rumos do País, revelada abaixo em primeira mão por CartaCapital:

Quem Mandou Matar Marielle?

(Antonio Nóbrega-Wilson Freire)

Brasil,

pátria que te pariu,

foi o Rio de Janeiro

quem te balançou primeiro.

Teu berço,

fincado na Maré,

mina, mana, mulher,

cresceu no seu chão.

Contrariando                                                    

o seu do destino                                    

cantou o seu próprio hino

e mudou a sua sina.

Com a resistência

dos gays, pardos, pretos e índios

escreveu a sua história.

Brasil,

pátria que te pariu,

pergunta

já à flor da pele:

quem mandou matar Marielle?

Brasil,

pátria que te pariu,

foi o Rio de Janeiro

quem te balançou primeiro.

Teu berço,

fincado na Maré,

mina, mana, mulher,

cresceu no seu chão.

Numa emboscada

os seus algozes

cumpriram os seus planos

de calar a sua voz.

Os tiros roubaram-lhe a vida

mas não os seu sonhos,

que ecoaram em outras vozes…

Brasil,

pátria que te pariu,

pergunta

já à flor da pele:

quem mandou matar Marielle?

As quatro releituras musicais, relacionadas entre as 15 que compõe o repertório do show, são representativas em suas formas.

Uma é a clássica “Vou ver a los 17”, de Violeta Parra e imortalizada por Mercedes Sosa. Trata-se de uma letra de contexto político que encoraja à luta e o inconformismo.

Antonio Nóbrega em “Passo de Anjo”:

Outra recriação é “Três Apitos”, de Noel Rosa, composição considerada por Nóbrega exemplo de erudito com o popular. “Trata-se de uma carretilha que corresponde a uma embolada”, explica o artista-pesquisador da cultura brasileira na sua origem.

A lista da apresentação inclui ainda duas músicas instrumentais: o choro “Primas e Bordões”, de Jacob do Bandolim, e “Mourão”, de Guerra-Peixe.

De acordo com Nóbrega, o projeto Rima é menos teatral e “tem mais de recital e certa pedagogia”.

 

No caso desse show, Nóbrega usa violão de seis cordas de nylon com afinação de viola, para atender as características musicais das modalidades poéticas utilizadas.

“O poeta popular costuma definir a poesia pela métrica (número de sílabas na estrofe), rima (acionante), e a oração (que é o tema)”, explica Nóbrega. “Nesse projeto, a minha oração é de uma pessoa cosmopolita, com o universo melódico repensado, sem perda do elemento local”.

O artista destaca que “esse trabalho tem o desnivelamento proposto por Mário de Andrade”. Em sua extensa obra sobre a cultura popular, o escritor modernista chamava de desnivelamento a apropriação da cultura popular para recriação.

Neste espetáculo musical, Nóbrega estará acompanhado de Edmilson Capelupi (cordas dedilhadas), Edson Alves (cordas dedilhadas), Cléber Almeida (percussão e bateria), Léo Rodrigues (percussão e bateria), Olivinho (acordeom) e Zezinho Pitoco (clarinete, sax alto e zabumba).

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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