Vanguardas do Conhecimento

por admin publicado 16/11/2016 15h10, última modificação 18/03/2017 17h05

Opinião

Mais 8 mitos sobre a reforma da Previdência

Além de algumas confusões no debate, há mentiras sendo propositadamente difundidas de forma irresponsável
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 21/03/2017 00h01, última modificação 22/03/2017 16h44
Antonio Cruz / Agência Brasil
Ministros

Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, e os ministros Eliseu Padilha e Antonio Imbassahy: Planalto confiante em aprovar texto nos moldes originais

Em texto anterior, apresentei 8 dos mitos mais importantes da reforma da Previdência brasileira. Como eles são tantos e tão relevantes, traz-se abaixo mais 8 mitos que estão confundido o debate:

1) Os menos favorecidos serão prejudicados pela reforma

Os, de fato, menos favorecidos são os muitos milhões que sequer têm emprego formal na maior parte da vida e que, por isso, sequer fazem parte da Previdência. São também aqueles que, por motivo de doença ou acidente, não podem mais trabalhar e dependem de uma Previdência fiscalmente sólida para sobreviver. Vale lembrar que em torno de 25% da população depende do Bolsa Família.

A parcela de ocupados não cobertos pela Previdência também representa mais do que 25%. Esses precisam, por exemplo, de redução da tributação sobre o consumo, para que possam comprar bens mais baratos, e de mais investimentos em infraestrutura e em formação/qualificação, além de políticas mais eficientes que incentivem a formalização.

Parte das dezenas de bilhões de déficit, que aumentarão exponencialmente nos próximos 10 anos, e cada vez ficará pior, poderiam ser usadas para beneficiar essas pessoas e bem mais gente. Assistência social é algo bem diferente de Previdência. A primeira serve para garantir direitos fundamentais a pessoas necessitadas em geral e a outra serve para dilatar o consumo e garantir renda a pessoas que não podem/devem trabalhar, como na velhice.

É fundamental proteger trabalhadores com menor renda, porém é preciso utilizar as políticas mais adequadas para isso. Trabalhador capaz e em idade produtiva não deve ser protegido pela previdência, mas por políticas de assistência voltadas para empregabilidade ou empreendedorismo. Usando as políticas erradas, termina-se gastando muito e não resolvendo os problemas do país.   

2) É preciso escolher entre a proposta do governo Temer ou sua não aprovação completa

Há infinitos desenhos possíveis da Previdência. Essas duas opções são muito ruins, pois a proposta em discussão quebra as expectativas, não aumenta a redistribuição de renda, não incentiva uma maior formação de capital pelos mais ricos, não eleva a cobertura etc.; contudo, a negação da reforma postergará um problema grave, que, apesar de ainda poder ser atacado com alguma suavidade, precisa ser resolvido logo, para que dê tempo de todos se adaptarem às mudanças e para garantir a realização de outras reformas fundamentais, como a tributária.

A reforma da Previdência já está em debate e há boas chances de o governo Temer aprová-la apenas com poucos remendos. A força da sua base, ainda que conquistada de forma não muito legítima, está provada. Pragmaticamente, aqueles que não aceitam a proposta precisam parar de negar que o sistema atual, além de fiscalmente insustentável, é muito ruim para a produtividade, pouco redistributivo e deixa à margem dele muitos milhões de brasileiros. 

3) Deveríamos diferenciar profissões que trabalham mais

Certas profissões são citadas como mais duras do que outras para justificar a necessidade de diferenciações entre elas. Todo professor trabalha mesmo três jornadas? E quantas profissões não terminam levando a isso no Brasil, devido aos baixos salários e ao pequeno poder de compra da população?

É muito comum que advogados, publicitários e outros profissionais liberais trabalhem 12 ou mais horas por dia, inclusive em finais de semana. Esses, então, não deveriam ter também direito a uma aposentadoria maior?

Qual o critério racional para definir a profissão beneficiada? Por essa linha, médicos que têm consultório e dão plantões, trabalhando com frequência ao longo de 24 horas seguidas, não tendo descanso no dia seguinte, numa das profissões mais importantes de todas, não deveriam ter também uma previdência privilegiada?

E as atividades braçais que fazem trabalhadores chegarem bastante cansados às idades avançadas, não merecem também uma aposentadoria mais cedo? Então, devem ser privilegiados todos os pedreiros, carpinteiros, pintores etc.? A aposentadoria rural deveria, portanto, continuar completamente beneficiada?

Se deixados paixões, interesses e experiências próprias de cada um de lado, e se estudado o tema com seriedade, percebe-se que não há critério racional e eficiente para separar as profissões, e é assim que acontece na grande maioria dos países do mundo, onde todas elas também são encontradas.

O design de um sistema previdenciário é assunto extremamente técnico e complexo, que precisa ser definido, ainda que com senso de justiça social, sem visões “coitadistas”, que tentam solucionar problemas tidos por específicos, mas que são, muitas vezes, bem mais gerais e mais difíceis de resolver do que se imagina.

Outro problema é o político fazer um uso infeliz do debate sobre a Previdência para ganhar apoio, defendendo certas bandeiras que suprem os interesses imediatistas de um público alvo que lhe interessa.

Há, ademais, cada vez maior mobilidade entre as profissões, o que dificulta definir quem é o que. Desde o século XX, a tradição de pais passarem profissões aos filhos e cada um realizar, em regra, o mesmo trabalho durante toda a vida, veio se desfazendo, o que impõe mudanças drásticas nas políticas, desde as educacionais até as previdenciárias.

Nessa linha de procurar dificuldades nas profissões para justificar um privilégio na previdência há todo tipo de argumento. Os militares dizem que passam por isso e aquilo, de modo que se justificaria a regra atual de aposentar mais cedo com benefício integral.

Seguido esse caminho, praticamente todo profissional vai encontrar dificuldades que enfrenta ao longo da vida e vai querer aposentadoria facilitada, como se a previdência servisse para compensar as dificuldades das vidas profissionais das pessoas. 

4) Deveríamos diferenciar os trabalhadores por região

Na linha do mito anterior, há cada vez maior mobilidade territorial dos indivíduos. Qual o benefício de alguém que começou trabalhando no interior do Nordeste, depois migrou para São Paulo, casou com uma mulher do Norte e foi lá viver com ela, para, depois de seu falecimento inesperado, retornar ao Nordeste e lá trabalhar até a aposentadoria? Casos assim não são raros hoje.

Agora, suponha que há diferenciação por profissão e por região, e que a pessoa do exemplo em análise teve uma profissão distinta em cada região, ou seja, ele começou como professor em escola pública no Nordeste, passou a ser manobrista de veículos em São Paulo, trabalhou como pintor no Norte e, ao voltar ao Nordeste, foi assistente administrativo. Como calcular a aposentadoria dele? 

5) Deveríamos manter a diferença entre homens e mulheres

Valem as considerações acima. O mundo mudou e não há mais aquela diferenciação rígida entre a vida da mulher e do homem, o que é, aliás, algo desejável.  

Hoje, muitos homens cuidam da casa, dos filhos, à noite e nos finais de semana. Muitas mulheres podem nem ter filhos ao longo da vida, seja por escolha própria, seja por problemas médicos.

É, de fato, justo e fiscalmente sustentável beneficiar mulheres em relação a homens em pleno século XXI no que toca à previdência? As dificuldades das mulheres precisam ser atacadas por políticas específicas, em lugar de deixá-las sofrendo discriminações ao longo de toda a vida e depois procurar compensá-las com uma regra de previdência mais facilitada.  

6) Se somarmos as contribuições, elas pagam muito mais do que as aposentadorias

Circulam informações erradas na imprensa e nas redes sociais, em regra geradas por políticos interessados ou por (supostos) especialistas irresponsáveis.

Um exemplo é a ideia de que, se calcularmos uma soma das contribuições pagas por empregados e empregadores, o resultado da equação seria muito mais do que o necessário para pagar uma bela aposentadoria aos empregados. Esquece-se que as contribuições não ficam aplicadas em um fundo, pois o sistema não é de capitalização, mas de repartição.

O dinheiro arrecadado é imediatamente gasto para pagar os benefícios daquele mês. Esse tipo de sistema consiste num financiamento dos benefícios atuais dos aposentados por quem está trabalhando e contribuindo.

Quando aquele que está contribuindo hoje for se aposentar, o benefício já terá um valor completamente diferente, pois os salários se reajustam ao longo tempo. Além disso, a Previdência não serve para custear apenas aposentadorias, então essa construção é um equívoco completo sobre premissas básicas da matéria. 

7) Hoje as pessoas podem receber benefício integral após 30 anos de contribuição (mulher) e 35 anos (homem)

Há uma falsa ideia circulando de que hoje as pessoas podem se aposentar com salário integral após os anos de contribuição previstos em lei e que a reforma proposta mudaria isso completamente.

Na verdade, o fator previdenciário, existente desde 1999, mas que sofreu algumas mudanças, já estabelece hoje um mecanismo que dificulta aposentadorias com benefício integral, como acontece, aliás, na maior parte do mundo.

A regra de 95 (homens) e 85 (mulheres) do fator previdenciário significa que, para ter aposentadoria integral, é preciso que os homens somem, por exemplo, 65 anos de idade e mais 30 de contribuição (60 + 35 = 95). No caso de alguém se aposentar após 35 anos de contribuição, porém com 54 anos idade, o que não é raro no sistema atual, ele completará apenas 35 + 54 = 89, e o fator previdenciário reduzirá o benefício.

As regras da proposta do governo Temer são extremamente duras, é verdade, mas é preciso entender que o benefício integral quase não acontece. Há uma medida chamada de taxa de reposição da aposentadoria, que serve para checar a reposição do salário na aposentadoria.

É interessante que ela seja alta, mas não é preciso que as pessoas, sobretudo as mais ricas, se aposentem com benefício integral. Isso precisa ser uma exceção, pois o objetivo central da previdência pública é garantir que as pessoas não fiquem pobres na velhice. A taxa média de reposição na OCDE é 66% para homens e 65% para mulheres.

Como o Brasil tem salários baixos e tributação muito alta, o poder de compra da maior parte da população é muito pequeno, dificultando poupar e investir. Por esse e outros motivos, é preciso atacar o problema na origem, continuando a política de aumentos reais do salário mínimo e fazendo uma reforma tributária para tornar o sistema mais progressivo.

No caso daquelas pessoas que ganham muito pouco ao longo da vida, pode haver uma sistemática de cálculo do benefício que as faça ganhar mais e que faça ganhar menos aqueles que tiveram renda alta ao longo da vida e que, por isso, tinham a obrigação de poupar e investir mais. 

8) Para se aposentar, será preciso contribuir por 49 anos

Há diversos políticos e especialistas repetindo essa informação falsa, e o mais triste é que a maioria o faz de caso pensado. Pela proposta do governo Temer, a aposentadoria apenas seria possível com 35 anos de contribuição e 65 anos de idade, ou seja, conforme a análise do tópico anterior, 35 + 65 = 100.

Nesse caso, já seria possível aposentar, porém com um benefício diminuído. Para ter aposentadoria integral, a pessoa precisaria contribuir por 49 anos e trabalhar ao menos até os 65 anos de idade, totalizando 49 + 65 = 114. A regra fica, portanto, muito mais dura, porém não é preciso trabalhar 49 anos para se aposentar, como muitos infelizmente vêm querendo fazer crer. 

Opinião

Quase todos os políticos brasileiros cometem ilegalidades diariamente

O controle da administração pública pela sociedade no dia a dia é essencial para que a vida dos brasileiros melhore
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 16/03/2017 00h30, última modificação 15/03/2017 17h56
Sayonara Moreno / Agência Brasil
Corrupção

Ato contra a corrupção, em Salvador, em março de 2016: a participação popular é necessária, principalmente na fiscalização do poder público

Os inúmeros possíveis atos de improbidade administrativa estão previstos na Lei n. 8.429/1992 e o seu conhecimento pela população é importantíssimo para o desenvolvimento da administração pública brasileira. Tal lei enumerou o máximo de potenciais grupos de atos danosos ao interesse público, designando-os expressamente como ilícitos e estabelecendo sanções que vão desde a perda de bens ou valores até a perda da própria função pública e suspensão dos direitos políticos.

Se essa lei fosse aplicada com mais frequência no Brasil, muito provavelmente haveria redução de diversos comportamentos nocivos aos cofres públicos e à eficiência da administração, de modo que a sua qualidade se elevaria bastante. O problema é que a população não conhece as normas, enxerga determinados comportamentos ilegais como normais, omite-se quando deveria denunciar ou se beneficia desses próprios comportamentos.

A experiência recente deste autor na Prefeitura de Sobral (CE) mostrou que a Lei n. 8.429/1992 é descumprida com frequência. Alguns dos comportamentos verificados lá, hoje sob investigação do Ministério Público, serão tratados abaixo.

Fala-se aqui de um município de mais de 200 mil habitantes, um dos maiores e mais importantes do Ceará, cujo prefeito é irmão de um presidenciável, estando, portanto, sob os holofotes da mídia. Imagine o leitor, então, qual a situação em que devem se encontrar as centenas de municípios brasileiros com menos de 200 mil habitantes, que não recebem cobertura da imprensa.

No caso da improbidade administrativa, de certa forma, ilegalidades e imoralidades se encontram, pois um dos objetivos da lei é, de forma rígida, evitar e, se for o caso, punir atos imorais praticados pela administração pública.

Não se fala, portanto, apenas da corrupção mais conhecida pela população, a de obter benefícios financeiros por meio da administração pública, mas também, conforme o art. 11, em “qualquer ação ou omissão que viole os deveres honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições”.

Diversas atitudes corriqueiras do administrador público brasileiro, como dar cargos a pessoas despreparadas apenas porque são parentes de políticos importantes ou de outros agentes estratégicos para apoiar o governo, são abarcadas pela lei de improbidade administrativa e podem levar até mesmo à perda de mandato.

Comportamentos como esse e semelhantes, a exemplo de criar pagamentos dos cofres públicos, sem razão social clara e relevante, para associações e outras entidades privadas com o objetivo de conseguir apoio político, precisam ser combatidos, sendo a ajuda da população fundamental para que o Ministério Público tome conhecimento das ações e seja pressionado a punir os praticantes.

Todas essas atitudes que revelam a finalidade de se beneficiar politicamente ou de outro modo não estritamente vinculado a fins primordialmente públicos podem e devem ser punidas, se não por um dispositivo específico da lei em análise, pela cláusula geral de falta de honestidade e imparcialidade prevista no caput do art. 11. 

O inciso I do art. 11, por exemplo, determina que é improbidade administrativa praticar ato com desvio do fim previsto em lei, que seria o caso de contratar alguém buscando muito mais ou tão somente um fim alheio à eficiência administrativa, à busca de bons resultados na administração pública.

Discute-se muito hoje a ineficiência do Estado e os gastos excessivos dele, o que passa pela necessidade de aperfeiçoamento dos administradores públicos. Sem uma busca por pessoas que efetivamente consigam desempenhar o seu trabalho com maestria, será difícil fazer com que o Estado progrida, e isso passa por tomadas de decisão mais morais, imparciais, que escolham os profissionais mais capacitados do mercado, e não pessoas quaisquer indicadas por parceiros dos governos.

Ao se aceitar esse tipo de situação como normal no Brasil, institucionaliza-se o uso dos cofres públicos para pagamento de remuneração mensal a parentes e amigos desses parceiros dos governos, que quase sempre mantêm relações imorais com eles. Utiliza-se o dinheiro público para dar benefício a um agente com o poder de beneficiar o governo politicamente, representando claro desvio de finalidade, à honestidade, imparcialidade e moralidade da administração pública.

Caso esse tipo de comportamento fosse punido com frequência, ele começaria a deixar de acontecer, ou ao menos haveria uma redução considerável sua. Para tanto, é necessário que a população denuncie ao Ministério Público. Qualquer indivíduo deve zelar por uma boa administração pública e é dever do cidadão dar ciência às autoridades de ilegalidades cometidas pelos administradores.

Não se trata de denuncismo, de caça às bruxas, expressões normalmente utilizadas pelos políticos para convencer os demais de que esse tipo de comportamento zeloso com os cofres públicos e com a eficiência da administração seria moralmente reprovável, quando moralmente reprovável é exatamente o que eles fazem e essa manipulação praticada posteriormente.

Como a corrupção (em sentido amplo) no Brasil está alastrada por todos os cantos do público e do privado, apenas com uma participação cada vez maior da população será possível obter grandes mudanças. Se o trabalho for todo relegado às autoridades, que, em alguns casos, são também coniventes com os erros dos administradores públicos, a mudança levará muitas gerações.

Outro exemplo clássico de ato de improbidade administrativa é o administrador público fechar os olhos para atos ilegais dos outros, ou seja, ao ver, por exemplo, que foram cometidos atos de improbidade num governo anterior, os administradores atuais não dão ciência disso às autoridades competentes.

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Ao se aceitar esse tipo de situação como normal no Brasil, institucionaliza-se o uso dos cofres públicos para pagamento de remuneração mensal a parentes e amigos desses parceiros dos governos (Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)

Esse comportamento está também descrito como ato de improbidade no art. 11 da lei, em seu inciso II: “Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício”. Ao ter conhecimento de ilegalidades, é dever do administrador público tomar as medidas legais cabíveis, como investigação administrativa e informação ao Ministério Público, não somente com o objetivo de punir culpados, mas de desfazer os atos, obtendo de volta, por exemplo, dinheiro ou bens levados indevidamente do Estado.

Sem essa rigidez ao tratar do que é público, a sociedade fica à mercê dos interesses pessoais dos administradores, que se valem do grande poder nas suas mãos para mantê-lo a qualquer custo e para facilitar os resultados buscados, que nem sempre se confundem com o que é melhor para a população. O imediatismo e a sede dos políticos pela obtenção ou manutenção do poder, sobretudo por aqueles que vivem da política, é um mal terrível que prejudica as vidas de todos os que vivem no Brasil.

Em municípios menores, onde as pessoas conhecem a imensa maioria das demais que lá vivem, é muito mais fácil ao administrador público distribuir cargos e benefícios, “amarrando” uma parcela da população que lhe dará o apoio e os votos necessários sempre que precisar.

Isso cria um engessamento da administração, que fica à mercê de um único grupo de pessoas, normalmente uma família, sendo o resultado, em diferentes graus, o aproveitamento do público para benefícios privados e manutenção eterna do poder. 

O Estado é o seio da organização dos países, estados e municípios. É o mecanismo criado pelo ser humano para gerir as populações com base na lei. Os indivíduos podem fazer tudo certo em suas vidas pessoais, mas, se não contarem com uma boa administração pública, não viverão bem de qualquer forma, pois não terão acesso a boa infraestrutura, a população não terá educação adequada, haverá violência etc.

O controle da administração pública pela sociedade no dia a dia é algo essencial para que a vida dos brasileiros melhore. É preciso acabar com a permissividade, as omissões, a corrupção do privado pelo público, e vice-versa. Isso depende de cada um dos brasileiros, não sendo saída eficiente apenas jogar a culpa em um pequeno grupo de pessoas. 

Opinião

8 mitos sobre a reforma da Previdência

Assim como na PEC dos gastos, o debate brasileiro sobre previdência é rico em paixão e pobre em informação
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 15/03/2017 11h38, última modificação 17/03/2017 21h41
Adonis Guerra / SAMBC
Reforma

Ato contra a reforma da Previdência no grande ABC em 7 de março

Em mais uma discussão crucial para o futuro do País, como no caso da PEC dos gastos, ambos os lados mergulham nas paixões, esquecendo de estudar o tema com profundidade, de pensá-lo pragmaticamente e de se abrir a ouvir o outro. Seguem alguns mitos do debate brasileiro. 

1 – O sistema brasileiro pode continuar como está, carecendo apenas de alguns ajustes.

A reforma do governo Temer é parcialmente boa, porém é parcialmente muito ruim. Além das importantes alterações para dar sustentabilidade fiscal e incentivo à produtividade econômica, é preciso ir mais longe e pensar em outros efeitos. 

Ela não ataca problemas graves do País que cabem à política previdenciária ajudar a resolver juntamente com as demais políticas, como: a) redução da enorme desigualdade por meio de sistemáticas de financiamento e/ou de benefícios que façam mais redistribuição de renda; b) aumento da formação de capital por um menor pagamento de benefícios aos mais ricos e criação de um sistema de capitalização ou um Notional Defined Contribution - NDC (nocional de contribuição definida) com um percentual obrigatório para eles.

2 – O sistema de repartição é de financiamento tripartite.

O sistema de repartição adotado pelo Brasil, chamado no exterior de Pay-As-You-Go (PAYGO), é o mais tradicional, conhecido e estudado. Consiste, salvo no caso de inovações, num financiamento por contribuição do empregado, que servirá de base para o cálculo do benefício, e por contribuição do empregador, que deve ajudar a fechar a conta, para que se possa pagar valores decentes.

Fala-se no Brasil como se empregados, empregadores e Estado financiassem necessariamente os benefícios e de forma autônoma. A visão deve ser outra. A ampla maioria das receitas do Estado vêm da sociedade por meio de tributos, que podem causar uma porção de efeitos muito danosos à economia. Deste modo, é sempre a sociedade que financia a Previdência, de modo que o Estado gerencia o sistema com suas receitas e despesas.

É importante perceber isso para desfazer a ilusão de que o dinheiro não sai do próprio bolso dos menos favorecidos num sistema em que quase não há progressividade no financiamento tanto da Previdência quanto do restante da seguridade social. O financiamento da Previdência é realizado por empregados e empregadores via tributos chamados de contribuições previdenciárias.

O ideal é que o Estado não precise colocar mais nada, carecendo de menos tributos, o que é muito difícil em um país tão desigual como o Brasil e com expectativa de vida crescente. No entanto, uma vez que se pretenda financiar benefícios por meio de outros tributos, eles precisam ser progressivos.

Tributos regressivos são mais facilmente repassados a consumidores e recaem, portanto, sobre toda a população, prejudicando os mais pobres ao longo de toda a sua vida: antes e depois da aposentadoria. A tributação regressiva tão alta é a principal causa de preços brasileiros astronômicos e, por isso, a ampla maioria das pessoas não consegue consumir de forma a ter uma vida razoavelmente digna.

3 – A Previdência brasileira não tem déficit

A arrecadação do Estado, como aquela da seguridade social, apenas entra pra fechar a equação da Previdência em caso de déficit. Não é algo que se espera, mas que se aceita por um tempo e se ocorrer em pequenos montantes. 

No começo, o sistema de repartição funcionava razoavelmente bem, pois as pessoas tinham muitos filhos e a expectativa de vida ainda não era tão grande. Com o progresso obtido nas últimas décadas, as famílias passaram a ter menos filhos, reduzindo a população jovem, e houve também relevantes aumentos da expectativa de vida das pessoas, um dos grandes avanços dos seres humanos nos últimos tempos.

Como os países mais desenvolvidos obtiveram antes essas mudanças, e também pelo fato de eles perceberem os problemas com mais antecedência e tentarem resolvê-los logo, muitos já modificaram os seus sistemas, seja para aperfeiçoar seu modelo de repartição, seja para agregá-lo a um modelo de capitalização, como acontece em vários países, seja para criar um modelo diferente, como o já referido NDC, existente na Suécia. 

A Previdência brasileira teve déficit de 150 bilhões em 2016 e revela um potencial déficit em torno de 200 bilhões de reais em 2017, podendo chegar ao equivalente a quase 10 Bolsas Família. O artifício para negar o déficit é considerar não mais o orçamento da Previdência, como sempre se fez ao analisar esse tipo de sistema, mas todo o orçamento da Seguridade Social, que conta com outros recursos, como PIS, Cofins e CSLL.

De qualquer forma, para tornar a seguridade superavitária, considerando as estimativas de 2017 para a Previdência, seria preciso acabar com a DRU, com as desonerações e fazer outras alterações no sistema, de modo que há, sim, déficit hoje. Caso houvesse diversas alterações nas regras, talvez se chegasse a uma seguridade social positiva, mas não a uma Previdência positiva.

4 – PIS, Cofins e CSLL poderiam financiar a Previdência

Quando se olha para o financiamento, e não se está mais preso apenas às típicas contribuições do empregado e do empregador, surge um cenário extremamente complexo de inter-relação das políticas previdenciárias com as tributárias, ambas já complexas em si mesmas.

PIS, Cofins e CSLL são tributos que não existem em nenhum país do mundo. São jabuticabas brasileiras que precisam ser extintas. Como, então, defender que eles devem ser usados para financiar a Previdência? Só mesmo “negacionistas” da reforma da Previdência – que querem impedi-la a qualquer custo, em vez de discuti-la de forma profunda e sadia – podem insistir em uma posição como essa.

PIS e Cofins são tributos que não conseguem medir adequadamente a capacidade econômica das empresas, pois a melhor medida é o resultado final da empresa: o lucro ou prejuízo. Como são contribuições cobradas sobre todas as receitas, independentemente das despesas, mesmo as empresas com prejuízo precisam pagá-las. Além disso, se há dois tributos sobre o lucro (IRPJ e CSLL), por que cobrar dois sobre as receitas? O sistema brasileiro é um dos piores do mundo, senão o pior.  

Nos países desenvolvidos, não há PIS, Cofins e CSLL, mas apenas um IRPJ, chamado de corporate income tax, que veio tendo sua alíquota reduzida nos últimos anos, pois se percebeu que é mais eficiente e equânime focar na tributação da renda da pessoa física, e não da jurídica.

O objetivo do Brasil deve ser, portanto, extinguir PIS, Cofins e CSLL. Para tanto, é preciso elevar o IRPF e reduzir os gastos excessivos, como no caso da previdência.

5 – A idade mínima não deve aumentar, pois a Previdência deve ser redistributiva 

Quanto mais desigual o país – e o Brasil é um dos mais desiguais do mundo – mais difícil é construir políticas públicas de qualidade, seja pela grande diferença existente entre as pessoas na sociedade, seja pela pressão política que os ricos fazem, seja pela rachadura social que leva a conflitos apaixonados, como no caso da própria Previdência.

Não existe a única resposta verdadeira ou correta. É preciso que a sociedade discuta qual o limite de idade razoável, considerando que hoje em dia uma pessoa com, por exemplo, 60 anos tem plenas condições de trabalhar. Com a regra atual de aposentadoria por tempo de contribuição, é possível se aposentar com 50 e poucos anos de idade.

A Previdência não tem o fim de fazer assistência social e, quando pensada assim, termina se tornando fiscalmente insustentável e economicamente ineficiente. O problema da desigualdade precisa ser resolvido por políticas focadas nele.

A Previdência pode ajudar exercendo seu papel redistributivo, seja pelo lado de seu financiamento, que precisa ser mais progressivo, seja pelo dos benefícios, que podem ter valores mais próximos, pagando-se mais a quem ganhou menos e menos a quem ganhou mais ao longo da vida, elevando, como dito, a poupança dos mais ricos.  

Até pelo fato de uma pessoa com melhor renda tender a ter vida mais longa e gozar mais da Previdência, quem ganha menos deveria pagar bem menos contribuição ou, a depender da renda, ser até isento, como acontece em muitos países, e deveria receber benefícios melhores quando estivesse aposentado; mas isso apenas numa idade em que a capacidade produtiva seja realmente bem diminuta.

Essa é a função redistributiva da Previdência. Não é garantir que as pessoas parem de trabalhar cedo e passem décadas sem produzir e sem gerar tributos, ao mesmo tempo em que o Estado precisa lhes custear ao menos um salário mínimo, ou que recebam do Estado enquanto continuam trabalhando.

6 - O problema da Previdência é a dívida das grandes empresas.

Essa afirmação faz sentido apenas parcialmente. As contribuições que financiam a Previdência são tributárias e, como todos os tributos, a administração fiscal é ineficiente ao cobrá-las por problemas históricos seus, por um processo tributário mal desenhado e por conta do Judiciário muitíssimo lento.

Não é simplesmente uma maldade do governo, como muitos colocam. Por outro lado, os incentivos fiscais poderiam, em sua maioria, ser extintos, acabando com essa renúncia de receita. 

7 - A desigualdade nas expectativas de vida não permite o aumento do limite de idade para aposentadoria.

O dado da expectativa de vida serve para perceber que mais gente irá se aposentar e passará mais tempo recebendo dinheiro do Estado. É importante para, juntamente com dados de natalidade, permitir estimativas de quanto se irá gastar com benefícios previdenciários.

Quanto à discussão acerca da desigualdade no limite de idade, a expectativa de vida baixa de alguns municípios brasileiros decorre da alta mortalidade, não propriamente do fato de as pessoas, ao chegarem à velhice, viverem muito menos do que em outros lugares.

Fatores como mortalidade infantil, falta de saneamento básico, violência e outros levam a mortes mais cedo, o que precisa ser combatido urgentemente por políticas específicas, e não tem relação direta com a Previdência.

Para efeito de fixação do limite de idade de aposentadoria, é preciso olhar para a sobrevida das pessoas ao atingirem a idade proposta, ou seja, 65 anos. Nesse caso, percebe-se que as diferenças ao longo do País não são tão diferentes, conforme dados do IBGE

8 – A reforma é urgente e precisa começar a valer ainda este ano.

O déficit é crescente e sua trajetória é muito preocupante, mas não se pode fazer mudanças drásticas sem um período de adaptação das expectativas das pessoas e dos próprios governos, salvo no caso de aberrações, como privilégios injustificáveis de políticos, juízes, promotores e militares. O ideal é que grandes mudanças previdenciárias sejam realizadas 15 ou 20 anos antes.

Um dos focos dos críticos da proposta do governo Temer deveria ser postergar os efeitos e suavizá-los ao longo do tempo, permitindo que medidas fossem tomadas para reduzir as desigualdades entre regiões e que as pessoas soubessem, bem de antemão, quando iriam se aposentar e com qual valor.

A regra de transição da proposta prejudicará imediatamente pessoas que poderiam se aposentar já em 2018 ou 2019, sendo o corte de 45 anos para mulher e 50 anos para homens um mecanismo ruim, pois prejudicará muito, por exemplo, homens com 49 anos e alguns meses que estavam prestes a se aposentar, o que não é incomum hoje. 

UE

Eleição polarizada na Holanda é termômetro político da Europa

Geert Wilders, candidato da extrema-direita, acirra os ânimos em país que cresce, mas sente efeitos da austeridade
por Daniel Mandur Thomaz — publicado 15/03/2017 00h25, última modificação 14/03/2017 15h26
Yves Herman / AFP
Yves

Wilders e Rutte, em Roterdã, durante debate: o atual premiê promete não realizar um governo de parceria com o extremista

O ano de 2017 será decisivo para o futuro da Europa. Na sequência do Brexit e das eleições norte-americanas, os próximos meses serão marcados por eleições em países chave para a estabilidade do projeto europeu.

Com a proximidade das eleições na França em abril e na Alemanha em setembro, a disputa eleitoral na Holanda, que ocorre nesta quarta-feira 15, emerge como uma espécie de termômetro das tensões políticas que marcarão 2017.

As eleições decidirão quantos assentos no Parlamento holandês os partidos políticos disputando o pleito poderão ocupar. Esse processo é crucial para a escolha do primeiro-ministro, que se dá por voto indireto.

O parlamentarismo que vigora na Holanda é marcado por intensa proporcionalidade, o que significa, em termos gerais, ser extremamente improvável que um partido consiga a maioria absoluta das cadeiras do Parlamento. É imprescindível que os partidos eleitos construam coalizões capazes de garantir maioria. Isso viabiliza a governabilidade e permite que um gabinete ministerial seja formado a partir das indicações de um membro eleito pelo próprio Parlamento.

Num sistema político extremamente complexo, 28 partidos holandeses disputam 150 assentos no Parlamento. Quatro partidos lideram as pesquisas até agora. O partido de centro-direita do atual primeiro-ministro Mark Rutte (VVD) disputa ombro a ombro com o PVV, do populista de extrema-direita Geert Wilders.

Atrás deles, por alguns pontos percentuais, vêm o CDA, partido democrata-cristão, e o GL, a esquerda verde, liderada pelo jovem Jesse Klaver, que aos 30 anos é a grande aposta de renovação da esquerda holandesa.

Para Karola Vos, 33 anos, moradora da cidade de Utrecht, as eleições deixaram ainda mais clara a polarização da sociedade holandesa: “As pessoas são cada vez mais radicais na maneira em que expressam suas opiniões”. Perguntada sobre como vê o país nos próximos cinco anos, não parece muito otimista: “Acho que as pessoas estarão ainda mais insatisfeitas com o sistema, com a política em geral e em conflito entre si”.

Mas, de onde vem esse pessimismo? A economia holandesa não vai mal. Os índices mostram que o país se recuperou de maneira efetiva da crise de 2008. De acordo com o CPB, o instituto de pesquisa em políticas econômicas da Holanda, o PIB do país cresceu 1,8% em 2016 e a projeção para 2017 é de 2,0%.

A taxa de desemprego no ano passado ficou em 6,5%, com projeção de queda para 6,3% em 2017. Se comparado ao desemprego de 7,4% em 2014, o cenário atual é de visível melhoria das condições econômicas. Por que os holandeses parecem insatisfeitos e apostam em saídas arriscadas como o populismo de extrema-direita de Geert Wilders?

A resposta para a insatisfação e a descrença dos holandeses pode ter vindo do remédio para a crise de 2008: as medidas de austeridade e a maneira como elas afetaram a população. Embora o sistema de seguridade social continue funcionando, os serviços de saúde e assistência social sofreram inúmeros cortes na Holanda. Os mais atingidos foram idosos e setores mais fragilizados da sociedade.

A elite política holandesa tentou se proteger dos efeitos eleitorais desse impacto social acusando os burocratas de Bruxelas – responsáveis por desenhar as políticas econômicas anticrise implementadas em vários países da União Europeia. Por outro lado, a extrema-direita capitaneada por Geert Wilders buscou um bode expiatório menos abstrato e mais visível aos olhos do holandeses: os imigrantes.

Daniel Schiavini, brasileiro naturalizado holandês que vive no país há 9 anos e trabalha como programador numa multinacional de softwares, vê com preocupação o que está em curso na sociedade holandesa: “A economia pode até crescer, mas o dinheiro não está indo para quem mais precisa.”

Para ele, o impacto do discurso de ódio aos imigrantes propagado pela extrema-direita será intenso: “As pessoas estão bravas com a situação e Geert Wilders conseguiu colocar a culpa de tudo nos imigrantes, o que acaba criando um clima maior de intolerância”.

Os dados empíricos mostram, no entanto, que a entrada de novos imigrantes na Holanda foi reduzida pela metade após acordos entre a União Europeia e a Turquia para fechar rotas usadas por refugiados vindos do Oriente Médio.

A imigração continua um assunto delicado. A Holanda é um país de 17 milhões de pessoas, onde aproximadamente 3,8 milhões são imigrantes. As tensões culturais entre imigrantes não europeus e a população local é constantemente explorada por grupos de extrema-direita. 

A extrema-direita

Embora a imagem internacional da Holanda seja a de um país progressista, os últimos anos têm sido de avanço da extrema-direita capitaneada pelo Partido da Liberdade (PVV), liderado por Wilders.

No ano passado, ele foi condenado pela justiça holandesa por incitação ao ódio contra imigrantes depois de uma aparição pública em que perguntava a seus seguidores se eles queriam mais ou menos [imigrantes] marroquinos no país, “menos, menos”, gritaram pessoas da plateia.

Wilders vem promovendo uma espécie de cruzada anti-islâmica e anti-imigração. Ele propõe, entre outras medidas, fechar todas as mesquitas do país e proibir o uso de véus em espaços públicos.

Segundo ele, o islã não é uma religião, mas uma ideologia antiocidental. Isso, obviamente, o coloca em rota de colisão não apenas com os imigrantes de origem muçulmana, mas com a própria tradição de tolerância e multiculturalismo que a Holanda projetou para si no cenário internacional.

Mesmo assim, a retórica xenófoba e racista de Geert Wilders magnetizou vastos setores da sociedade holandesa, fragilizados pela crise econômica e pelo sentimento de descrença em relação à política tradicional.   

Após sua condenação por incitação ao ódio, vários políticos de partidos tradicionais de direita, como o atual primeiro-ministro Mark Rutte (VVD), vieram a público para dizer que não trabalhariam com Wilders em uma futura coalizão.

A recusa da direita tradicional de se coligar com ele significa, na prática, que, mesmo que seu partido seja o mais votado nas eleições – algo que pode ocorrer de acordo com as pesquisas –, a possibilidade de ele se tornar o primeiro-ministro é muito remota. Sem se tornar parte de uma coalizão com maioria parlamentar, seu poder de influência na formação do novo gabinete ministerial é pequeno. 

Klaver em entrevista em 14 de março: ele pode ajudar a renovar a esquerda holandesa

O sucesso eleitoral de Wilders deixa claro que, na Holanda e na Europa, o gênio do populismo está fora da garrafa. “Wilders já é o político mais influente no país, antes de ganhar ou perder as eleições”, diz Patrícia Schor, pesquisadora da Universidade de Utrecht. Segundo ela, o impacto da sua retórica foi capaz de catalizar sentimentos que já existiam na sociedade holandesa: “Wilders alargou a fronteira do que é considerado ético, possível e responsável no espaço público. Naturalmente, ele não inventou a xenofobia e o racismo na Holanda. Astuta e antiteticamente, ele faz uso de sentimentos de intolerância já muito presentes na sociedade holandesa.”

Segundo a historiadora Marianne Wiesebron, da Universidade de Leiden, a retórica de Wilders produziu uma guinada conservadora no debate público, radicalizando o discurso: “Os partidos de centro-direita certamente foram ainda mais para a direita para se aproximarem dos eleitores de Wilders, especialmente em questões como a imigração.” 

A aposta da esquerda       

Os partidos tradicionais de esquerda na Holanda passam por uma profunda crise de identidade, que tem como resultado imediato a perda de parte considerável do seu eleitorado.

O Partido Trabalhista holandês (PvdA), tradicional eixo de centro-esquerda, se desgastou nos últimos anos ao aderir à coalizão de centro-direita que governa o país atualmente: perdeu, assim, sua identidade histórica.

O Partido Socialista holandês, o SP, com agenda mais à esquerda, parece ter perdido parte da capacidade de dialogar com os anseios do eleitorado de esquerda, e aparece nas pesquisas recentes com cerca de 9% das intenções de voto.

A novidade no cenário parece ser Jesse Klaver, do partido Esquerda Verde (GL). Segundo a historiadora Marianne Wiesebron, “O Groen Links (Esquerda Verde) está subindo incrivelmente nas sondagens em grande parte pelo apelo de Jesse Klaver, por ser jovem, de esquerda e pró-europeu”.

O jovem de 30 anos, com descendência marroquina e indonésia, aposta no discurso da sustentabilidade: propõe, entre outras coisas, reformas fiscais para cobrar mais impostos de empresas que poluem e redistribuir renda para setores mais fragilizados da sociedade.

Chamado por alguns de  “Jessiah”, um trocadilho com seu nome (Jesse) e a palavra “messias” (messiah), Jesse Klaver parece ser a grande aposta da esquerda. Seu carisma arrebanha uma grande quantidade de jovens, até então desacreditados. Embora seu partido tenha crescido muito nas intenções de voto, em grande parte graças a sua atuação, sua capacidade de liderança será posta à prova no Parlamento diante da crise da esquerda holandesa e mundial.

Para a pesquisadora Patricia Schor, os desafios são imensos: “Não acredito que a Esquerda Verde consiga fazer frente a este conservadorismo que ganhou proeminência na Holanda, como em vários países europeus. Mas gostaria muito de ser contrariada pelo resultado das eleições.”

Opinião

Pós-verdade: o conceito político da moda é equivocado

Como a verdade não é acessível ao ser humano atual, a pós-verdade é um conceito falho e que prejudica a compreensão da política
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 03/03/2017 09h54
Saul Loeb / AFP
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Trump: ele é o símbolo da era definida como a da "pós-verdade"

O uso do termo composto “pós-verdade” (“post-truth”, na versão inglesa) teve um crescimento de 2000% no ano de 2016, o que levou os Dicionários Oxford a elegê-lo a palavra do ano. A partir daí, brasileiros e pessoas de outras nacionalidades começaram a usá-lo ainda mais, como se fosse uma grande sacada da pós-modernidade.

Segundo os Dicionários Oxford, pós-verdade “se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

O primeiro grande equívoco é que não existem fatos objetivos, pois todo fato, enquanto evento percebido pelo homem, é subjetivo. Essa diferenciação, que remonta a Jürgen Habermas e outros autores, já é tradicional na filosofia e busca facilitar a compreensão de que ninguém acessa a ocorrência dos acontecimentos em si, na sua inteira complexidade.

Os seres humanos apreendem os eventos, os acontecimentos temporais, por meio dos seus sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) e transformam essas informações em linguagem. Somente a partir daí, quando se verte os eventos em linguagem, é que se tem fatos.

Todo fato é uma interpretação do evento, uma “manipulação” humana dele, não existindo fato objetivo, mas apenas elementos objetivos do acontecimento temporal que necessariamente passarão pela subjetividade humana para entrar na sua percepção e na comunicação, conforme este autor já escreveu outras vezes de forma mais detalhada.

Se há alguma verdade, ela não é deste plano. No nível de consciência atual do ser humano, ele apenas pode apreender perspectivas limitadas dos fenômenos e objetos. A verdade, aquela compreendida como a correspondência entre o fato em linguagem e o evento, entre aquilo que se diz e aquilo que se tem na realidade, não existe na Terra. Se não há essa correspondência, pois há apenas padrões sociais (ex. cultura) e naturais (ex. os sentido humanos) que delineiam a comunicação, não há verdade tal qual concebida ao longo da história humana.

Também não há verdade relativa, normalmente compreendida como aquela que surge na comunicação (verdade por consenso), pois também não há correspondência entre o fato pensado em linguagem por uma pessoa e o pensado por outra. Cada qual molda a sua realidade de uma forma, ainda que submetida por eventos objetivos em si, mas sempre sujeitos à subjetividade de cada ser humano, por mais simples que sejam os eventos.

A visão sobre o mundo precisa ser, portanto, extremamente complexa: nem presa a um suposto realismo objetivo, nem a um suposto subjetivismo. São os padrões sociais (subjetivos) e naturais (objetivos) que permitem a construção (sempre subjetiva) de informações e a comunicação em linguagem a partir de eventos (em si objetivos).

Dito isso, a manipulação dos fatos, ou dos eventos vertidos em linguagem, que são construções humanas, sempre existiu, seja de forma consciente, seja inconsciente. Os reis, por muito tempo, venderam a ideia de que eram enviados especiais de Deus.

O que há hoje é um acirramento das discordâncias por conta do momento de crise econômica vivido desde o final de 2007, com agravamento em 2009, que desembocou em crises políticas e de outras naturezas em várias partes do mundo, assim como há um aperfeiçoamento dos instrumentos de manipulação dos padrões sociais e naturais por conta dos avanços científicos que levaram, dentre outras coisas, a acelerar a obtenção de dados sobre as pessoas e o fornecimento a elas das informações das quais se quer convencê-las. 

A ideia de pós-verdade é, portanto, uma má compreensão de como o homem se relaciona com o mundo, de como ele constrói informações e se comunica. O pior é que ela reforça a inadequada ideia clássica de verdade, induzindo a crer que existiriam fatos objetivos negados pelas pessoas por conta de suas crenças, o que não acontece exatamente dessa forma. Todos constroem fatos influenciados pelas suas crenças, sobretudo políticas, e, quanto mais paixão, mais fácil a manipulação.  

Fatos tidos por objetivos e irrefutáveis em dado momento histórico são quase sempre desmentidos, ou a compreensão deles é aperfeiçoada. Isso acontece até mesmo com as Ciências Naturais, como a própria Física, um seio científico de suposta observação e explicação.

Teorias físicas, como a do geocentrismo, levaram à morte de pessoas, porém foram, mais tarde, desmentidas. No início do século XX, a Física Clássica Newtoniana, aceita por séculos, foi revogada em parte pela Física Quântica. O gênio Nietzsche, antes mesmo que isso acontecesse, já dizia, no livro Além do Bem e do Mal, “que a Física, também, é somente uma interpretação e um arranjo do mundo (de acordo com nós mesmos! Se é que posso dizer), e não uma explicação do mundo”. 

A crença numa verdade única e objetiva é uma das principais causas de conflitos de todas as naturezas, pois leva ao afastamento entre os homens, a uma noção de que há algo verdadeiro a ser descoberto por cada ser humano.

Essa visão individualista do conhecimento leva a um fechamento de cada indivíduo em relação às visões do outro. Cada um pensa ser o detentor da verdade e, por isso, estaria apto a atacar os demais que lhe são contrários, pois, associada a essa detenção da verdade, muitas vezes está a de detenção do bem, do fazer certo. Pensa-se, portanto, que, por estar do lado do PT, o da verdade, do bem, atacar o lado contrário, do mal, seria fazer o certo, e vice-versa.

A busca pela verdade científica, o uso da lógica formal e o estudo de métodos foram muito importantes para os avanços no conhecimento humano havidos nos últimos séculos, inclusive para o desenvolvimento tecnológico que permitiu uma melhoria de vida, em regra, da população mundial.

Por outro lado, essa visão formalista e individualista do mundo, associada ao materialismo que ganhou seu ápice com a circulação mais rápida das informações e a veloz criação de padrões superficiais de consumo, levaram à desumanização dos indivíduos, ao seu afastamento, à exacerbação da competição sobre a cooperação.

Como dizia Sócrates, a única coisa que realmente sabemos é que (quase) nada sabemos. A postura humana, para que possa progredir com velocidade e para que tenha uma vida mais feliz, deve ser de afastamento em relação à defesa de verdades e de autoquestionamento constante, de defesa de posições sempre com abertura à mudança e de aceitação, ao mesmo tempo, de duas hipóteses aparentemente contraditórias.

O processo interpretativo é extremamente sutil e determinado pelas experiências, valores e interesses de cada indivíduo. Com uma pequena mudança de perspectiva, ele pode passar a enxergar um assunto de forma completamente diferente. Assim, os mais preparados são aqueles que conseguem utilizar várias perspectivas em conjunto, trabalhando com diversas visões em inter-relação na sua mente, sendo capazes de passar de uma a outra com a troca de contextos ou de fins.

Muito mais do que lógico-formal ou semântico, o conhecimento é pragmático. Ele deve estar voltado para a solução de problemas, para a melhoria da vida da população em geral, sobretudo daqueles que mais necessitam. O conceito de verdade deve ser substituído no centro do conhecimento humano pelo de cooperação. 

Quanto mais crentes em suas verdades, mais teimosas as pessoas se tornam e, portanto, mais dificuldades têm de aprender. Quanto mais certeza e menos abertura para ouvir, elas progridem mais lentamente e tendem a ficar para trás em relação às que procuram ler, ouvir e se questionar sobre tudo.

A postura do homem do futuro deve ser a de sair do seu próprio corpo e atacar as suas próprias ideias, como se elas fossem de outrem. Não significa se questionar rapidamente e retornar à ideia inicialmente defendida, sob pena de ter o orgulho ferido. O homem acima da média consegue se questionar como se tivesse criticando outra pessoa, partindo do pressuposto da sua alta falibilidade e do seu avanço limitado na senda do conhecimento, que leva bilhões de anos de reencarnações.

Apesar de abstratas e inofensivas, as ideias acima são essenciais para compreender o posicionamento político dos demais e de nós mesmos, e para que se possa tornar as visões mais complexas, mais inteligentes. 

A defesa de verdades ou da existência de pós-verdades na política é algo pobre, que leva a erros graves. As ideias e os políticos são mais ou menos adequados em dado contexto, para solucionar problemas específicos. O cidadão politizado deve ser capaz de mudar, até com certa flexibilidade, de opinião e de político preferido, pois não existe uma verdade única, imutável.

Se não existe verdade, não existe algo que venha depois disso, ou uma manipulação disso. A pós-verdade é apenas uma construção dos eventos, ao colocá-los em linguagem factual, para longe dos padrões sociais e naturais vigentes, e ela não é necessariamente má, pois a verdade de hoje é quase sempre a mentira de amanhã e a sua qualidade será definida pragmaticamente, pelos fins que quer realizar: se egoístas ou caridosos, se orgulhosos ou humildes, se odiosos ou amorosos.  

Entrevista - Claudia Costin

Claudia Costin: "Com teto de gastos, ser professor nunca será atraente"

Professora da FGV-RJ defende melhor remuneração para educadores e fala sobre a importância da família na educação escolar
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 08/02/2017 01h00, última modificação 12/02/2017 15h53

Cláudia Costin, professora efetiva da FGV-RJ e visitante do mestrado em Educação de Harvard, defendeu, na primeira parte desta entrevista, o uso de estudos científicos para embasar decisões relativas às políticas educacionais no Brasil. 

Na segunda parte da entrevista, a educadora discute o ensino de Filosofia nas escolas, a influência dos pais na formação dos filhos e o futuro da educação após a PEC dos gastos e a reforma do Ensino Médio. 

CartaCapital: Há pesquisas de sobra - de curto, médio e longo prazo - provando que o ensino de filosofia prática, como o Philsophy for Children – P4C (Filosofia para Crianças), eleva o rendimento dos alunos nas demais disciplinas e aumenta até o QI. Não deveríamos usá-la nas escolas brasileiras?

Cláudia Costin: Boa parte dessas pesquisas está relacionada com crianças ou adolescentes na Europa ou nos Estados Unidos, em, alguns casos, no Leste Asiático, onde a carga horária na escola é expressivamente maior do que a do Brasil.

Mantida a carga atual no Brasil, acho melhor que o processo de ensinar a pensar e de introduzir discussões éticas deveria acontecer nas disciplinas já oferecidas na escola.

Nada impede, por exemplo, que, nas aulas de Língua Portuguesa, em que se trabalha leitura e interpretação de textos, sejam usados dilemas éticos sobre os quais se possa refletir ou que se organizem discussões como essas em história.

É interessante fazer isso, pois, a cada fato histórico, descobre-se quais eram os valores morais predominantes naquela época e percebe-se como a humanidade passou de um conjunto de valores para outro.

No Ensino Médio, muda-se de perspectiva e a Filosofia aparece como disciplina. Com a mudança prevista nesta etapa da Educação Básica, ela pode ser ofertada como matéria em separado, em determinados itinerários formativos, ou se pode ter a filosofia abordada em história, inclusive como história do pensamento humano, o que é muito bom, ou como forma de ensinar a pensar e problematizar ideias nas várias disciplinas.

Até em Educação Física deve-se discutir como se enxerga o esporte e qual a importância da cooperação em um time. O saber pensar deve estar em todas as disciplinas, integrando diferentes campos de conhecimento.

O Brasil padece hoje de uma grande fragmentação dos saberes na escola. É preciso ensinar os professores a trabalharem de forma colaborativa para gerar maior interdisciplinaridade e para que o ensinar a pensar, que é a base da filosofia, apareça com muita força. 

CC: Estudos têm comprovado que a educação dos pais, especialmente das mães, é determinante para a formação dos filhos. Não seria o caso de passarmos a dar bem mais atenção à educação de adultos, o que envolve não somente ensinar-lhes disciplinas e técnicas práticas, mas conscientizá-los da sua importância como formador dos seus filhos?

CC: É verdade. Primeiro, acho que se deveria pensar na Educação de Jovens e Adultos (EJA), de preferência associada ao Pronatec, de forma a não apenas complementar a escolaridade dos pais, mas a prepará-los para uma profissão em maior demanda no mercado de trabalho que lhes dê possibilidade de autonomia.

Além disso, é preciso olhar para a formação de pais em situação de vulnerabilidade. O Brasil  ainda conta com importante incidência de gravidez na adolescência. Mães muito jovens ou com baixa escolaridade têm dificuldades para nutrir, formar vínculos familiares fortes e estimular o bebê.

Cursos ou rodas de conversa com os pais dos bebês ou crianças pequenas cadastradas como beneficiárias do Bolsa Família, por exemplo, podem ter um efeito muito relevante sobre a aprendizagem e o desenvolvimento na primeira infância, com impactos positivos para o resto da vida do indivíduo.

CC: O que se pode fazer na Educação Infantil? 

CC: As creches deveriam aproveitar o fato de que o equipamento, às vezes, fica ocioso nos finais de semana e fazer, no sábado, uma atividade que eu chamaria de “escola de pais" ou “escola da família”. Uma reunião para dar noções básicas sobre como apoiar o desenvolvimento das crianças, numa abordagem intersetorial, colocando diferentes secretarias juntas, como educação, saúde e assistência social.

No Rio de Janeiro, criamos algo nesse caminho, pensando em dois tipos de pais: os das crianças cadastradas no Bolsa Família, mas ainda fora da creche, e os daquelas já inseridas na Educação Infantil. 

As primeiras precisam mais urgentemente de cuidados e estímulos , pois estão abaixo da linha da pobreza. Para os pais dessas crianças, organizamos um curso ministrado três sábados por mês sobre os temas da educação e cuidados na primeira infância, uma biblioteca circulante de livros de bebê, vídeos, material apostilado e rodas de conversa.

Para os que já estavam em creche, fazíamos uma vez por mês, com a mesma abordagem.

Há outra questão importante para ampliar a escolaridade dos pais. Como não há vaga em EJA para todos e, às vezes, a demanda é muito maior do que se pode atender enquanto município, pode-se priorizar no atendimento de EJA dois públicos: os pais do cadastro do Bolsa Família e os pais dos alunos que estão vivenciando fracasso escolar. Muitas vezes, os dois grupos coincidem.

CC: Quão relacionado está o rendimento da criança com a escolaridade dos pais?

CC: Frequentemente, quando uma criança tem fracasso escolar, percebe-se que há um problema na escolaridade dos pais. Ou esses pais pararam de estudar em algum momento, saíram frustrados da escola, foram humilhados por colegas ou professores e, por isso, temem que o mesmo se passe com seus filhos.  

A rede pública do Rio criou um projeto muito interessante, chamado “Sou pai, sou aluno”, que consiste em trazer para o EJA justamente esses pais com escolaridade interrompida e com filhos com fortes chances de abandono escolar. O sucesso do projeto é grande.

Não faz sentido a escola lamentar que os pais, especialmente nas famílias mais vulneráveis, não educam os filhos. Temos que apoiá-las neste esforço. Nem todos têm a energia e o repertório para fazê-lo e é injusto que a criança pague o preço das limitações da família.Os pais e a escola devem ser apoiados, como se dá nas boas políticas públicas que integrem a família no processo educacional.

Para que isso ocorra, há aqui um ponto importante.

CC: O que?

CC: A escola fala uma língua muito estranha, de difícil apreensão para muitos pais. Quando o pai tem baixa escolaridade, a linguagem precisa ser simples, ou cria-se uma barreira de comunicação. Infelizmente, por vezes, para que o pai não dê trabalho para a escola, alguns educadores preferem falar um “pedagogês” que eles não têm como entender. Assim, os pais sentem-se ilegítimos para discutir a educação dos filhos ou participar da vida da escola.

Uma alternativa é criar cadernos de orientação para os pais sobre como apoiar em casa o trabalho da escola. Cabe aqui um esforço de traduzir para uma linguagem mais popular temas relevantes, como a organização do espaço em casa para o estudo das crianças, o trabalho de alfabetização, o que os pais podem fazer para apoiá-lo e o trato de crianças com deficiência na escola e na família.  

Esses textos podem ser lidos coletivamente, na reunião de pais das escolas, buscando-se esclarecer como as recomendações neles contidas se traduzem no cotidiano da sala de aula e da casa.  

Enfim, é possível fazer trabalhos interessantíssimos com os pais. Isso tem impacto determinante não só na formação deles, mas no rendimento das crianças.    

CC: Após a PEC dos gastos e a MP da reforma do ensino médio, o que muda na educação e qual a sua expectativa para os próximos 5 anos?

CC: Eu fiquei muito triste com as duas coisas.

Primeiro, com relação à emenda dos gastos, é natural que, em uma crise fiscal, seja preciso fazer cortes. Infelizmente, fez-se isso sem se estabelecer prioridades. Teria sido um momento excelente para priorizar gastos com educação e saúde, que são fundamentais para construir o futuro do País.

Para se ter uma educação de muito mais qualidade, é preciso tornar a profissão de professor muito mais atrativa. Com a lei do piso salarial, houve uma certa correção do salário do professor, mas ainda claramente insuficiente para atrair e reter jovens nesta importantíssima profissão.

Infelizmente, a docência não tem um patamar de remuneração assemelhado ao de profissões que demandam uma formação do mesmo nível.

A ideia de congelar os gastos pela inflação por 20 anos – verdade que haverá momento de revisão, mas somente depois de 10 anos – é muito triste, pois estamos condenando a profissão de professor a nunca ser atraente.

Isso é particularmente verdade, pois, embora a maior parte dos professores esteja em estados e municípios,  pode-se, com a lei, estabelecer-se um precedente para que as unidades subnacionais façam o mesmo. Então, espero que haja uma revisão muito mais precoce.

Pelas pesquisas, hoje no Brasil, tendem a cursar licenciaturas ou Pedagogia, em média, os 25% piores alunos do Ensino Médio, o que decorre da baixa remuneração da carreira.

Na Finlândia, para dar um exemplo, os 25% melhores alunos do Ensino Médio vão para a carreira de professor. Isso faz uma diferença grande. A profissão precisa ser atraente, bem remunerada e é preciso haver condições de se fazer um trabalho relevante.

CC: E a MP do Ensino Médio?

CC: Acho que ela padeceu de um grande mal, logo de início, que foi ser feita por Medida Provisória. Havia uma discussão muito interessante entre os Secretários Estaduais de Educação e o conteúdo da MP veio por iniciativa dos próprios Secretários, por meio do Conselho Nacional de Secretariado de Educação - Consed.

Uma lei estava tramitando com apoio dos ministros do governo anterior, com basicamente o mesmo conteúdo. Quando se propõem mudanças em educação, num momento politicamente conturbado, como o atual, com a sociedade muito polarizada, por Medida Provisória, cria-se uma forte resistência até aos melhores aspectos da reforma.

Para mim, o mais positivo, é que a futura lei enfrenta o problema que temos hoje de um currículo enciclopédico, com mais de 13 disciplinas obrigatórias, para uma carga horária média de cerca de 4 horas e meia.

Nestas condições, tudo é visto superficialmente, sem desenvolver competências, sobretudo a de pensar criticamente e aplicar os conhecimentos adquiridos em situações da vida real. Além disso, isso certamente não leva o aluno a se empoderar para ser o sujeito de sua própria aprendizagem. 

Apesar desse começo ruim, a esperança é que a reforma possa ser aperfeiçoada e, quando for construída a base curricular comum do Ensino Médio, que ela se beneficie de  um  processo de discussão mais amplo.

Entrevista - Cláudia Costin

Cláudia Costin: "A educação no Brasil não ensina a pensar"

Coordenadora do Centro de Inovação em Políticas Educacionais afirma que, em educação, o Brasil está estagnado em um patamar ruim
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 30/01/2017 23h00, última modificação 30/01/2017 15h08
Fabio Pozzebon/Agência Brasil
Sessão solene discute a qualidade da educação no Congresso

Crianças em sessão da Câmara dos Deputados em defesa da educação pública de qualidade

Uma das maiores especialistas do mundo em políticas educacionais, Cláudia Constin acumulou passagens pela secretaria municipal de Educação do Rio de Janeiro, de Cultura no Estado de São Paulo e ainda foi ministra da Administração e Reforma do Estado no governo de Fernando Henrique Cardoso. 

Durante sua passagem pela pasta de Educação no Rio, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) cresceu 22%. Ao sair da administração pública, tornou-se Diretora Global de Educação do Banco Mundial e, desde 2016, é professora visitante em Harvard.

Atualmente, coordena o Centro de Inovação em Políticas Educacionais (CEIP) na FGV do Rio de Janeiro.

Claudia Costin
Para Claudia Costin, é preciso foco no desenvolvimento de competências socio-emocionais, como empatia e liderança

Em entrevista à CartaCapital, Costin defendeu uma educação que foque no desenvolvimento de competências socio-emocionais, como empatia, liderança, iniciativa e resiliência, e que considere o contexto de cada aluno e no que se deseja deles no futuro. A educadora também sustenta que o Ideb é um bom índice, mas carece de complementação por outras avaliações. 

Confira: 

CartaCapital: As crianças brasileiras estão indo mais à escola, porém não estão aprendendo. O Ideb veio aumentando em diversos municípios nos últimos 10 anos. Por outro lado, o Brasil teve um resultado muito ruim no Pisa. Qual sua análise?

Cláudia Costin: No País, o Ideb vem aumentando consistentemente nos anos iniciais do Ensino Fundamental (dado baseado na Prova Brasil de 5º ano), mas está estagnado nos anos finais, segundo os dados da Prova Brasil do 9º ano, e estagnado em um patamar baixíssimo no Ensino Médio. 

Então, como país, estamos com um Ideb inaceitavelmente baixo, sobretudo quando sai de cena o professor generalista, que dá aulas nos anos iniciais do Ensino Fundamental.  

Alguns municípios conseguiram mudar esta situação, como é o caso de Sobral, no Ceará, mas o quadro geral do Brasil ainda é muito ruim.

Quando olhamos para o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o Brasil está na posição 63 entre 70 economias ou países. Falo “economias” pois alguns participaram como cidades ou conglomerados de cidades.

O Brasil melhorou no Pisa de 2012 em matemática - foi o país que mais melhorou nessa disciplina - e ficou na posição 58 entre 65 países. Em 2015, porém, sequer houve melhora. O país está estagnado num patamar muito ruim.

Nos resultados do Pisa de 2015, chama a atenção o fato de que o Brasil vai mal em várias competências na área de Ciências, por exemplo, em como pensar cientificamente e utilizar a teoria na solução de problemas práticos. Isso demonstra que falta algo importante no nosso processo de ensino e que, talvez, tenhamos batido no teto de vidro no processo de melhoria.

Nós não ensinamos a pensar.

No Brasil, quando se fala nas teorias de Paulo Freire, em ensinar a pensar criticamente ou a formar cidadãos críticos, os professores decodificam isso, muitas vezes, como ensinar a visão de mundo deles para o aluno.

Isso não é ensinar a pensar. Não tenho nada contra passar a visão do professor para o aluno, mas ensinar raciocínio crítico é ensinar a formular seus próprios juízos sobre os fatos, a raciocinar matematicamente, historicamente e cientificamente; é pesquisar evidências.

A escola no Brasil, via de regra, não tem isso no seu currículo.

CC: E especificamente sobre o Ideb?

CC: Obviamente, o Ideb não mede tudo - e nem deveria ser essa a proposta. O índice é como um termômetro que testa se a criança tem febre. Só que, depois disso, é preciso aprofundar a questão com outros instrumentos. Outra avaliação, o Pisa,  tem uma gama de instrumentos um pouco maior, mas tampouco mede tudo.

Li um relatório da [consultoria empresarial norte-americana] McKinsey muito interessante. Ele mostra que sistemas educacionais em diferentes estágios na sua evolução demandam um conjunto de intervenções e de políticas públicas diferentes. Se o país, estado ou município está num nível muito baixo, é preciso estruturar o processo de ensino num currículo muito claro, com materiais adequados para apoiar o professor de uma forma mais clara.

O relatório mostra que em economias como Xangai ou na Coréia do Sul, é importante  promover maior criatividade, fomentar o trabalho colaborativo entre os professores, dando mais autonomia a eles.

Em países ou cidades com menor aprendizagem, o foco deveria ser estruturar o processo de ensino, padronizar o material didático, enfatizar letramento e criar uma ação coordenada em todas as escolas do sistema. 

No caso de Sobral, por exemplo, que tem o melhor resultado do país no Ideb de anos iniciais, é preciso pensar em como avançar a partir do ponto atual.

Talvez, seria o caso de tornar as aulas mais dialógicas, em que o professor engaje os alunos num processo de reflexão a partir do que está sendo ensinado, fortalecer o trabalho colaborativo entre os docentes e definir claramente que tipo de cidadão e profissional se quer formar na cidade.

E como formar para o mercado de trabalho? Em primeiro lugar, precisamos pensar em formar para o empreendedorismo. Isso demanda que os alunos enfrentem novas experiências e não tenham medo de errar.

O erro é uma grande oportunidade para se aprender. Se você quer, por outro lado, formar para empregabilidade, é importante definir claramente de que mercado estamos falando: o atual de Sobral ou arredores ou o que existirá na região quando esses jovens se formarem. 

CC: Sobre ensinar o aluno a pensar, talvez se perca de vista na discussão da Escola sem Partido, para além dos dois polos de manter o ensino como está ou proibir que os professores expressem suas visões, inclusive com sanções, uma hipótese de orientar os educadores para que ensinem todos os temas, e especialmente aqueles com caráter político, por duas ou mais perspectivas, estimulando a empatia, o diálogo, a visão complexa etc. 

CC: Sou contra definir o processo pedagógico por lei. No próprio currículo, quando se estabelecem as competências a serem desenvolvidas e os conteúdos que garantam essas competências, deveriam existir orientações para os professores, estimulando a exposição de diferentes ângulos de leitura de uma mesma situação, e até promover debates entre os alunos.

Nesse processo, é, de fato, possível desenvolver empatia, aprender a ouvir a posição do outro e assim por diante.

Hoje postei nas redes sociais a frase “quem pensa diferente de mim não é meu inimigo”. Há diferentes maneiras de se ler uma questão, de se olhar para o problema, mesmo em história, em matemática.

Enfim, sou a favor de uma orientação para que os professores ensinem com diversas perspectivas, estimulando o indivíduo a pensar e a ser tolerante. Isso não significa que o docente não possa expor sua visão de mundo ao aluno, e sim que o ajude a pensar por si próprio. 

CC:Voltando aos índices de avaliação, o que pode ser feito para se ter uma visão mais ampla da educação brasileira? 

CC: Os municípios deveriam ter uma avaliação diagnóstica no início do ano letivo para saber de onde o aluno está partindo no seu aprendizado. No Rio de Janeiro, incluímos uma avaliação diagnóstica antes de começar o processo de alfabetização.

Afinal, os alunos entram no 1o ano do Fundamental em estágios diferentes de letramento. Assim, pode-se verificar quanto o aluno conseguiu avançar e, o professor, é capaz de personalizar o processo de ensino, adequando-o às necessidades de cada um.

Uma avaliação diagnóstica é importante. E há o que se chama em educação de avaliação formativa, aquela feita, pelo próprio professor, ao longo do tempo, para ver onde exatamente há fraquezas que precisam ser superadas ou até se há alunos mais avançados, pois, se não houver atenção a isso, eles podem se entediar com o processo de ensino.

CC: Qual é o futuro da educação? 

CC: O futuro da educação será um processo de maior personalização. A tecnologia da informação vai apresentar grandes saídas para isso. Até meados do século XIX, os nobres estudavam com tutores, num contexto individualizado. Poucos estudavam à época. Depois, os países avançados decidiram massificar a educação, o que obrigou a construir escolas com salas de aula para muitos e a adotar um processo de ensino-aprendizagem em que todos aprendem a mesma coisa. Isso trouxe a vantagem de ampliar a escolaridade, mas perdeu-se a percepção de que cada criança e adolescente tem seu ritmo e suas dificuldades para aprender.

Temos que retomar as vantagens do processo de personalização, num contexto no qual todos possam ter acesso a isso. Com o advento das modernas tecnologias e com um professor sendo formado para ser um assegurador de aprendizagem, e não um mero fornecedor de aulas, é possível caminhar para isso. Mas, a tecnologia só funciona se for usada para apoiar o professor, não para substituí-lo.

Não creio que, para além das avaliações somativas, feitas pelos sistemas, e das formativas, organizadas pelo próprio professor ou pelos municípios, nós precisemos de outras. Precisamos incluir nos currículos as competências sócio emocionais ou habilidades para a vida, tais como empatia, garra, resiliência, autocontrole, abertura para novas experiências, e abordá-las nas escolas, de forma integrada às competências cognitivas. 

CC: A senhora tem dito que há muitas teorias e perspectivas na educação, e que é preciso se ater mais a estudos científicos que as comprovem. Há vastos estudos comprovando que a prática da meditação molda positivamente o cérebro dos indivíduos. Os efeitos da prática em escolas têm sido ótimos. Seria o caso de aplicá-la nas escolas do Brasil?

CC: Sim, mas a meditação tem que ser incorporada no processo de ensino. Ela não pode entrar como uma nova disciplina. Tenho receio quando cada conteúdo novo se torna uma disciplina. Estamos vivendo essa crise, pois, entre outras coisas, o Brasil é o único país  no seu grau de desenvolvimento que tem, no ensino médio, só quatro horas de ensino em média, com 13 disciplinas, todas obrigatórias. Isso não pode dar certo.

Não deve ser o caso da meditação. Muitas escolas, em vez de punição para situações de indisciplina, adotam estratégias de meditação. Há um exemplo muito interessante aqui no Rio de Janeiro.

Por exemplo, após ser perguntada sobre a razão de os seus alunos conseguirem resultados tão surpreendentes e uniformes na avaliação do 1o ano e numa área tão complicada da cidade, uma das melhores professoras alfabetizadoras da rede me contou o seguinte: “Olha, as crianças chegam muito tensas pela manhã. Então, nós nos sentamos sobre a linha [a linha Montessoriana, um círculo pintado no chão em todas as escolas do Rio] e, primeiro, cada um conta uma coisa que o perturbou no dia anterior”.

Normalmente, eram relatos sobre o pai sendo preso, tiroteios e outras coisas muito graves. Ela continuou: “Depois a gente dá as mãos e fica em silêncio por um minuto”.

Eu percebi que, dentro das limitações, a professora claramente tinha introduzido a meditação na turma dela. Eles faziam a catarse, ou seja, punham para fora os problemas e depois meditavam. Essa se tornou a melhor turma de alfabetização daquele ano.

Esse fato demonstra que há, sim, um efeito positivo, mas não precisa haver uma disciplina de meditação. Os professores devem ser capacitados para usar a meditação como um recurso pedagógico. Se a carga horária for aumentada para, por exemplo, 7 horas de aula, dá para fazer um trabalho estruturado, um período em que há a meditação.

Ela poderia, inclusive, reduzir as expulsões de sala de aula, pois, muitas vezes, o aluno apenas está tenso ou é hiperativo. 

Opinião

Ensino filosófico adequado eleva o rendimento dos alunos

Reforma de Temer minimiza Filosofia e Sociologia, mas escolas podem aproveitar e introduzir discussões filosóficas e sociológicas em todas as disciplinas
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 27/01/2017 08h34, última modificação 26/01/2017 15h44
Daniel Stockman / Wikimedia Commons
Pensador

"O Pensador", de Rodin: a reflexão melhora o aprendizado

A Filosofia se tornou disciplina obrigatória no Ensino médio em 2006 no Brasil. Em 2016, a Medida Provisória de reforma do Ensino Médio apresentada pelo governo Temer pretendia tornar optativas no currículo a Filosofia e a Sociologia. Com uma emenda na Câmara dos Deputados, decidiu-se incluí-las novamente, porém a título de “estudos e práticas”, o que retira a necessidade de oferecer disciplinas específicas nas escolas.

Elas não são, de fato, imprescindíveis, mas, se fossem bem pensadas, poderiam ser ótimas ferramentas no crescimento cognitivo, reflexivo, argumentativo e moral dos alunos.

Essa discussão precisa tomar o seguinte caminho. É importante que alunos estudem Filosofia e Sociologia enquanto disciplinas singulares, para que possam sistematizar autores, entender a evolução dos pensamentos filosóficos e sociológicos etc. Se essas disciplinas forem, no entanto, ensinadas como comumente acontece no Brasil, acrescentarão muito pouco.

O ensino em monólogo, no qual são apresentados autores, ideias soltas, classificações e outros conhecimentos de forma redutiva, com pouca contraposição de ideias e participação dos alunos, torna a Filosofia e a Sociologia disciplinas maçantes, pouco instigantes, e que não cumprem suas importantes funções.  

Essas disciplinas, como todas as demais, devem focar num ensino histórico, analítico, estimulador da reflexão, confrontador de posições dentro de um ambiente cooperativo e participativo. Se as disciplinas não constarem no currículo, mas discussões filosóficas e sociológicas de caráter prático acontecerem dentro do ensino das demais disciplinas, já seria um grande avanço.

O grande mérito de disciplinas como Filosofia e Sociologia é que elas abrem espaço para uma forma de ensino que prepara melhor os indivíduos para atuarem como seres sociais intelectualmente profundos, socialmente adaptáveis e moralmente cooperativos. A chave da boa educação está, portanto, até mais no “como ensinar” do que no “o que ensinar”.

Diversos estudos científicos realizados nos últimos anos provam que a prática filosófica (ensino prático-reflexivo) nas escolas leva os alunos a um melhor rendimento.

Circulou recentemente nas redes sociais um estudo realizado com 3.000 crianças em 48 escolas primárias de toda a Inglaterra. Parte das crianças recebeu um curso de filosofia prática, ou seja, discutiam, com base em problemas do dia a dia, temas como conhecimento, verdade e justiça, e não apenas falavam de autores e teorias em caráter abstrato, como acontece, em regra, no ensino filosófico brasileiro.

Eram debatidos por elas questões como: “Um coração saudável deveria ser doado a uma pessoa que não se cuidou ao longo da vida?” e “É aceitável privar alguém da sua liberdade?”.

O resultado claro e consistente foi que as crianças participantes das aulas de filosofia prática ganharam dois meses à frente das demais em termos de avanço em matemática e em habilidades de leitura, e isso num estudo de curto prazo.

O objetivo do programa era, na verdade, aumentar a confiança dos alunos ao perguntarem e construírem argumentos, mas os ganhos acadêmicos foram surpreendentes.

Os professores reportaram ainda que aquela foi uma oportunidade de aprofundar o relacionamento com os alunos e entre os alunos, tratando de temas delicados e que remetem a perspectivas muito pessoais e emocionais. Ademais, foi possível desenvolver uma maior cultura de pensar, ouvir, falar, e tudo isso usando argumentos lógicos.

O programa Philosophy for Children - P4C (Filosofia para Crianças) foi desenvolvido primeiramente em 1970 nos Estados Unidos por Matthew Lipman. Mais tarde, foi criado o Institute for Advancement of Philosophy for ChildrenIAPC (Instituto para Avanço da Filosofia para Crianças), que realizou diversos estudos pautados no ensino filosófico prático a grupos controlados de crianças.

Em 1980, o instituto estudou o progresso de 40 alunos em duas escolas de New Jersey. Eles foram divididos em dois grupos, sendo que o grupo de tratamento teve ensino de Filosofia para Crianças ao longo de nove semanas, enquanto que o grupo de control teve um ensino mais tradicional de estudos sociais.

O estudo reportou ganhos significativos em raciocínio lógico e leitura, o que foi medido pelo California Test of Mental Maturity – CTMM (Teste de Maturidade Mental da Califórnia). O avanço nas habilidades de leitura do grupo que teve ensino filosófico prático em relação ao outro foi medido logo após o curso e dois anos e meio depois.

Isso não quer dizer que estudos sociais não sejam importantes, mas que o ensino de caráter filosófico, no sentido de uma prática de reflexão e argumentação, estimula partes do cérebro que, em suma, deixam os indivíduos mais capazes de questionar, refletir e argumentar. Há aumento da inteligência.

Estudo semelhante aconteceu em 2004 com 105 estudantes experimentais e 72 estudantes no grupo de controle. Os pesquisadores novamente reportaram avanços consideráveis em leitura e pensamento crítico.

Devido à quantidade de estudos produzidos em tempos distintos e com métodos diferentes, uma iniciativa em Clackmannanshire, na Escócia, procurou sistematizar esses estudos e revisá-los cuidadosamente para checar os resultados da Filosofia para Crianças. As conclusões foram que, com um custo baixo, usando uma aula na semana, obtém-se ganhos cognitivos sustentáveis, desenvolvimento de habilidades críticas, de diálogo, sociais e emocionais.

Autores renomados, como Jean Piaget, pensavam que alunos mais novos, com idade até 11 ou 12 anos, não poderiam desenvolver pensamento crítico, mas os estudos com ensino filosófico prático provaram que isso era possível mesmo no ensino primário, em alunos a partir de 5 ou 6 anos.

A boa reflexão filosófica, aquela que não se prende a paradigmas, a dogmas, e que estimula o ser humano a pensar pragmaticamente as instituições sociais de forma a reconstruí-las para o bem de todos, não precisa ser abstrata, vaga, podendo ser digerida até mesmo por crianças em tenra idade.

Por último, como os estudos anteriores fizerem medições em curto prazo, vale olhar para um longitudinal, de longo prazo (10 anos), realizado na Espanha com mais de 700 crianças. Houve três medições: 1) 2o ano do fundamental; 2) 6o ano do fundamental; 3) 2o ano do médio. O principal resultado foi o aumento médio de sete pontos de QI naqueles que estudaram filosofia prática.

Esses e outros estudos comprovam que a discussão sobre ensino filosófico no Brasil está séculos atrasada. Boa parte do sucesso da educação dos países desenvolvidos se deve a métodos muito mais práticos e reflexivos.  

O pragmatista americano John Dewey destacou-se ao defender a importância de se ensinar a pensar de forma inteligente nas escolas, e não apenas lançar um monte de conhecimento sobre os alunos. Apenas dessa forma, segundo ele, ensinando como reconstruir a experiência e, portanto, as instituições, seria possível os homens terem o controle das suas vidas, e isso aprofundaria a democracia.

Para esse aprofundamento, seria preciso também criar um senso de comunidade por meio de um ensino moralizante, outro resultado que pode decorrer da prática filosófica. No curso Justice – Qual a coisa certa a fazer?, do professor americano de Harvard, Michael Sandel, os alunos podem refletir sobre diversas questões intricadas da vida humana que remetem a decisões sobre justiça e assuntos correlatos, sobre o que está ou não dentro da moral, instigando a construção de sensos morais mais comunitários.

Uma das principais formas de obter esse ensino do pensamento democrático defendido por Dewey seria exatamente a filosofia prática, uma reflexão constante, aberta, receptiva, cooperativa e profunda sobre os problemas, especialmente os mais graves, da vida humana.

Quando se fala em filosofia, o termo remete mais imediatamente a três conceitos: a) ideologia, visão sobre algo, b) disciplina, parte do currículo educacional, e c) questionamento, reflexão, atitude filosófica. A boa educação deve, sobretudo, usar “c” para discutir “a” frente aos problemas da vida humana, sendo o uso de “b” algo bastante útil e positivo.

Para efeito de políticas públicas, as escolas deveriam buscar ter disciplinas de Filosofia e Sociologia, mas, sobretudo, transformar boa parte de todas as disciplinas em discussões filosóficas e sociológicas sobre os seus temas. Para tanto, é preciso capacitar todos os professores a ensinarem com base em um método focado na atitude prático-reflexiva.

 

*Texto elaborado para o Movimento Mapa Educação e também publicado no seu blog. 

100 anos de Antonio Callado

Hoje Antonio Callado completaria 100 anos, mas ele que presenteia a todos com alguns trabalhos inéditos descobertos na Inglaterra
por Daniel Mandur Thomaz — publicado 26/01/2017 00h08, última modificação 25/01/2017 16h20

Considerado pelo crítico Raymond L. Williams um dos mais destacados romancistas latino-americanos do século XX, o escritor brasileiro Antonio Callado (1917-1997) completaria hoje, se estivesse vivo, 100 anos.

Inúmeros eventos marcarão este ano do centenário do romancista, dramaturgo e jornalista: o lançamento de um novo documentário dirigido por Emília Silveira, uma sessão comemorativa na Academia Brasileira de Letras prevista para março e uma conferência sobre sua vida e obra na Universidade de Oxford, Inglaterra, no dia 4 de fevereiro.

Para além do seu centenário, são os tempos incertos pelos quais passa o País que fazem da releitura da obra de Callado algo tão necessário. Trata-se de um autor profundamente comprometido com o Brasil, o que adiciona à sua obra um sentindo ainda maior. 

Callado foi um homem cuja vida se mesclou de forma fascinante com a história do século XX. Enquanto jornalista, cobriu eventos que moldaram o mundo contemporâneo, como a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a criação da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1948, e a Guerra do Vietnã (1955-1975), esta última como enviado do Jornal do Brasil em 1968. 

Enquanto dramaturgo, foi um dos primeiros autores no Brasil a escrever peças de teatro para protagonistas negros. Sensibilizado pelo Teatro Experimental Negro iniciado por Abdias do Nascimento em 1944, Callado escreveu, a partir dos anos 50, peças com personagens e temas que problematizam direta ou indiretamente o racismo no Brasil, como Pedro Mico (1957), Uma rede para Iemanjá (1961), O tesouro de Chica da Silva (1962) e a Revolta da Cachaça (1983).

Escritor de mão cheia, estreou como romancista em 1954, com Assunção de Salviano, história cujo enredo tem como pano de fundo os conflitos fundiários do Nordeste nos anos 50. No início dos anos 60, Callado escreve uma série de reportagens, primeiro para o Correio da Manhã e depois para o Jornal do Brasil, sobre as Ligas Camponesas, colocando o tema da reforma agrária sob os holofotes da imprensa e fixando na linguagem corrente o termo “indústria da seca”.

É com Quarup (1967) que Callado se consagra como autor. Considerado por alguns críticos o romance mais importante da década de 60, Quarup – nome de um ritual fúnebre dos povos indígenas do Xingu – tem como protagonista um padre que vai para o Norte do país catequizar os índios e, depois de uma série de choques e descobertas no Brasil profundo, se converte em militante contra a ditadura (1964-1985).

Em passagem antológica, o protagonista, padre Nando, se envolve numa expedição para contatar tribos isoladas e demarcar o centro geográfico do Brasil. Ao fincarem o marco no lugar que acreditam ser o centro do País, os personagens descobrem que o solo onde pisavam era, em verdade, um formigueiro colossal, capaz de devorá-los.

A cena, uma recriação ficcional da expedição original realizada pelos irmãos Villas-Boas em 1958, é uma belíssima metáfora da busca incessante de um povo por sua identidade. Uma longa tradição de pensadores brasileiros, de Oliveira Vianna a Darcy Ribeiro, passando por nomes como Sergio Buarque, Caio Prado Jr. e o próprio Callado, buscaram ao longo do século XX desvendar a alma brasileira, interpretar a identidade nacional e cultural do País e produzir sentido sobre sua trajetória histórica.  

Quarup é parte do esforço de Callado por entender o Brasil, com seus enormes dilemas e contradições. O romance é uma reflexão sobre a trajetória recente de uma gente que se fez como povo através de processos históricos brutais, banhados em sangue negro e indígena, e que é pobre embora viva em meio a uma imensa abundância de recursos naturais.

O que Callado parece querer apontar com a imagem de um formigueiro no coração do Brasil é que a identidade de um país não é algo dado e que, portanto, possa ser descoberto, desvendado. A identidade brasileira é movediça, como um formigueiro, e quem tenta fixá-la pode ser por ela devorado. Enfim, o Brasil de Antonio Callado não precisa ser descoberto, ele tem é que ser inventado, construído pelos milhares de brasileiros que, com seu trabalho e movimento, são a matéria desse solo.  

Na época de sua publicação, o romance foi saudado por críticos como Ferreira Gullar e Hélio Pelegrino como obra-prima, capaz não apenas de produzir um retrato da encruzilhada civilizacional pela qual passava o Brasil de então, mas também como narrativa capaz de produzir uma síntese estética do projeto nacional-popular acalentado por intelectuais e movimentos sociais naquele momento. Tal projeto fora agrupado sob a bandeira das chamadas reformas de base, barradas abruptamente pelo golpe de 1964.    

A partir dos anos 1970, o escritor produzirá romances que refletem sua perplexidade diante do recrudescimento do autoritarismo e da tortura no pós-1968, mas também da incapacidade de articulação de um projeto de enfrentamento da ditadura que produzisse uma saída estruturada para o país. Tais questões são problematizadas em Bar Don Juan (1971) e Reflexos do Baile (1976).

Embora sua produção nos anos 80 se torne ainda mais marcada pelo pessimismo em relação aos rumos do País, como em Sempreviva (1981), Expedição Montaigne (1982) e Concerto Carioca (1985), é a ligação entre o jornalista e o romancista que será consagrada no fim de sua obra.

O último romance, Memórias de Aldenham House (1989), é uma narrativa que liga as duas pontas da vida de Antonio Callado, ao explorar através da ficção o ambiente vivido pelo autor entre 1941 e 1947, quando foi à Inglaterra para trabalhar como jornalista da BBC.

Aldenham House é o nome da mansão construída por uma família aristocrática inglesa no século XVII e que abrigou, em plena Segunda Guerra Mundial, os departamentos de transmissão internacional da BBC.

No romance de Callado, um jornalista brasileiro foge da perseguição política do Estado Novo de Vargas (1937-1945) e torna-se correspondente de guerra, convivendo com outros exilados na seção da BBC responsável por transmissões em português e espanhol para a América Latina.

Com o fim da guerra em 1945, quase todas as personagens do romance retornam a seus países de origem e são presas ou mortas por regimes ditatoriais. Embora reproduza na forma da narrativa uma sátira dos romances policiais dos anos 1930 e 40, Callado parece sugerir que, na trama política da América Latina, o assassino não é o mordomo, como nos clichés detetivescos, mas sim a tradição autoritária dos países da região.

Foi em busca de rastros deixados por Antonio Callado na Inglaterra que este autor iniciou uma pesquisa nos arquivos da BBC em 2014 e descobriu uma série de documentos inéditos não apenas sobre Callado, mas sobre a presença de intelectuais brasileiros na BBC durante a Segunda Guerra Mundial. O material encontrado inclui dezenove roteiros de rádio-drama, peças de teatro para serem encenadas no rádio, escritos por Antonio Callado e desconhecidos por biógrafos, críticos e historiadores até então.

As peças são as primeiras aventuras de Callado pelo mundo da ficção e têm o potencial de lançar uma luz nova sobre o trabalho do autor e o seu processo de formação intelectual na Inglaterra. Esse material está sendo editado para sair no Brasil ainda este ano e virou tema de pesquisa na Universidade de Oxford.

Aos 100 anos, Antonio Callado continua nos oferecendo novidades. Seu trabalho parece mais atual do que nunca. Através de seus romances, peças e reportagens é possível compreender melhor a trajetória recente do país, algo essencial para que possamos repensar nossos rumos e superar nossas contradições. Afinal, como disse o crítico Davi Arrigucci, um país que já produziu homens como Antonio Callado não pode desistir de ser alguma coisa.

Entrevista

"Muitas escolas se tornaram quase shoppings"

As escolas são hoje quase shoppings que não ensinam a pensar, nem a se comportar moralmente, dizem responsáveis por colégio inovador na Bahia
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado 24/01/2017 00h03, última modificação 23/01/2017 15h16
Reprodução / Facebook
Escola Ananda

Festival da Escola Ananda: a abordagem da escola diante do ensino é pouco comum

A Escola Ananda vem ficando conhecida entre especialistas no país e até fora dele por seu método holístico de ensino, que busca mais autoconhecimento, autoconsciência, desenvolvimento da reflexão, do senso crítico, do senso social, de obrigação etc.

Ela foca em tudo o que o ser humano realmente precisa para ser um adulto completo e no que a maior parte das escolas não dá atenção. Na primeira parte da entrevista, a diretora da escola, Carina Viana Sales, e a administradora, Fabiana Arrais, falaram da proposta do estabelecimento, de alguns diferenciais e de inúmeros detalhes.

Nesta segunda parte da conversa, também condensada e editada, elas buscam aprofundar o debate a respeito dos diferenciais da escola, que não precisam ser copiados pelas demais, mas podem servir de modelos para modificações drásticas, ainda que graduais e experimentais, nos métodos de ensino, no programa e no comportamento dos educadores. 

CC: Como funciona o setor da escola voltado para a consciência?

EA: Há 20 anos nós trabalhamos com exercícios de conectividade: reflexão, concentração, meditação, vibração, percepção, contemplação e exaltação. Todos os dias as crianças fazem esses exercícios, cada dia um, de 8h às 8h30. Quando chegam à escola, fazem diferentes atividades dessa natureza.

Iniciamos, assim, o dia de forma tranquila e os fazemos unir a natureza interna com a externa, mesmo em tenra idade. Há aqui crianças de apenas dois anos que já conseguem ficar nesse estado de inteireza com eles mesmos.

Nós falamos: “Esse é um momento de encontrar Deus, ou a força na qual cada um acredita, ouvir a respiração, os sons de dentro do nosso corpo, se desligar lá de fora”. E eles conseguem fazer isso.

Quando ingressam no Fundamental I, os alunos que fizeram a educação infantil na escola raramente apresentam problema de foco de atenção. Para os que apresentam, além das nossas atividades já regulares, entramos com a Neuroeducação.

São raros os casos de problemas com violência, de agredirem uns aos outros, mesmo numa fase púbere, em que há grande liberação de testosterona, que é conhecido como um hormônio da agressividade. Eles compreendem a lei de causa e efeito, a lei de trabalho.

Isso decorre em muito da nossa disciplina “Iniciação à Consciência”, que objetiva despertar, desenvolver e construir consciências humanas. Nós utilizamos um programa chamado “Moralizar”. Trabalhamos 42 leis, chamadas de naturais, universais ou divinas, atendendo ciência, filosofia e religiosidade. A gente não trabalha com religião, mas com religiosidade, espiritualidade.

Discutimos, por exemplo, a lei de causa e efeito sobre a perspectiva científica (toda causa tem efeito igual ou em sentido contrário), filosófica (toda ação provoca uma reação) e religiosa (quem com ferro fere, com ferro será ferido).

Trabalhamos lei de trabalho, ordem, calar, atração e repulsão (Isaac Newton). As educadoras trazem experimentos e os levamos a perceber se as noções funcionam no comportamento humano. Essa é a máxima da escola: a integração do conhecimento.

Nada é pautado apenas na ciência, apenas na filosofia ou apenas na religiosidade. O planejamento é assim. Se o assunto será lei de ordem, procuramos tratar disso no campo da ciência, da filosofia e da religiosidade.

CC: E se a família e/ou o educando não acreditarem em Deus e/ou em religião?

EA: Nós, enquanto instituição, como dito, não trabalhamos com religião da forma que estamos habituados a ver na sociedade, e sim com religiosidade/espiritualidade. Cremos na existência de um poder superior, que recebe diversas denominações, a depender da religião.

Desta forma, trabalhamos para formação dos valores morais, essenciais e comuns à composição da base das mais diversas religiões. O que percebemos, na verdade, é que as famílias nos procuram por conta de nossa preocupação com a formação do cidadão, de um ser humano com elevado grau de consciência.

São raros os casos de questionamentos diretos sobre Deus. Quando eles acontecem, buscamos levar a família a reflexões essenciais acerca de nossa existência. Quem somos afinal? Por quê e para que estamos aqui? Existe um exemplo curioso. Uma mãe disse o seguinte: “O texto fala de origem causal. Eu sei que vocês estão falando de Deus”. Eu respondi: “Mãe, você se autocriou?”. Ela disse: “Não”. “Você acredita no big bang?”. Ela disse: “Não, acredito na teoria evolucionista”. Eu respondi: “Pronto. Viemos do macaco. Mas quem criou o primeiro macaco?” Ela respondeu: “Olha, nunca pensei sobre isso.”

Eu disse que o físico e espiritualista Amit Goswami, no seu livro “Deus não está morto”, explica que ele era físico, e não físico quântico. Ele tentava comprovar tudo em números. O pai dele, num dado momento em que Amit o questionava sobre a existência de uma força maior foi, então, fazendo-lhe tantas perguntas que chegou um momento no qual ele ficou vazio. Disse então, Amit, que ali ele percebeu a impossibilidade de se autocriar, chegando à conclusão de que existiria algo que deu origem a tudo.

Se existe um criador, uma origem, vamos atrás dele(a), cada qual usando o veículo que quiser para chegar lá. Após esse bate papo com a mãe, ela apareceu dois dias depois com o marido e houve nova conversa.

Pensei o seguinte: “Se ela concordar com a ideia, manterá a filha na escola. Do contrário, irá tirá-la”. E ela manteve a filha aqui conosco. A mãe relatou que, embora parte do que discutíssemos em nosso trabalho fugisse às suas crenças agnósticas, o que tínhamos a oferecer de benefícios na formação de sua filha, era mais importante naquele momento. 

CC: Considerando que o projeto da escola é muito diferente do modelo dominante, como é feita a preparação do educador?

EA: Nossos profissionais são preparados pelo programa que batizamos de Capacitar, citado na primeira parte de nossa entrevista, que acontece às segundas-feiras. Como temos baixo nível de rotatividade, conseguimos uma sólida continuidade nos trabalhos de pesquisa e aprofundamento do programa de formação.

Temos também importantes parceiros externos, cuja troca de experiências e contribuição no desenvolvimento dos trabalhos é mútua. São elas a Fundação OCIDEMNTE (Organização Científica de Estudos Materiais, Naturais e Espirituais), através de seus projetos na área de educação e autoconhecimento; e o ISEO (Instituto Superior de Educação Ocidemnte) através dos cursos de graduação, pós-graduação e extensão, além do NEAC (Núcleo de Estudos Avançados em Autoconhecimento e Desenvolvimento Socioemocial) desta instituição.

Além disso, os profissionais que atraímos e selecionamos têm total afinidade com nossa forma de trabalho. A adesão irrestrita a nossa proposta de trabalho é condição sine qua non para fazer parte de nossa equipe.

Nós estamos, inclusive, colaborando com governo da Bahia para introduzir o projeto de Iniciação à Consciência em escolas públicas estaduais, e o resultado tem sido bastante satisfatório. 

Muita gente já está se dando conta do caos social. Ele é um fato, só não é visível àquelas pessoas que se alimentam dele ou que têm uma limitação cognitiva para compreender. Exceto tais hipóteses, as pessoas estão ao menos abertas a essa constatação, e ávidas por transformação. O governo do estado parece ter percebido isso e tem nos dados abertura para trazer nossa experiência à educação pública.

Quando se leva um projeto desse para uma escola, isso significa reformulação interna, e a maioria das pessoas está procurando uma revolução, pois estão carentes em seus níveis pessoais, profissionais e espirituais. Ao contrário do que se pensa, as pessoas estão buscando com muita intensidade uma transformação. 

CC: Parece que um dos principais problemas da sociedade brasileira é o seu senso social menor do que o existente em outros países, a pouca cooperação e a moral frágil. Há como desenvolver melhor esses aspectos do educando na escola?

EA: A proposta da escola por si só é inclusiva. As educadoras não tratam de forma diferente apenas crianças que têm hidrocefalia, autismo, Síndrome de Down etc. Elas não recebem um tratamento especial, mais humano. Esse tratamento é dado a todas.

As crianças, por sua vez, acabam compreendendo isso, até porque muitas começaram a ser educadas dessa forma desde os dois anos. Um exemplo que ilustra bem o que vemos aqui todos os dias é que houve um caso no qual uma criança estava descendo a escada e outra se bateu nela propositalmente por conta da cor dela. Um terceiro aluno que viu a situação interferiu e disse: “O sol nasce para todos”.

Isso já é uma decorrência de noções morais diferentes. A moral insere no indivíduo um conjunto de valores e tais valores são estudados nessa disciplina “Iniciação à Consciência” todas as sextas. Então, aqueles que manifestam algum tipo de problema, quase sempre, já são suavizados e mudados pelos próprios colegas, pois o exemplo vai, no mínimo, motivar, senão educar. 

CC: Conversando com outras pessoas, inclusive gestores públicos e outros envolvidos com educação, nota-se que um ensino mais holístico, que inclua a meditação, por exemplo, não somente é pouco compreendido, como ainda é um tabu para muitos.

EA: Um pai de aluno pediu que recebêssemos aqui o grupo de uma faculdade baiana e falávamos sobre isso. Uma das alunas perguntou algo muito próximo. Eu [Carina] propus uma experiência: “Vamos fechar os nossos olhos e fazer uma pergunta. Ninguém precisa responder. Você vai se perguntar: ‘eu sou feliz?’”

Eu dei algum tempo e disse a elas: “Isso já justifica a necessidade de implantação da meditação e dos exercícios de conectividade. As pessoas não estão felizes, pois elas procuram a felicidade fora. Elas se dizem infelizes por estarem sem o sapato que viram na loja. Quando compra, continua infeliz. Então, elas se dizem infelizes porque não têm o carro do ano. Ao comprarem, logo em seguida estão infelizes. Algumas se dizem infelizes pois não têm o namorado, o marido ou o filho que queriam, mas, ao conseguirem, logo em seguida estão infelizes”.

Eu disse isso e propus: “Vamos refletir com os olhos fechados, mas não precisa responder”. Após algum tempo, perguntei, enfim: “Onde está a felicidade?”. Todas responderam de forma unânime: “Dentro de nós”. Eu perguntei: “Qual a ferramenta que vamos utilizar para entrar em nós mesmos?”. Elas responderam: “A meditação”.

Basta perguntar a quem quer que seja a razão para a meditação ser praticada nas escolas e as pessoas, se refletirem calmamente, saberão responder. Do contrário, produziremos, no máximo, apenas intelectuais, que construirão bombas atômicas ou que atuarão na política como se faz hoje, em regra, no Brasil.

Eu [Fabiana] entendo que também é preciso dar a oportunidade de as pessoas experimentarem. Em todo curso que dou, faço um pouco de meditação com os alunos no início das aulas. No começo, parece uma brincadeira para eles. Muitos acham aquilo estranho. Quando eles provam só um pouco, acham muito bom e me cobram mais nas aulas seguintes.

A experimentação é muito importante, pois, se apenas falamos em meditação, muitos não conseguem nem ter uma ideia do que se trata. 

CC: Como o projeto da escola leva a uma educação mais reflexiva e menos superficial, enciclopédica?

EA: Um dos objetivos da disciplina “Iniciação à Consciência” é “saber pensar”. É uma prática de direcionar o pensar e aprofundar o raciocínio. É muito comum vermos as pessoas se queixando de algo que não é nem bem aquilo, pois não sabem pensar. Elas aceitam ou amam o que deveriam reprimir. Os valores são invertidos muito por conta da falta do despertar, do sentir, mas também do saber pensar.

Nós desenvolvemos uma prática de, por exemplo, pensar sobre “o que é ordem?”, “para que ordem?”, “por que ordem?”, “qual o método e os recursos para atingir a ordem?”.

Eu [Carina] fui professora de pós-graduação. É muito comum você perguntar a finalidade (para que?), e o aluno responder justificando. A maioria das escolas não aprofunda o raciocínio. Acabam formando indivíduos que confundem tudo: “o quê?”, “para quê?”, “por quê?” etc.

As escolas não estão se preocupando com o “ser” e nem mesmo com o “ter”, na verdade, pois este se limita a uma estrutura circense. Muitas escolas se tornaram quase shoppings, que estão desvalorizando a velocidade do ser humano de sair de um nível reptiliano para um nível de córtex pré-frontal. Nós temos as condições de racionalizar por conta do córtex pré-frontal, mas o nosso comportamento ainda é reptiliano, e o modelo predominante de educação se alimenta disso. 

CC: Aproveitando esse gancho, como está sendo aplicada a neuroeducação na escola?

EA: Todas nós somos pós-graduandas em estágio final no curso de Neuroeducação da professora Susan Liebig, de São Paulo/SP, e já estamos aplicando nas nossas crianças.

A Neuroeducação entende que todo indivíduo não possuidor de limitações físicas ou químicas tem condição de potencializar a expressão de sua genialidade. Dentro da Neuroeducação isso é possível através da aplicação de intervenções específicas para este fim.

Um exemplo de situação limitadora é uma criança que tem uma crença apoucada de si mesma. Nós tentamos ir ao sistema de referência, para a raiz do problema, e modificar essa estrutura de pensamento, fazendo-a perceber todas as suas potencialidades. A Neuroeducação também permite trabalhar aspectos limitantes da família. Recentemente, o Núcleo de Conscienciologia realizou um trabalho sobre “as preguiças”. A Neuroeducação divide “as preguiças” em física, mental, emocional e moral. Geralmente, elas caminham de forma relacionada.

Quando a criança tem uma dificuldade de fazer um exercício físico, quase sempre notamos que esse problema já vinha da própria família. Então, é preciso realizar um trabalho para que a família como um todo modifique esse padrão e não transmita comportamentos indesejados através das gerações.

Segundo a Neuroeducação, a preguiça física é herdada, passada através dos genes. As outras três são passadas por um processo social que vem sendo chamado pela ciência atualmente de Epigenética, ou seja, são transmitidos entre gerações sem que haja transferência por DNA, e a ciência já comprova isso. Se a pessoa observa aquela estrutura de comportamento sempre, vai acabar agindo de modo igual. 

CC: Os alunos são, em geral, da região em torno da escola?

EA: Não, por uma identificação com o projeto, muitos dos pais quebram a barreira da distância. Temos alunos de muitos bairros diferentes, de todas as distâncias. A maioria dos pais trabalha em universidades e têm alguma ligação com a educação, ou têm alguma ligação com o tema do autoconhecimento e consciência.