Vanguardas do Conhecimento

A virada da educação após a Idade Média

Após Roger Bacon, mas antes de Comenius, Rousseau, Pestalozzi e Rivail, Erasmo e Montaigne foram importantes no resgate da educação grega

Erasmo de Roterdã, figura de destaque no Renascimento holandês
Erasmo de Roterdã, figura de destaque no Renascimento holandês
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Em diversos textos e entrevistas, tratamos repetidamente neste blog de autores fundamentais para a construção de uma nova educação no Brasil, que seja mais prática, integral, moral, socioemocional, crítica e profunda. A espinha dorsal do pensamento sobre essa nova educação pode ser estabelecida em Comenius (1592-1670), Rousseau (1712-1778), Pestalozzi (1746-1827) e Rivail (1804-1869).  

Parte do que esses autores propuseram, contudo, já havia sido defendido e utilizado pelos gregos na Antiguidade. Após o período conturbado e dominado pelos dogmas da Igreja Católica na Idade Média, depois de Roger Bacon, mas antes de Comenius, dois pensadores foram fundamentais para realizar o resgate da educação grega e para iniciar a construção de uma nova visão, que deixasse para trás a escolástica medieval.

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Erasmo de Roterdã (1466-1536) nasceu 13 anos após a tomada de Constantinopla pelo Império Otomano, fato histórico considerado o marco do fim da Idade Média. Após estudos de boa qualidade na Holanda, tornou-se um dos principais pensadores do seu tempo, sendo um dos grandes responsáveis pelo Renascimento pós-medieval, uma transição para a Idade Moderna.

Erasmo influenciou muitos grandes pensadores da Modernidade, inclusive na educação. Seu pensamento resgatou o Humanismo, contrapondo-se à visão metafísica de caráter dogmático da escolástica. Como grande conhecedor da cultura greco-latina, que utilizou muito na sua principal obra “Elogio da Loucura”, Erasmo foi também responsável pelo resgate da concepção educacional da Grécia Antiga.

Ele foi um nome de destaque no Renascimento, assim como seu grande amigo Thomas More, autor de Utopia.

Erasmo volta a dar muito mais importância ao interior do homem do que ao externo, visão predominante na Igreja, que costuma situar o divino mais no exterior do que no interior. No início de sua obra A Civilidade Pueril, ele afirma que:

“A arte de instruir criança consta de diversas etapas. A primeira e a principal consiste em fazer com que o espírito ainda tenro receba as sementes da piedade; a segunda, que tome amor pelas belas artes; a terceira, que seja iniciada nos deveres da vida; a quarta, que se habitue desde cedo com as regras da civilidade”.

Nota-se em Erasmo uma visão de educação menos acadêmica, semelhante à dos gregos, preocupada centralmente com a formação de consciência, calcada, no trecho acima, em ideias como piedade, amor pelas belas artes, cumprimento dos deveres morais e das regras de civilidade.

Em seguida, ele afirma que, naquela obra referida, se aterá mais às regras de civilidade, então passa a expor sobre elas:

“Muito embora, sejam as corretas atitudes do corpo espontâneas numa índole boa, não raro ocorre constatar que, por falta de disciplina, elas ficam a desejar em certos indivíduos honestos e eruditos.

[…] É de todo conveniente que o ser humano seja bem composto nas atitudes, nos gestos e no modo de trajar-se.

A modéstia cabe bem em criança, principalmente nos filhos dos nobres. A bem dizer, há de reputar por nobre todo aquele que cultiva seu espírito com a prática das belas artes”.    

Seguindo a linha da Grécia Antiga, Erasmo entende por nobre aquele que cultiva a nobreza, ou seja, sentimentos virtuosos, os bons modos e o espírito com a arte. Essa visão pouco tem a ver com a predominante nos últimos tempos no Ocidente, que tem por nobres os detentores de poder político e/ou econômico.

No período em que o Brasil era descoberto, Erasmo, como Michel de Montaigne (1533-1592) e outros, foi um grande crítico da educação rígida e formalista da escolástica, que predominou no próprio Brasil ao longo de quase todo o período colonial, durando até o século XIX e mantendo sua influência ainda hoje, mesmo que com menor força. 

O Renascimento foi um período de muita valorização da liberdade de pensar e agir, contrapondo-se ao rígido controle exercido pela Igreja ao longo da Idade Média. Veio a ideia de uma educação que desse mais liberdade ao educando, que compreendesse sua integração com a natureza e que fosse mais prática, capaz de prepará-lo para a vida, e não apenas para teorizar e respeitar a Deus com base numa visão dogmático-religiosa.

Montaigne já defendia que “as crianças devem aprender o que vão fazer quando adultos”. Estava a clamar por uma educação mais pragmática, útil durante a vida, em vez de uma abstrata, teórica e formalista, predominante ainda hoje no Brasil. Ele é considerado por alguns o primeiro pragmatista utilitarista, mas vimos que Roger Bacon havia desenvolvido propostas similares muito antes.  

Enquanto bebia do conhecimento dos gregos, citando Plutarco e vários outros, Montaigne era um crítico à educação “livresca”, centrada no conhecimento e pouco vivida.

Infelizmente, ainda hoje no Brasil, a educação é bastante “livresca”, mas no seu pior aspecto, pois bastante limitada a manuais e cursos enciclopedistas, formais e abstratos, e quase nada pautada nos grandes pensadores, na sábia reflexão crítica e prática. 

Montaigne pregava também que, em vez de ser rígida, de deixar as crianças enfadadas e tornar os professores tiranos, a educação deveria ser doce, algo também defendido por Comenius e Rousseau, e marca da educação praticada por Pestalozzi e Rivail.

A respeito do tema, em um dos seus “Ensaios”, Montaigne dizia: “Devemos fazer com que, onde as crianças encontrem seu proveito, encontrem primeiro seu prazer. Devemos adoçar os alimentos saudáveis para as crianças e colocar fel nos que lhe são nocivos”.

Além de amorosa e prazerosa, Montaigne, assim como a Paidéia dos gregos, sustentava uma educação integral, que fortalecesse a alma e o corpo, sendo a primeira entendida como o interior, a consciência, e o segundo como a parte física, uma dependente da outra.

Montaigne dizia o seguinte: “Não basta fortalecer a alma, também é preciso endurecer-lhe os músculos. A alma é pressionada demais senão for amparada; e já tem muito a fazer para acudir, sozinha, as duas tarefas”.  

E continuava: “É preciso acostumá-lo ao sofrimento e à dureza dos exercícios, a fim de treiná-lo para o sofrimento e a dureza da luxação, da cólica, do cautério e da prisão. Pois ele pode ser exposto a qualquer uma delas, uma vez que atingem tanto os bons quanto os maus”.

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A educação dos gregos voltada para a primazia física, também defendida por Montaigne, é algo que quase não se vê hoje no Brasil, momento em que as aulas de educação física são isoladas e muito mais utilizadas para prática descompromissada de esportes e entretenimento.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, na China, na Rússia, em Cuba e em vários outros países, o físico e os esportes são levados muito a sério, gerando uma porção de benefícios à sociedade, dando, inclusive, mais oportunidades aos talentosos em inteligência cinestésica-corporal a conseguirem realizar os seus sonhos.

Montaigne também defendia uma ideia semelhante ao que se entende hoje por Aprendizagem Socioemocional. Quando perguntado sobre a educação das habilidades sociais, ele respondeu: 

“Que o instruam sobretudo para render-se e depor as armas diante da verdade, sem demora, assim que a perceber, quer ela surja das mãos de seu adversário, quer surja nele mesmo por alguma consideração. O silêncio e a modéstia são qualidades muito úteis na conversação”.

Se tais habilidades socioemocionais fossem bem trabalhadas na educação, haveria um cenário muito diferente daquele visto recentemente no Brasil de disputas desequilibradas, agressivas e desinformadas acerca de temas políticos, econômicos, sociais e outros.

Os caminhos para uma reforma educacional que mexa nas estruturas e tenha efeitos práticos em não muito longo prazo estão quase todos traçados ao longo da história pelos maiores sábios. Como a sociedade não é educada para estudar os sábios e selecionar sabiamente as leituras, as discussões permanecem, em regra, simplórias, tangenciais e superficiais.

Se utilizarmos apenas Sócrates, Platão, Plutarco, Roger Bacon, Erasmo, Montaigne, Comenius, Rousseau, Pestalozzi, Rivail e Montessori, já teremos conteúdo suficiente para revolucionar a educação brasileira, bastando apenas adequar as teorias e práticas apresentadas por eles ao contexto específico, aproveitando todos os avanços ocorridos em termos teóricos e práticos de lá para cá.      

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