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A intervenção militar no Egito e o Brasil

Vanguardas do Conhecimento

Alguns têm pedido uma intervenção militar, pois julgam que o Brasil precisa de pulso firme contra a corrupção e os militares seriam a saída. Vale a pena, então, olhar como está um dos poucos países do mundo ainda sob intervenção militar. 

O Egito é talvez o melhor exemplo, pois lá as eleições democráticas são a exceção, e não a regra. O país tem estado sob intervenção em mais de 98% do tempo nos últimos 65 anos, uma vez que, após a revolução de 1952 que concluiu o período de colonização britânica iniciado oficialmente em 1880, praticamente só os militares governaram o país.

O Egito tem economia pautada basicamente na agricultura, numa indústria que não emprega nem 20% da força de trabalho, num turismo em decadência por conta da instabilidade do país, na exportação de petróleo e de gás natural, e nas tarifas cobradas pela travessia dos navios no canal de Suez.

Como no Brasil, o Egito não teve um plano recente de industrialização em busca de complexidade, nem um decente aperfeiçoamento das suas instituições e políticas com vistas em mais igualdade de oportunidades para todos, sobretudo com base num imprescindível avanço da educação.

Após os governos de Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (1961-1961) e João Goulart (1961-1964), o Brasil teve um grande crescimento do seu setor industrial e bom aumento de complexidade.

Apesar do endividamento, da alta inflação e de outros problemas gerados no governo JK, o seu grande foco, impulsionado pelo movimento fordista, na infraestrutura e no aumento de complexidade da indústria brasileira, levaram a um período de bom crescimento econômico, erradamente atribuído por alguns aos militares, que assumiram após um golpe em 1964 para retirar do poder à força o presidente Jango, que assumiu após Jânio não suportar as pressões e renunciar.

Jango viria a falecer em 1976 dessas formas meio suspeitas que acontecem em intervenções militares. Muitos acreditam que ele foi envenenado.

Como mostram estudos de Thomas Piketty e Marc Morgan Milá, a redução da desigualdade de renda que vinha acontecendo no Brasil desde a década de 50 até meados da década de 60 começou a ser revertida ao longo da intervenção militar.

No Egito sob intervenção, Hosni Mubarak governou por quase 30 anos (1981-2011), lembrando alguns dos longos governos monárquicos/faraônicos que marcaram a história antiga do país. Ele assumiu após o assassinato (!) do presidente Anwar El Sadat em 1981, utilizando como seu principal recurso normativo uma lei semelhante ao made in Brazil Ato Institucional n. 5 (1968), que, dentre outras arbitrariedades, estendia demais os poderes policiais, legalizava a censura e suspendia outros direitos constitucionais.  

Leia também: Egito: a formação de uma sórdida ditadura

Não bastasse o fato de governar com pulso de ferro por três décadas, Hosni Mubarak preparava seu filho Gamal Mubarak para sucedê-lo no cargo, num movimento típico dos faraós. Em 2011 uma forte sequência de protestos, que resultaram na morte de quase 1.000 pessoas devido à pesada repressão militar, provocaram o afastamento forçado de Mubarak.

A chamada Revolução Egípcia de 2011 foi causada por elementos típicos de uma intervenção militar: violência da polícia, rejeição da população a diversas regras típicas de estado de exceção, alto desemprego, baixo salário mínimo, falta de moradia, muita corrupção velada pela falta de liberdade de expressão e assim por diante.

Insustentável no cargo, Mubarak deixou o governo e foi feita uma transição que resultou na chegada ao poder do primeiro presidente eleito democraticamente de toda a história do Egito, que nem completou o seu 13o mês no cargo por ser vítima de um novo golpe militar.

Mohamed Morsi, do Partido da Liberdade e da Justiça (PLJ), assumiu em 30 de junho de 2012. O PLJ foi criado de última hora, para participar das eleições, pela Irmandade Muçulmana, antigo grupo islâmico com visões muito conservadoras. A mudança de Mubarak para Morsi tirou o Egito das garras de um governo militar ditatorial para um governo religioso ortodoxo pseudodemocrático.

Além da corrente pela intervenção militar, a corrente religiosa conservadora é outra forte defensora do retrocesso no Brasil. No sumo, os princípios dos dois grupos não diferem tanto: intolerância em relação a outras formas de pensar, imposição das suas ideias ortodoxas e truculência, seja de forma ditatorial clara, seja por vias pseudodemocráticas.

Como era de se esperar, a ascensão à presidência de um religioso ortodoxo deixou no Egito muitos prejudicados: liberais, cristãos, mulheres e outros grupos desprivilegiados dentro daquele governo eleito democraticamente, mas pouco democrático nas suas decisões.

Ao perceber que estava sendo redigida uma nova Constituição direcionada para um Estado focado nos adeptos da religião à qual aderia o presidente de maneira ortodoxa, começaram novos protestos no Egito, que resultaram na publicação por Morsi de um decreto que conferia a ele próprio amplos poderes. A longa tradição ditatorial do país, que realmente não é fácil de reverter, se mantinha mesmo após eleições democráticas.

Após a apresentação do texto da nova Constituição ao final de novembro de 2012, os protestos e a violência abriram espaço para que os militares usassem o velho discurso da ordem e terminassem realizando novo golpe em julho de 2013.

É difícil decidir o que é pior: um governo militar ditatorial ou um governo religioso ortodoxo pseudodemocrático sustentado pela truculência militar. Com os acontecimentos desde 2011 e a enorme instabilidade, o turismo no Egito, atividade central da sua economia e que sustentava muitos dos menos favorecidos, caiu drasticamente.

O PIB vem crescendo nos últimos meses por conta da descoberta de um gigantesco campo de gás natural no norte do país em 2015, o que elevou as exportações. A população em geral, no entanto, não vê esse dinheiro “escoar” para baixo, como deveria acontecer segundo muitos economistas ortodoxos.

A imensa maioria da população do Egito é pobre, assim como no Brasil. A intervenção militar não tem funcionado bem para os egípcios, a não ser para menos de 10% deles.

Segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) publicado em 21 de março de 2017, apesar de ter um dos 10 maiores PIBs do mundo por conta de sua grande população e de suas riquezas naturais, o Brasil era o 79o colocado, enquanto que o Egito, apesar de ter um dos 40 maiores PIBs, era o 111o.

Estive pessoalmente no Egito em junho deste ano e foi possível observar alguns dos fatores que contribuem para a situação do país. Apesar de a população ser extremamente religiosa, a educação é de baixa qualidade.

Os mais humildes têm poucas chances de mudar de vida e muitos terminam trabalhando com pequeníssimos negócios por meio dos quais tentam a todo custo cobrar dos turistas 3 ou 4 vezes mais do que vale o bem ou serviço, ao passo em que outros vivem a pedir esmolas ou a tentar criar situações muito desconfortáveis para os turistas nas quais dão algum auxílio a eles, ou fingem que dão, para depois exigirem, às vezes ostensivamente, gorjetas em troca.   

Conheci pessoas boas no Egito, mas também tive incontáveis desconfortos por conta da falta de educação moral. Além disso, apesar das grandes belezas naturais, arquitetônicas e históricas, o país é precário em termos de limpeza urbana e infraestrutura, apesar de que as estradas ainda são, em regra, melhores do que as brasileiras.

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A falta de conexão necessária entre religião e consciência fica óbvia no Egito e em outros países. As religiões podem ser seios maravilhosos de convivência, aprendizado e ajuda ao próximo, mas terminam, não raro, se tornando crias de fanáticos intolerantes e ensimesmados nos mais diferentes graus. Também acontece no Brasil.

Uma população consciente passa, dentre outras coisas, por uma educação de alta qualidade que ensine o aluno a amar-se e a amar o próximo, criando uma maior amplitude de percepção sobre quem ele é (autoconhecimento) e sobre quem os outros são (alteridade), gerando, assim, grande respeito por todos (empatia).

A conclusão sobre o Egito é óbvia: um país sem democracia ao menos razoável gera arbítrios e concentração de oportunidades, ocasionando graves efeitos negativos não somente para os mais pobres, como para toda a população e até para os turistas. Guardadas as devidas dessemelhanças entre os países, no Brasil hoje não é muito diferente. Imagine se houvesse uma nova intervenção militar por aqui!

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