Observatório do Banco Central

Formado por economistas da UFRJ, analisa a economia suas relações fundamentais com a moeda e o sistema financeiro

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Vem aí um novo choque internacional de juros?

Somente quem compartilha de uma visão reducionista da dinâmica inflacionária é quem preconiza um único remédio para combatê-la

Famílias endividadas: juros altos transformam contas em uma “bola de neve”. Foto: Reprodução
Famílias endividadas: juros altos transformam contas em uma “bola de neve”. Foto: Reprodução
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No início da década de 1980, Paul Volcker (então presidente do FED) gerou uma catástrofe macroeconômica para a maioria dos países em desenvolvimento, particularmente para os latino-americanos. Foi o gatilho que detonou a crise da dívida (dolarizada, importa frisar) que assolou o Brasil e seus vizinhos.

Claro que não se tratou de ato deliberado. Volcker estava em uma situação delicada. O efeito inflacionário dos choques do petróleo (segunda metade dos 1970) se acumulou e a inflação (ao consumidor) alcançou o pico de 13,55% no ano de 1980. Para se ter uma ideia, a inflação média da década anterior ao primeiro choque do petróleo de 1974 foi de 2,65%. Já o índice de preços ao produtor subiu 14,24% no ano de 1980. A atividade econômica de 1979 para 1980: GDP variou 8,75%, enquanto que o Real GDP variou -0,26%. 

A lição tirada desse episódio é simples: o uso incondicional de uma política anti-inflacionária equivocada tende a ser desastroso. Disso pouca gente discorda. O que se pergunta é: Powell entrará para história como um novo Volcker?

As condições atuais se assemelham ao cenário que motivou Volcker a dar seu choque de juros. O fantasma da deflação, que rondou a maioria das economias desenvolvidas na última década, não apenas se foi como a inflação parece ter saído do controle nos EUA. A inflação (ao consumidor) alcançou o pico no mês de março. Tendo esse indicador acumulado variação de 8,5% em 12 meses. A inflação ao produtor também está elevada para os padrões norte-americanos, em 11,5%. 

Para complicar ainda mais a situação de Powell, ainda se faz presente o efeito defasado e acumulado de uma flexibilização sem precedentes da política monetária – inaugurada por Bernanke em resposta à crise do subprime de 2008, no âmbito da chamada flexibilização quantitativa.

O que mais preocupa é o fato de que Powell – assim como Volcker – se baseia em uma visão equivocada (ou apenas parcialmente correta) da natureza da inflação e, portanto, adota política de estabilização de preços inapropriada. Ambos compartilham da chamada visão monetarista da inflação: a causa fundamental da inflação é o excesso de demanda agregada – seja resultante de um aumento da quantidade moeda (explicitamente assumida por Volcker) e/ou de um aumento do déficit público (visão atualmente dominante).

O problema é que a inflação é um fenômeno complexo, com múltiplas causas. O jargão da medicina nos ajuda. A alta generalizada dos preços é um sintoma que pode decorrer de várias enfermidades. Estas, por sua vez, têm origens diversas – que extrapolam as causas genuinamente econômicas (política econômica, por exemplo) –, tais como: geopolítica (guerra da Ucrânia, por exemplo), sanitária (Pandemia, por exemplo) etc.

Somente quem compartilha de uma visão reducionista da dinâmica inflacionária (uma causa: excesso de demanda) é quem preconiza um único remédio para combatê-la: aumento da taxa de juros. O leitor informado deve lembrar-se de que o FED de Volcker praticava o chamado regime de metas monetárias que, em larga medida, difere do regime de metas de inflação. Porém, ambos os regimes encontram seu fundamento teórico na visão monetarista da inflação. (Não cabe aqui detalhar o argumento subjacente; convidamos o leitor interessado a ler “Regimes Monetários: teoria e a experiência do Real”, escrito por A.M. Modenesi e publicado pela Editora Manole, em 2005).

Voltando para o FED. Em ambos os casos, o processo inflacionário se origina de choques de custos. No primeiro, foi a explosão dos preços do petróleo – insumo de utilização quase universal.

Contemporaneamente, o gatilho foram as restrições à oferta decorrentes da pandemia da Covid. Com as medidas de confinamento, vários insumos se tornaram escassos e/ou mais caros. Por exemplo, o custo do frete marítimo aumentou, assim como o preço da energia/ gasolina. Além disso, a invasão da Ucrânia pela Rússia alimentou ainda mais esse processo inflacionário. Finalmente, o mercado de trabalho encontra-se bastante aquecido. Concluindo, a história já mostrou que o combate a uma inflação de custos com choque de juros é uma estratégia equivocada. Esperamos que Powell não se torne o Volcker do século XXI.

Andre de Melo Modenesi
Professor do Instituto de Economia da UFRJ. Pesquisador do CNPq e da FAPERJ. Coordenador do Observatório do Banco Central.

Kleyton da Costa
Economista pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pesquisador da Rede de Grupos de Pesquisa Pós-Keynesianos do Rio de Janeiro

Carolina Senna
Graduanda do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisadora do Observatório do Banco Central.

Matheus Souza
Graduando do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Observatório do Banco Central.

Paula Lima
Graduanda do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisadora do Observatório do Banco Central.

Pedro Faulhaber
Graduando do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Observatório do Banco Central.

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