Um breve século XXI?

Hobsbawn dividiu seu 'breve século XX' em três períodos. O que esperar de um mais que provável 'breve século XXI'?

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Foto: AFP

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Foto: AFP

Observatório do Banco Central

Há não muito tempo, o desfecho espetacular do “breve século XX” (1924-1991) de Hobsbawm parecia ser, para muitos, o início de uma nova era. As crises financeiras que sacudiram países emergentes nos anos 1990, entre eles a nova Rússia pós-soviética, seriam apenas as dores do parto da Nova Ordem em que as potências do Atlântico Norte, Estados Unidos à frente, assumiriam em definitivo a direção moral do “admirável mundo novo” que emergia sob a forma de um grande mercado planetário.

O sonho de um “longo século XXI” à sombra da democracia liberal vitoriosa, o que , para alguns, representaria nada menos que o “fim da história”, não durou muito. O atentado às torres gêmeas em Nova Iorque, em 2001; a crise financeira de 2008, e a pandemia da Covid-19, em 2020, se afiguram como candidatos muito mais convincentes a marco inicial de um provável “breve” século XXI marcado pela incerteza. Quão breve ele será?

Outro aspecto é a ascensão espetacular da China. Não mais somente pelas taxas de crescimento elevadas, mas principalmente o impressionante salto tecnológico que colocou os chineses, em poucos anos, na vanguarda da economia digital. Fala-se em uma nova guerra fria entre os EUA e o gigante asiático. A estratégia chinesa tem como trunfo uma economia fortemente integrada às cadeias produtivas globais e um grande superávit comercial, além de enorme reservas cambiais, o que dificulta, ao limite da inviabilidade, tentativas de conter sua expansão.

O contraste entre o “milagre chinês” e o desempenho medíocre das economias centrais na última década ameaça o domínio do “pensamento único” em política econômica. O fracasso do fiscalismo neoliberal, desnudado pela crise de 2007-2008 e agravado pela pandemia em 2020, evidencia a necessidade de alternativas.

Três décadas de guerra “preventiva” patrocinada pela potência dominante e seus aliados no Oriente Médio, cujo resultado tem sido apenas trazer ainda mais instabilidade para a região, fazem os antigos sonhos de hegemonia parecerem ainda mais distantes.

Os efeitos perversos da transição para a “economia digital”, agravados pela pandemia, mostram-se nas taxas de desemprego e na crescente precarização laboral. Medidas de sustentação da demanda via redistribuição não parecem mais ir além de seus objetivos imediatos, tendo efeitos limitados sobre o crescimento. Ao mesmo tempo, o fiscalismo hegemônico corrói os já fragilizados sistemas de proteção social e restringe a capacidade de investimento, em proveito uma ínfima minoria de detentores de ativos financeiros: o proverbial “um por cento” e suas frações. O pano de fundo deste quadro sombrio é a crise ecológica e a ameaça do aquecimento global, que poderá ter um custo humano extremamente elevado. E certamente tão mais elevado quanto mais pobres os países e suas populações.

A atual combinação de guerra cultural, disputa geopolítica, crise ecológica, emergências sanitárias, excedentes populacionais e transformações tecnológicas é potencialmente catastrófica

Em meio a isso, aumenta o cortejo de insatisfeitos e excluídos da carcomida “nova ordem”. Amplia-se, no coração do Ocidente, o desencanto com a democracia parlamentar como dispositivo de concertação do conflito social. A difusão das tecnologias digitais e das plataformas de interação social, além da formação de bolhas de opinião pela ação de algoritmos cuja finalidade é aumentar o “engajamento” dos usuários a qualquer preço, criou meios propícios à ampliação de escala das “guerras culturais” e à disseminação epidêmica de informação distorcida, bem como sua instrumentalização para fins políticos.

Especialmente a partir do plebiscito do Brexit no Reino Unido e das eleições presidenciais norte-americanas, em 2016, o diagnóstico da “crise da democracia” tornou-se moeda corrente no mesmo Atlântico Norte que, até bem pouco tempo, festejava o triunfo supostamente definitivo da democracia liberal.

Previsivelmente, os efeitos da crise se estenderam a democracias mais frágeis. Ao avanço da extrema-direita xenófoba na velha Europa e à radicalização dos antagonismos políticos nos EUA, sucederam-se retrocessos democráticos nos países “emergentes”.

O enfraquecimento da liderança moral dos EUA, – que, diga-se de passagem, não começa com Trump – veio de par com a utilização mais ostensiva de meios de guerra “não-convencional” na persecução dos seus objetivos estratégicos. Na disputa com a China, forçam alinhamentos e pressionam os “emergentes”, em particular na América Latina.

As primeiras medidas do governo Biden sugerem uma importante mudança de rumo; no combate à pandemia e seus efeitos, mas, principalmente, na gestão econômica. Aparentemente, o trumpismo soou algum alarme no establishment democrata. O reflexo desta reorientação nos países ditos “emergentes” é uma questão ainda em aberto. No Brasil, os fiscalistas de plantão desdenham da bidenomics: inexequível abaixo do equador. Por outro lado, a mensagem moral elusiva – faça o que eu digo (austeridade), não o que eu faço (expansão do gasto) – não é novidade em se tratando dos EUA

Entramos na terceira década do século em meio a dúvidas e impasses. Quão breve poderá ser um possível “breve século XXI”?

O século iniciado pelo atentado às torres gêmeas em Nova Iorque é aquele da guerra moral infinita, da segurança interna imperial acima de qualquer veleidade de soberania alienígena, que se prolonga na disputa geopolítica entre as potências e seus satélites.

Por sua vez, a crise de 2008 trouxe a chance, afinal desperdiçada, de um início mais benigno, com a introdução de reformas que limitariam o parasitismo financeiro e dariam um rumo mais sustentável e menos desumano à economia mundial.

Em 2020, com pandemia da Covid-19, estamos diante da primeira catástrofe sanitária de alcance realmente planetário pós-globalização. Haverá algum aprendizado ou correção de rumos?

Hobsbawn dividiu seu “breve século XX” em três períodos: uma “era das catástrofes”, correspondendo ao período das Grandes Guerras; a “era de ouro” subsequente; e o “desmoronamento” dos anos 1970, que, de certa forma, se estende até os nossos dias. Ainda estamos sob seu efeito.

O que esperar de um mais que provável “breve século XXI”? Possivelmente será tão mais breve quanto mais catastrófico. A escolha da data que melhor assinala seu início dependerá de seu desfecho.

A atual combinação de guerra cultural, disputa geopolítica, crise ecológica, emergências sanitárias, excedentes populacionais e transformações tecnológicas é potencialmente catastrófica, e razão mais do que suficiente para acender todos os alertas. No Brasil, o quadro se completa com a pior recessão da história e outra “década perdida”.

Descartadas saídas ilusórias como “cidadania global em rede”, e para que o futuro da humanidade não tenha que depender exclusivamente de “elites esclarecidas” ou termine em uma Arca de Noé, é preciso sobretudo que os países ditos emergentes, aqueles com maior risco de submergir, se organizem e se façam ouvir.

O primeiro e decisivo passo é despedir as elites políticas e econômicas que não têm compromisso com suas populações.

 

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Cientista social, doutor em Antropologia pelo Museu Nacional/UFRJ, coordenador executivo do projeto de prospecção estratégica Brasil Saúde Amanhã, da Fiocruz

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