Tragédia do horizonte temporal: a mudança climática é um problema de longo prazo?

A tragédia do horizonte temporal mostra o papel essencial que os bancos de desenvolvimento têm a desempenhar

Foto: Oliver Scarff/ AFP

Foto: Oliver Scarff/ AFP

Observatório do Banco Central

Como era de se esperar, o debate da COP-26 se intensifica sobre as coalizões e mecanismos para enfrentar a crescente emergência climática. Central ao tema, e protagonista do evento, está o financiamento da transição para uma economia mais justa, verde e sustentável.

A mensagem do recente relatório do IPCC foi clara: estamos ficando sem tempo para concretizar a meta de manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2ºC, conforme estabelece o Acordo de Paris, quanto mais os ambiciosos 1,5ºC. Ou seja, a reversão do cenário catastrófico que se aproxima necessita de ações urgentes e drásticas.

Surge aí o que Mark Carney, veterano dos bancos centrais do Canadá e do Reino Unido, chamou de “tragédia do horizonte temporal”. O termo, cunhado por ele em 2015, explica como os impactos da mudança climática imporá às gerações futuras um custo que a geração atual não tem incentivo para corrigir. A tragédia é definida como o desencontro entre o prazo de maturação de um projeto de investimento verde e o período em que o governo (não o Estado) ou os investidores privados requerem seus lucros ou externalidades. Um corolário infeliz da Tragédia do Horizonte Temporal é que as gerações mais afetadas por esse processo, algumas das quais ainda sequer nasceram, possuem muito pouco controle sobre ele.

O processo de transição sustentável requer uma nova forma de funcionamento do Estado, com apoio e subsídios para o financiamento de longo prazo. O período de maturação do investimento verde contraria a atual visão curto prazista dos ciclos financeiros, de negócios, políticos e do horizonte dos bancos centrais, supervisores e reguladores. Tem-se, portanto, um contraste entre as necessidades reais da economia e a possibilidade dos mercados financeiros.

Para resolver essa questão, é preciso reordenar as políticas públicas, reintroduzindo na agenda do governo o planejamento de longo prazo. Requer, também, que os fluxos financeiros sejam direcionados para o custeio desse processo. A comunidade financeira é fundamental para provocar a mudança sistêmica necessária para colocar o mundo em um caminho mais sustentável. E é vital que esta mudança ocorra de forma ponderada e transparente.

As finanças sustentáveis têm avançado consideravelmente rumo ao aumento da oferta de financiamento aos projetos verdes e sustentáveis. No entanto, ainda não resolveram a questão do estímulo curto prazista do mercado financeiro

À medida que a frequência e a gravidade dos eventos climáticos aumenta, análises financeiras em diversos países já incorporam melhorias a suas modelagens de risco. Considerando também o horizonte de longo prazo, os principais bancos centrais do mundo estão atuando de forma proativa no incentivo a medidas e ações conjuntas com outros atores (esferas governamentais, sociedade civil, setor privado). O objetivo é proporcionar, durante a transição, estabilidade e maior resiliência ao sistema financeiro.

A tragédia do horizonte temporal mostra o papel essencial que os bancos de desenvolvimento têm a desempenhar.  Os bancos de desenvolvimento, orientados pela missão de financiar a transição verde sustentável, poderão minimizar o descasamento intertemporal do investimento e lucro, atraindo investimentos privados e direcionando o fluxo financeiro para uma economia sustentável. O mercado privado, por si só, não fará alocações eficientes, sem direcionamento, regulação e supervisão.

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Economista e Pesquisador do FINDE.

Economista, pesquisadora do Finde

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