Observatório do Banco Central

Formado por economistas da UFRJ, analisa a economia suas relações fundamentais com a moeda e o sistema financeiro

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Quanto mais a economia afundar, melhor?

Um regime em que o combate à inflação e crescimento são excludentes não deve ser aceito como inevitável

Foto: iStock
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No fim de junho passado, repercutiu bastante uma declaração de Luiz Parreiras, gestor da Verde Asset: “Quanto mais rápido a economia afundar, melhor”. A afirmação dizia respeito ao combate à inflação e reflete a ideia de que a recessão é condição necessária para baixar as altas taxas atuais. Mais que insensibilidade à já complicada situação econômica e social do país, a afirmação deixa clara a lógica do regime de metas de inflação, a RMI.

É fácil entender a atuação de um banco central sob o RMI: se a inflação (ou a expectativa de inflação) está acima da meta, o banco central eleva os juros e vice-versa. Essa facilidade de entendimento pelo público é inclusive apontada como um dos pontos positivos desse regime. De maneira geral, uma elevação de juros contrai a atividade econômica, dificultando o repasse de aumento de custos pelas empresas. Além disso, trabalhadores reduziriam suas demandas salariais, aceitando aumentos menores que a inflação, por receio de perderem o emprego. Em suma, o RMI parte do pressuposto de que a inflação é sempre um problema de demanda, por isso a redução do crescimento seria a solução lógica.

O RMI parte de conceitos interrelacionados que indicariam estágios “neutro” da economia, ou seja, em que não haveria aceleração nem redução da inflação. Entre os principais conceitos, temos:  Taxa neutra de juros, aquela que mantém a inflação estável (sempre é bom reforçar que continuará havendo elevação de preços, mas o ritmo de elevação ficará estável); Produto potencial: o nível de produção no qual não há pressões salariais e de custos; E taxa natural de desemprego, aquela que não acelera a inflação, muito conhecida por sua sigla em inglês NAIRU. Portanto, em casos de inflação acima da meta, bastaria levar a taxa de juros acima da neutra, o que levaria o produto abaixo de seu potencial e a taxa de desemprego acima do nível natural.  

Dois problemas surgem dessa lógica “simples”. O primeiro é que nenhuma dessas variáveis são diretamente mensuráveis. Para medir a taxa de desemprego, por exemplo, são analisados dados de contratação e demissão de trabalhadores (CAGED) e pesquisas em que pessoas são perguntadas se estão trabalhando, procurando emprego, etc. (PNAD contínua). Mesmo reconhecendo as limitações de tais métodos, são formas objetivas de mensuração. Já a taxa neutra de juros, o produto potencial e a taxa natural de desemprego são estimadas por diferentes modelos econômicos, não há como medir de forma objetiva tais valores, por isso são chamadas de “não observáveis”. Ou seja, aqui os BCs estão mirando em um alvo que eles nem sabem ao certo onde estão. Se a estimativa da taxa natural de desemprego for de 6%, por exemplo, mas ela na verdade for de 4%, quer dizer que o BC vai elevar o desemprego desnecessariamente.

O outro problema é que essas taxas podem mudar no curto prazo. Uma contração da atividade econômica, por exemplo, que leve ao fechamento de empresas e aumento do desemprego acaba por reduzir a capacidade produtiva da economia, fazendo com que o ritmo de atividade econômica que não acelera a inflação (produto potencial) caia e, consequentemente, a taxa neutra de desemprego suba. O caso brasileiro recente ilustra isso, pois mesmo depois de elevar a SELIC em 11,25 pontos percentuais entre março de 2021 e junho de 2022, o BCB alterou sua estimativa de taxa neutra de juros de 3,5% para 4% (taxa real, já descontada inflação). É uma lógica perversa, em que o remédio (recessão) faz com que mais doses sejam necessárias para a cura.

E aí voltamos para outra notícia recente, a de que o BCB estaria olhando com mais atenção para os salários como uma possível fonte de pressão inflacionária. Os dados mais recentes mostram, no entanto, que o quadro do mercado de trabalho é de queda no desemprego acompanhada de estagnação no rendimento médio real. E apesar da queda, o desemprego ainda é de mais de 9%, um cenário longe do ideal. Ainda segundo a notícia, para alguns especialistas o país já estaria próximo à taxa natural de desemprego. Se for esse o caso (lembrando que não é um dado observável), o que deve fazer o BCB? Piorar a precária situação do emprego?    

O BCB tem entre seus principais objetivos tanto controlar a inflação, como suavizar as flutuações do nível de atividade e fomentar o pleno-emprego, mas essa conciliação de objetivos, fere a própria lógica do RMI. É preciso, assim, repensar o instrumento, não sendo leniente com a inflação (aceitando um pouco mais de inflação para não aumentar o desemprego) e sim se municiando de mais instrumentos[1], que possam agir também sobre o lado da oferta. Nas recentres altas de preços de alimentos e combustíveis, por exemplo, seriam necessárias políticas de regulação de estoques de alimentos essenciais e amortecimento de repasse de aumentos internacionais dos preços de petróleo, algo que era feito até poucos anos atrás. São instrumentos complementares, não substitutos.  

Um regime em que o combate à inflação e crescimento são excludentes não deve ser aceito como inevitável. Ele é uma escolha – e enquanto não for aprimorado, ainda haverá lógica na ideia de que quanto mais a economia afundar, melhor.

Adriano Vilela Sampaio
Professor de economia na UFF e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (Finde)

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