Os bancos centrais e a agenda da sustentabilidade

O Banco Central do Brasil é o segundo em ranking de sustentabilidade. Quando abraçará outras tendências mundiais?

Os os bancos centrais levam em conta os riscos que a devastação ambiental e as mudanças climáticas impõem sobre a política monetária e a estabilidade do sistema financeiro (Foto: iStock)

Os os bancos centrais levam em conta os riscos que a devastação ambiental e as mudanças climáticas impõem sobre a política monetária e a estabilidade do sistema financeiro (Foto: iStock)

Observatório do Banco Central

Em ano de pandemia, os bancos centrais foram convocados para garantir a estabilidade financeira, mas sem agravar mudanças climáticas e ambientais. Para mitigar a crise econômica, essas instituições têm concedido empréstimos e comprado ativos de empresas em dificuldade financeira.

Ativistas ambientais têm pressionado para que este auxílio privilegie aqueles que respeitem critérios de sustentabilidade. A ONG britânica Positive Money criou um ranking para avaliar o compromisso ambiental dos Bancos Centrais do G20, o grupo das maiores economias do mundo. O Banco Central do Brasil aparece em segundo lugar no ranking, atrás apenas do Banco Central da China. O País está à frente, por exemplo, dos bancos bentrais da França (3º), do Reino Unido (4º) e da União Europeia (5º). A boa posição do Brasil surpreendeu a ONG, que especula que o BCB atuou para ‘compensar’ a desastrosa atuação do governo federal na preservação ambiental.

O ranking mede o engajamento em pesquisas e na defesa de medidas sustentáveis. Entre os critérios avaliados, está a não-negociação de ativos de empresas de combustíveis fósseis e o apoio a investimentos públicos na transição verde. Ainda de acordo com a ONG, a política financeira deve considerar os riscos que as instituições supervisionadas pelo BC sofrem por estarem expostas à mudança climática.

 

Os bancos centrais costumam ter mandatos estritos, focados no controle da inflação e da estabilidade financeira. No BC brasileiro, conforme lei recém-aprovada, o principal objetivo é assegurar a estabilidade de preços, além de zelar pela estabilidade e pela eficiência do sistema financeiro, suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego. Até aqui, nada de sustentabilidade ambiental.

Para justificar a guinada ambiental, os bancos centrais levam em conta os riscos que a devastação ambiental e as mudanças climáticas impõem sobre a política monetária e a estabilidade do sistema financeiro. Os riscos climáticos são divididos entre riscos físicos e riscos de transição. Riscos físicos são possibilidades de perdas causadas pelo aumento dos eventos climáticos extremos, como incêndios, secas e alagamentos. Já os riscos de transição resultam das mudanças políticas, tecnológicas e de consumo, tomadas em resposta às mudanças climáticas.

“Choques climáticos – incêndios, secas, enchentes, temperaturas extremas – afetam preços relativos na economia e, portanto, podem ter impactos sobre nossas decisões de política monetária. Esses mesmos eventos extremos põem em risco o sistema financeiro nacional, podendo alterar a demanda por moeda, valores de bens físicos e de colaterais, além de trazerem custos financeiros altos para a sociedade como um todo”, explica Fernanda Nechio, a diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do BC.

O Banco Central do Brasil seguiu o script internacional e superou os pares europeus nas medidas de mitigação dos riscos ambientais. Em setembro de 2020, o presidente Roberto Campos Neto anunciou a criação da dimensão de sustentabilidade na Agenda BC#, que reúne as propostas para desenvolver o sistema financeiro do país.

Entre as medidas da Agenda BC#, o banco se tornou membro da Network for Greening the Financial System, o grupo de bancos centrais dedicado à mitigação dos riscos climáticos sobre o mercado financeiro. Também firmou parceria com o Climate Bonds Initiative, organização internacional que busca encorajar o mercado de ações a buscar soluções contra as mudanças climáticas.

Uma das primeiras propostas do BCB nesse sentido é levar em conta a sustentabilidade nas concessões de crédito rural. Operações que não respeitem os critérios legais de preservação ambiental não poderão ser financiadas. Já aquelas que representam algum dano ao meio ambiente serão classificadas como operação com risco ambiental. Já os financiamentos direcionados à transição ecológica receberão um selo de operação sustentável.

A restrição do crédito para projetos de alto risco ambiental não é novidade. Já em 2008, o Conselho Monetário Nacional restringiu a concessão de crédito rural na Floresta Amazônica. De acordo com pesquisadores da Climate Policy Initiative, esta medida reduziu o desmatamento nas cidades mais afetadas pela restrição. 

O Banco Central também propõe que bancos comerciais avaliem seus riscos próprios ambientais. Além de informar os riscos de crédito tradicionais, os bancos devem informar as medidas tomadas para lidar com os riscos físicos e os riscos da transição.

É evidente que mudanças climáticas e a preservação ambiental merecem a atenção das instituições estatais. Para os Bancos Centrais, não é diferente. A agenda ambiental se firmou de vez e deve seguir como uma das principais tendências dos próximos anos. Essa inovação vem sob o marco das finanças verdes, que o mercado financeiro também vem abraçando.

A pergunta que fica é: quais serão as próximas tendências globais que o Banco Central vai acompanhar? Uma maior preocupação com o nível de emprego, talvez? Ou vamos continuar perseguindo apenas a meta de inflação?

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Economista pela UFRJ. Doutorando na Scuola Normale Superiore em Florença, na Itália

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