Não há solução individual para problemas coletivos

Os efeitos climáticos não respeitam fronteiras. A coordenação deve ser global, inclusiva, com mudanças em todos os setores da economia

Icebergs na costa da Groenlândia.

Foto: Jonathan NACKSTRAND/AFP

Icebergs na costa da Groenlândia. Foto: Jonathan NACKSTRAND/AFP

Observatório do Banco Central

Os elementos que caracterizam a crise climática são cada vez mais evidentes. De acordo com o alarmante relatório do IPCC – International Painel on Climate Change, os aumentos observados nas concentrações de gases de efeito estufa são inequivocamente causados pelas atividades humanas. Essa afirmação representa uma mudança considerável em relação aos relatórios anteriores onde informavam que as causas seriam provavelmente em função da atividade humana.

Cada uma das últimas quatro décadas tem sido sucessivamente mais quente do que qualquer década que a precedeu desde 1850. A mudança climática induzida pelo ser humano já está causando muitos eventos extremos em todas as regiões do mundo, como ondas de calor, chuvas intensa, secas e ciclones tropicais.

A temperatura global continuará a aumentar até, pelo menos, meados do século em todos os cenários de emissões considerados. O aquecimento global de 1,5°C e 2°C, considerado como limite pelo Acordo de Paris, será excedido durante o século XXI, a menos que reduções profundas dos gases poluentes ocorram ainda nessa década. As projeções de aumento de temperatura são apenas médias: é quase certo que a temperatura na terra subirá mais rapidamente do que na superfície do oceano (provavelmente 1,4 a 1,7 vezes mais rápido).

Cada uma das últimas quatro décadas tem sido sucessivamente mais quente do que qualquer década que a precedeu desde 1850

Também é praticamente certo que o Ártico continuará aquecendo mais rápido do que a média global (provavelmente mais do dobro da velocidade).  Nunca antes um relatório de especialistas em mudança climática trouxe evidências tão angustiantes com a análise de fatos à luz das leis da física.

As previsões não param por aí: o IPCC afirma que as ondas de calor que costumavam ocorrer uma vez a cada dez anos ocorrerão quatro vezes a cada dez anos, e as que costumavam ocorrer apenas uma vez a cada cinquenta anos ocorrerão quase nove vezes durante o mesmo período. Afirma também que o aquecimento adicional deverá intensificar e aumentar ainda mais a frequência de precipitações extremas, ciclones tropicais intensos, secas.

Ao longo deste século, o aquecimento dos oceanos provavelmente será entre duas e quatro vezes maior do que entre 1971 e 2018. A estratificação, acidificação e desoxigenação seguirá a aumentar. As geleiras nas montanhas e na Groenlândia continuarão a derreter por décadas, e é provável que o derretimento também continue na Antártida. Também é quase certo que o nível do mar subirá 0,28-0,55 metro.

O resultado: em quase metade dos lugares que viveram eventos excepcionais de maré ao menos uma vez por século no passado, os terá ao menos uma vez por ano, aumentando a frequência de enchentes em áreas baixas. Ainda, não se pode descartar respostas abruptas e pontos de ruptura (os chamados tipping points, mudanças que podem causar efeitos abruptos e irreversíveis), como o aumento do derretimento antártico, a morte da floresta e mudanças nos padrões climáticos regionais e no ciclo da água.

As perspectivas são pavorosas. Para mitigar a catástrofe ambiental, é preciso uma mudar profunda e rapidamente a forma como temos nos relacionado em sociedade. Desde reformular os modos de produção e consumo até a adoção de políticas públicas que visem endereçar o problema. Será necessária uma nova Convenção para o Desenvolvimento Sustentável. O modo de financiar esse processo deve ser trazido para o centro da discussão.

Os desafios são enormes. Os grandes poluentes são os países desenvolvidos Os mais afetados serão os países subdesenvolvidos. O Acordo de Paris reafirma que os países desenvolvidos devem assumir a liderança na prestação de assistência financeira aos países subdesenvolvidos e mais vulneráveis, ao mesmo tempo em que, pela primeira vez, também incentiva contribuições voluntárias de todas as partes. Mas isso não vem acontecendo.

Há muitas iniciativas para mobilizar a iniciativa privada, o que é essencial. Mas, devido a suas intenções maximizadoras de lucro, a iniciativa privada tende a preferir projetos com alta taxa de retorno e com maturação de curto prazo. Em O Estado Empreendedor, e economista Mariana Mazzucato lembra que as grandes revoluções produtivas não foram iniciadas pela iniciativa privada… foram pelo Estado, com participação da iniciativa privada.

As alternativas apresentadas até aqui para a transição verde sustentável – como os bem vindos programas europeus e estadunidense – mantem a lógica financeirizada do atual modo de produção. Os programas são bastante abrangentes. Mas, de forma geral, se limitam as suas fronteiras e a práticas de tributação de produtos importados que não cumpram os padrões de produção compatíveis com as práticas de redução de gases, num processo de proteção industrial camuflado. Repito: são práticas muito bem vindas, mas nem de longe suficientes para impedir a catástrofe que se avizinha.

Dado o quão radical e rapidamente a sociedade precisa mudar para evitar uma catástrofe climática completa, todos os setores da vida, da silvicultura, da educação, das artes, da habitação, da eletrificação, da produção e do consumo, da interação Estados-mercado-sociedade, das políticas públicas e das finanças, devem estar alinhadas sob o guarda-chuva de uma única missão. Não há solução individual para problemas coletivos. Os efeitos climáticos não respeitam fronteiras. A coordenação deve ser global, inclusiva, com mudanças em todos os setores da economia, desenvolvimento social e regional.

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Economista, pesquisadora do Finde

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