Observatório do Banco Central

Formado por economistas da UFRJ, analisa a economia suas relações fundamentais com a moeda e o sistema financeiro

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A retomada da política industrial no pós-pandemia

Ao que parece, a longa década de 1990 vem chegando finalmente ao seu fim

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A economia global no pós-pandemia definitivamente não será a mesma das décadas anteriores. Ainda que muitas das mudanças em curso já estivessem em marcha no período posterior à crise de 2008, a pandemia acelerou algumas, consolidou outras e inseriu elementos novos na economia global. Entre as tendências que se consolidaram, a proeminência que a política industrial vem adquirindo, em iniciativas de grande porte e com protagonismo entre as políticas econômicas, merece certo destaque. 

Nos últimos meses, associações representativas da classe industrial – como a FIESP e a CNI – também se manifestaram sobre a necessidade de construir uma política industrial e de inovação adequada a esse novo cenário de competição global, indicando que enfim o processo de desindustrialização parece ter preocupado o empresariado industrial. Não seria para menos, já que a generalização de grandes programas para o desenvolvimento produtivo e tecnológico, inclusive em países periféricos, e a falta de horizonte sobre o futuro da indústria brasileira deveriam mesmo despertar preocupações. 

Na disputa do andar de cima, Estados Unidos, China e Alemanha já haviam definido suas diretrizes para suas novas políticas industriais, científicas e tecnológicas antes da pandemia. Em 2011, os Estados Unidos já haviam lançado sua iniciativa de modernização de sua estrutura produtiva, com a Advanced Manufacturing Iniciative, destinado ao desenvolvimento das tecnologias da chamada Indústria 4.0 e ampliação e desconcentração geográfica de seu sistema de fomento à inovação. 

Com o governo Biden, os Estados Unidos colocaram essa agenda no centro do debate, anunciando recursos estimados de cerca de 9% do PIB e associando o desenvolvimento tecnológico com a capacitação e estímulos para a geração de empregos e investimentos na modernização de sua infraestrutura. Outra preocupação após a pandemia foi a incorporação de políticas visando a maior integração nacional de suas cadeias produtivas estratégicas, como insumos para o complexo industrial da saúde e semicondutores. 

A Alemanha é um caso semelhante. O programa de modernização da indústria alemã, High-Tech Strategy 2020 – também lançado em 2011 – foca na promoção das tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0 e no desenvolvimento das “fábricas inteligentes”. Em paralelo, a Alemanha lançou no mesmo período outros dois planos, a Digitale Agenda e a Energiewende

A primeira estipula uma agenda de políticas para a digitalização da economia alemã, com a definição do padrão tecnológico a ser adotado, políticas de fomento ao desenvolvimento de serviços de informação e a ampliação da infraestrutura digital e de telecomunicações. A Energiewende tem tipicamente a característica de uma política orientada por missões, através da definição de uma série de metas e ações transversais para a transição energética do sistema industrial alemão. Entre as metas principais, o programa envolve ações para o ganho de eficiência energética em edificações, redução da utilização de combustíveis fósseis nos transportes e geração descentralizada de energia. 

A China, em 2015, anunciou o Made in China 2025, iniciativa focada no desenvolvimento das novas tecnologias e a sua difusão em setores estratégicos como equipamento naval, equipamentos de geração de energia e bens de capital voltados à automação. Como parte de sua estratégia, a China também ampliou ações direcionadas à construção de infraestrutura tecnológica voltadas à Big Science, como o Centro de Radiação Síncotron de Shanghai e o Rádiotelescópio de Tianyan. Para além dessas iniciativas, há um conjunto de ações para o desenvolvimento das Smart Infraestructures vinculadas a políticas de Smart Cities e da Digital Silk Road

Sobre o que nos informam essas iniciativas? Talvez o mais importante seja que, em seu conjunto de ações transversais – em grande parte, estruturadas como missões tecnológicas e socioambientais – essas políticas devem modernizar a infraestrutura física, ampliar os sistemas de pesquisa e inovação e fomentar mecanismos de coordenação entre instituições de pesquisas e complexos industriais. Em suma, todas se constituem como políticas de carácter sistêmico, buscando a modernização em conjunto dos respectivos sistemas manufatureiros nacionais. 

O conflito na Ucrânia e as incertezas sobre o cenário global contribuíram para consolidar as tendências que a crise sanitária já havia inserido na construção dessas políticas, sobretudo na adoção de recortes que são mais justificados por questões geopolíticas do que pelas razões econômicas usuais. A preocupação com cadeias produtivas mais resilientes a eventos internacionais disruptivos da integração produtiva promovida pela globalização tem sido, nesse sentido, outro fator condicionante do processo, ao lado da disputa pela liderança no novo paradigma tecnológico. Ao que parece, a longa década de 1990 vem chegando finalmente ao seu fim. 

Marco Antonio Rocha

Marco Antonio Rocha
Professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT-IE/Unicamp).

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