Observatório do Banco Central

Formado por economistas da UFRJ, analisa a economia suas relações fundamentais com a moeda e o sistema financeiro

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A cesta básica anda de caminhão: transportes e alimentos na inflação de março

Enquanto o preço do barril de petróleo no mercado internacional é mais volátil – para altas e baixas – os custos de internalização são rígidos

Foto: Agência Brasil
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A taxa mensal de variação da inflação de março (medida pelo IPCA) com relação a fevereiro de 2022 ficou em 1,62% e é a maior para o mesmo mês desde os precedentes do Plano Real, em 1994. No transcurso mais recente, esse acumulado mensal é maior ante qualquer outro da série história desde 2003, quando esse mesmo índice chegou à casa dos 2,25%.

O que foi o grande vilão do rompimento do teto da meta de inflação nos dois anos precedentes – 2020 e 2021 – dessa vez não compareceu com tanto afinco. Está em curso um processo de redução da desvalorização do real frente ao dólar. Ou seja, o que responde, fundamentalmente, pelo repique inflacionário de fevereiro – com variação mais acentuada em março – são os transportes/combustíveis e os alimentos.

Tabela 1: IPCA – Variação mensal, acumulada no ano e peso mensal, segundo o índice geral e os grupos de produtos e serviços

A despeito de causas externas que são explicadas pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia e o expediente das sanções contra a primeira – que impactam na desorganização da estrutura internacional de oferta de petróleo, trigo e potássio, principal componente dos fertilizantes –, a explicação dos seus efeitos sobre a economia brasileira tem, sobretudo, causas domésticas.

A opção do governo e da Petrobrás de precificarem os derivados de petróleo no mercado doméstico a partir da Política de Paridade do Preço de Importação (PPI) não somente relega ao Brasil maior vulnerabilidade a flutuações no preço do barril no mercado internacional, mas incluem taxas internas artificiais de custos de importações, tais como custo de internalização do combustíveis como tarifas de importações, frentes e custos de transporte marítimo.

Enquanto o preço do barril no mercado internacional é mais volátil – para altas e baixas – os custos de internalização são rígidos. É isso que explica por que o preço doméstico aumenta com as movimentações altistas no barril mas, por outro lado, não cedo – ou não na mesma proporção – com os movimentos baixistas, pouco a menor elasticidade dos custos de internalização, que estão presentes em uma estratégia que precifica o preço do combustível tal como se a Petrobrás e o Brasil fossem importadores líquidos de derivados.

O choque de 24% no reajuste do óleo diesel no mercado doméstico, ainda durante a Presidência de Luna e Silva na Petrobrás, logrou os efeitos que agora se manifestam na trajetória inflacionária. Isso se explica porque o diesel é o principal derivado utilizado nos fretes e, como as mercadorias – incluso os produtos da cesta básica – são transportados de caminhão –, os aumentos nos custos de transporte são repassados para o preço final, chegando até o consumidor na ponta.

Não somente na distribuição dos alimentos e demais mercadorias mas, também, na sua produção. Mesmo para o setor primário, a presença de maquinário agrícola é um fator determinante. Portanto, a produção e a colheita também dependem da energia que é lograda pelo motor a combustão, ou seja, pelo diesel.

Tabela 2: IPCA, índice cheio, transportes e combustíveis para variação mensal e acumulado em 12 meses (%)

Apenas para o mês de março de 2022, combustíveis – sozinhos – já ultrapassaram o teto da inflação previsto para o ano inteiro e, se a comparação for o agregado dos últimos 12 meses, a inflação desse item já chega a quase 30%.

No campo dos combustíveis, como trata-se de um preço administrado e de responsabilidade quase monopolista de uma empresa estatal, a equipe econômica do governo deveria estar compromissada com o amortecimento interno de variáveis externas e não com o exato oposto, que é a sua intensificação via mecanismo de paridade de preços. No que tange aos alimentos, a redução do preço final dos combustíveis já seria um grande alento e poderia ainda ser complementada com medidas simples, de curto prazo, tais como a reativação dos estoques reguladores de alimentos pela Conab, elemento decisivo para contrapor a alta de preços em um cenário de incentivos à exportação, além de zelar por uma política mais geral de segurança e soberania alimentar.

Juliane Furno
Mestre e Doutora em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP e Economista-chefe do IREE

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