Observatório do Banco Central

Formado por economistas da UFRJ, analisa a economia suas relações fundamentais com a moeda e o sistema financeiro

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A barbárie bolsonarista inviabiliza o crescimento do Brasil

É possível retomar o crescimento e caminhar para a reconstrução de um projeto de País

Foto: EVARISTO SA / AFP
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Os membros do governo se preocupam com a credibilidade da política econômica, mas não se incomodam com o assassinato de um militante político ou a execução de indigenistas e jornalistas. A princípio, um desavisado pode achar que uma coisa não se relaciona com a outra e, com isso, os formuladores de política não deveriam se preocupar com as ameaças ao estado democrático de direito.

No entanto, a credibilidade de um país e, portanto, de sua política econômica se funda na existência de uma sociedade civilizada. A garantia dos direitos fundamentais é o primeiro passo de um país que deseja ser respeitado internacionalmente e, portanto, atrair investimentos externos. Os investidores nacionais também se retraem diante desse grau inaceitável de insegurança. 

Quem irá investir em um país onde o direito à vida – o mais fundamental de todos – não é assegurado? Uma jurisdição em que a livre liberdade de expressão é reprimida pela força bruta não é segura para se investir. O capital busca minimizar os riscos e alavancar os retornos. O investimento pressupõe um nível mínimo de segurança institucional. Em resposta à inexistência de garantias aos direitos constitucionais fundamentais, o capital externo não é atraído e o doméstico é expatriado. 

Em um curto intervalo de tempo, o País foi assolado por duas tragédias anunciadas que, juntas, personificaram a brutalidade existente por aqui. A execução do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira e o assassinato de um militante do Partido dos Trabalhadores por um apoiador do presidente Bolsonaro, sendo este último flagrantemente motivado pela incapacidade de se conviver com as diferenças.

Esses acontecimentos mostram ao mundo o que os brasileiros já sabem faz tempo: a existência de dois “brasis” que até pouco tempo viviam isolados da presença um do outro e que agora estão se aproximando para um desfecho potencialmente catastrófico. Um País onde as leis existem e o Estado tem capacidade de atuação e outro paralelo, dominado pela lei do mais forte, em que reina a animalidade, a grosseria, a violência e a barbárie.

A aproximação entre eles – que compartilham o mesmo espaço geográfico e institucional – dá sinais de que o lado da barbárie e da miséria, personificado na figura do atual presidente, está se sobrepondo ao alinhado aos princípios republicanos.

Essa tendência pode explicar o fenômeno que ficou conhecido popularmente como “fuga de cérebros” ou “fuga de talentos”. Um contingente de brasileiros com níveis de capacitação profissional e educacional elevados que busca oportunidades em países democráticos. Segundo dados do Ministério de Relações Exteriores, estima-se que no ano de 2020 o número de brasileiros vivendo no exterior era de 4,2 milhões de pessoas. Esse número representa um aumento de 17% (600 mil pessoas) em relação ao levantamento realizado em 2018. 

Muitos desses brasileiros poderiam contribuir de forma significativa para o desenvolvimento do Brasil, mas o aumento das desigualdades, a diminuição das oportunidades, os cortes em educação e pesquisa, a instabilidade econômica e política, a precarização dos serviços públicos, a violência institucionalizada, entre outros fatores, contribuem para o descarte do capital humano disponível no Brasil.

Assim como a fuga de capitais inviabiliza os investimentos necessários para o crescimento e desenvolvimento do País, a fuga de talentos diminui a produtividade, a competitividade e a capacidade de inovação interna. Dessa maneira, ocorre a manutenção de outro fator que compromete o caminho para a o desenvolvimento: a lógica de importações de alta tecnologia e exportação de bens primários. 

O Brasil possui um potencial de crescimento que precisa ser desbloqueado para que deixemos de ser o “país do futuro” e nos firmemos como uma nação que preza pelo bem-estar de sua população, pela construção e manutenção de suas instituições. É possível retomar o crescimento e caminhar para a reconstrução de um projeto de País que leve em consideração a necessidade de investimentos em infraestrutura, setores industriais competitivos e encadeados, além de um elemento primordial: o respeito à vida.

Kleyton da Costa
Economista pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e pesquisador da Rede de Grupos de Pesquisa Pós-Keynesianos do Rio de Janeiro

Andre de Melo Modenesi
Professor do Instituto de Economia da UFRJ. Pesquisador do CNPq e da FAPERJ. Coordenador do Observatório do Banco Central.

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