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Chapa Lula-Alckmin lembra a aliança das Diretas Já

Uma junção entre adversários que ainda se reconhecem nessa condição só faz sentido se o que os une for bem maior e bem mais importante do que aquilo que os separa

O ex-governador Geraldo Alckmin (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT). Foto: Ricardo Stuckert
O ex-governador Geraldo Alckmin (sem partido) e o ex-presidente Lula (PT). Foto: Ricardo Stuckert
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Em seu discurso de filiação ao PSB, o ex-governador paulista, Geraldo Alckmin, deu o tom do que significa sua aliança com o ex-presidente Lula.

“Temos que ter olhos abertos para enxergar, a humildade para entender aquele que melhor reflete e interpreta o sentimento de esperança do povo brasileiro. Aliás, Lula representa a própria democracia porque ele é fruto da democracia.”

Em seu Twitter, o ex-presidente postou uma mensagem de sentido convergente: “O fato de ser adversário não quer dizer que você é inimigo. O Alckmin está se filiando ao PSB, os partidos e nós ainda vamos ter que conversar e eu ainda estou definindo a candidatura. Se nos aliarmos e ganharmos as eleições, tenho certeza de que podemos fazer um grande governo.”

Uma aliança entre adversários que ainda se reconhecem nessa condição e que, inclusive, já se enfrentaram numa acirrada disputa presidencial em 2006, só faz sentido se o que os une for bem maior e bem mais importante do que aquilo que os separa. E, de fato, o que os une não é um programa comum de políticas públicas, ou convicções ideológicas à esquerda ou à direita, mas a concordância sobre a necessidade de defender a democracia do ataque que o bolsonarismo lhe perpetra. Não por outra razão, Alckmin fez a seguinte observação:

“Alguns podem estranhar. Eu disputei com o presidente Lula a eleição em 2006 e fomos para o segundo turno, mas nunca colocamos em risco a questão democrática. O debate era de outro nível, nunca se questionou a democracia”.

E é exatamente este o questionamento feito pelo bolsonarismo. Isso não é propriamente uma novidade, descoberta após os pouco mais de três anos do capitão e sua trupe no governo. Em 2018, Bolsonaro já era figura política sobejamente conhecida. Era nítido a quem tivesse “olhos abertos para enxergar” que a disputa do segundo turno naquele momento significava o enfrentamento entre a civilização e a barbárie. Contudo, houve quem não desse a devida importância a esse evidente contraste naquele momento, ou deixasse seu rechaço ao PT turvar a visão do perigo bolsonaresco.

Ciro Gomes foi para Paris, minimizando o risco que Bolsonaro representava para a democracia brasileira. Ressentido, voltou apenas para votar – como ele mesmo sói lembrar. Ou seja, apesar de ter a responsabilidade de homem público, justifica sua omissão com uma desculpa que apenas faz sentido para cidadãos comuns, sem a sua responsabilidade de candidato presidencial e liderança de um partido.

O PSDB em parte se bolsonarizou, como no caso de “BolsoDória”, em parte se omitiu, como no caso de Fernando Henrique Cardoso e do próprio Geraldo Alckmin (que agora, porém, corrige o erro). Algumas mentes mais lúcidas do partido, como o já falecido ex-governador de São Paulo Alberto Goldman e o vereador paulistano Daniel Annenberg, anunciaram seu apoio a Haddad – isto é, à democracia – no segundo turno. Foram atacados por isso por muitos de seus eleitores e colegas de agremiação.

Muitos órgãos de imprensa naturalizaram Bolsonaro, como se ele não fosse o extremista de sempre. A Folha de S.Paulo se negou a chamá-lo pelo que é (candidato de extrema-direita), assim como o fizeram os veículos das organizações Globo. O Estadão foi um passo além: em seu famigerado editorial no qual falou de uma “escolha difícil”. Pelo tom de editoriais recentes, editorialistas do jornal mostram que não esqueceram nada, não aprenderam nada.

A preocupação comum com a defesa da democracia, unindo adversários que, se eleitos, deverão ajustar suas preferências programáticas (um problema menor) explica também porque é necessário deixar de lado velhos ressentimentos. No caso do PT, de nada adianta remoer as mágoas do impeachment às avessas que apeou Dilma Rousseff da Presidência. No caso dos ex-tucanos, de nada serve queixar-se da postura de oposição irresponsável que os petistas fizeram a governos do PSDB.

É por isso que a aliança acontece e, quando questionado por jornalistas sobre sua posição diante do impeachment de Dilma, Alckmin opta por ressaltar seus atributos de mulher honrada e a posição de cautela que ele supostamente teria adotado à época. Ao tratar do assunto, o provável vice de Lula faz menções a suas convicções parlamentaristas – num reconhecimento tácito de que o afastamento da presidenta foi, na verdade, um voto de desconfiança por vias transversas.

Esse caráter amplo e de secundarização de divergências, em prol da democracia, é o que confere à aliança construída em torno da chapa Lula-Alckmin certa semelhança com o palanque das Diretas Já. Naquele momento, colocavam-se lado a lado figuras de direita e de esquerda; desde dissidentes do regime militar (representados em espírito e em música por Teotônio Vilela) até comunistas banidos pela ditadura, como João Amazonas.

Em meio a eles, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Orestes Quércia, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Leonel Brizola e Lula – para mencionar os mais vistosos. Essas lideranças, que perfilavam lado a lado no enfrentamento democrático à ditadura militar, representavam um amplo espectro político-ideológico. Talvez por isso mesmo Alckmin diga que Lula “representa a própria democracia porque ele é fruto da democracia”.

É a democracia que oferece um terreno comum aos divergentes, para que possam divergir e competir como adversários, não como inimigos. Desse modo, é ela que lhes permite se juntar, a despeito das diferenças. Construída dessa forma, a chapa ocupa boa parte do espaço que muitos acalentavam ser o de uma frente ampla democrática. E, por isso mesmo, torna ainda mais difícil e improvável a viabilização de uma terceira via fora da bipolarização entre o extremismo direitista de Bolsonaro e o esquerdismo moderado de Lula.

A importância desse tipo de aliança ainda se dá por outra razão. Não se trata apenas de vencer nas urnas o autoritarismo bolsonaresco, amparado no “partido militar” que se locupleta em milhares de cargos e benesses governamentais. Trata-se também de criar condições para uma posterior reconstrução nacional. O bolsonarismo deixará como legado um país destruído.

Está em curso uma devastação de políticas públicas, de instituições, do ambiente democrático. Produz-se um estrago monumental, como o que ocorre num país devastado por uma guerra – ainda que não se trate, predominantemente, de uma destruição da estrutura física. O bolsonarismo perpetra uma devastação de instituições e políticas que são legadas não só de nosso período de redemocratização – em especial a partir Constituição de 1988. A devastação atinge inclusive construções políticas anteriores ao período democrático de 1945-1964, outras produzidas durante sua vigência, outras ainda criadas durante a ditadura militar.

O próximo governo precisará de um amplo espectro de apoios no sistema político e na sociedade para esse processo de reconstrução. Ainda mais considerando a articulação de poder estruturada desde o início do governo de Michel Temer, mas muito piorada durante o mandato de Bolsonaro. Essa articulação confere ao Centrão e seus próceres um controle inaudito sobre instrumentos orçamentários e administrativos, implantando práticas predatórias cujo desmonte será bem difícil.

Se a aliança não for ampla, estaremos fadados a ter o processo de reconstrução sequestrado por setores da classe política que parasitam o Estado há décadas e, hoje, são cúmplices do descalabro bolsonaresco. Isto é, a reconstrução do país não passa apenas por políticas públicas e normas legais descontinuadas, mas também por uma rearticulação política que consiga por freio a essa predação levada a cabo por atores políticos despreocupados com os interesses gerais e de longo prazo do país. Se isso não for resolvido, corremos o risco de fracassar uma vez mais.

A presença de Alckmin na chapa de Lula aumenta os canais de interlocução com setores políticos e sociais cuja capacidade de dialogar com o PT é pouca. Assim, amplia o espectro e confere mais poder – sim, poder – ao futuro governo para desatar os nós. Afinal, sem poder não se governa, não se resiste ao autoritarismo, muito menos se reconstrói um país.

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Cláudio Couto

Cláudio Couto
Cientista Político na FGV-EAESP

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