Diálogos da Fé

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Caso Sara Mariano: quantas mais terão que morrer para sustentar o mito da família perfeita?

Até quando as igrejas vão silenciar sobre as múltiplas violências a que muitas mulheres religiosas estão submetidas?

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Recentemente, soubemos do possível feminicídio de Sara Mariano. Uma cantora gospel baiana, que seguia sua carreira musical  em parceria de seu marido e produtor. A suspeita é que Sara tenha sido assassinada por ele, o que se trataria de feminicídio praticado pelo próprio companheiro, também evangélico. Embora a notícia seja triste, não é surpreendente. Em março do ano passado, contei, aqui neste espaço, a história de Caroline Brazil, mulher assassinada pelo marido  em meio a crenças religiosas que a impediram de buscar ajuda  e se afastar de seu agressor.   

Em 2020, escrevi um texto em que fazia a pergunta: quantas mais terão que morrer para o mito da família perfeita se sustentar? Naquele ano foram noticiados 3 feminicídios no período das festas de final de ano, que chocaram justamente por terem sido cometidos em meio a maior comemoração familiar e religiosa do Brasil: o Natal. 

E os anos vão correndo, eu vou envelhecendo, minha filha vai crescendo e a violência contra a mulher não acaba. Eu sempre me pego pensando como um país que tem quase 90% de sua população cristã, que diz prezar pela família, é também o quinto país no mundo em números de feminicídios? E que na grande maioria das vezes, são os próprios maridos que assassinam suas esposas? Essa conta não fecha. Temos que falar abertamente sobre isso: os assassinos de mulheres têm religião. São homens respeitáveis, “de bem”,  prestigiados socialmente e que matam. 

Em 2022, o Monitor da Violência  publicou dados que mostraram que houve aumento de 5% no número de feminicídios, no Brasil. O estudo apontou que uma mulher é assassinada a cada seis horas. Este número foi o maior desde 2015, quando a lei do feminicídio foi aprovada. Em 2018, foi constatada a queda de feminicídios entre as mulheres brancas, enquanto entre as mulheres negras e indígenas o número havia aumentado, mostrando que essas mulheres não eram alcançadas pelas políticas universalistas de gênero.

O recorte de raça é extremamente importante para pensar nas mulheres evangélicas. Sabemos com a pesquisa do Instituto Datafolha de 2022 que esse grupo é o maior grupo deste segmento religioso. São mulheres que já são vulnerabilizadas por tantas desigualdades sociais, como econômica e de gênero, e ainda são submetidas a discursos que as expõem a todo tipo de violação psicológica e religiosa dentro de algumas igrejas. 

A pergunta é: já sabemos deste diagnóstico, o discurso da submissão de algumas igrejas ajudam a propagar a violência contra a mulher, o que vamos fazer, então? Estamos no mês de novembro e entre os dias 25 de novembro e 10 de dezembro, acontecem os 16 dias de ativismo pela eliminação da violência contra as mulheres. Precisamos fazer uma grande campanha em todas as igrejas, salientando que uma família em que a mulher seja submetida a qualquer tipo de violência, não é uma família que está no coração de Deus.  E como mulher negra evangélica preciso chamar a atenção para o fato de que mulheres evangélicas são assassinadas, sobretudo as negras. A morte da Cantora Sara Mariano nos mostra que a fama, o reconhecimento, o respeito não protege a nenhuma mulher do feminicídio. Ser mulher de pastor, de presbítero, e diácono não protege ninguém.

Até quando as igrejas vão silenciar sobre as múltiplas violências a que muitas mulheres religiosas estão submetidas, sob a égide de uma família que não pode ser “atacada”. Que família é essa que assassina mulheres? Quando não as matam concretamente, as expõem a todo tipo de violência, roubando dessas mulheres a vida em abundância que tantos pastores pregam nos púlpitos. A vida em abundância que queremos é uma vida sem violência contra todas as mulheres. 

Assim, quero trazer à reflexão de todas as pessoas evangélicas que lêem esse texto: basta de assassinatos de mulheres. Não, o assassinato de mulheres não é exceção. Não é um homem que está “longe de Deus”, ou que “não é convertido”. Na sua comunidade de fé, pode existir uma mulher que é violentada por seu marido, mas mantém a aparência para todos, justamente pelo peso de manter essa família como um mandamento divino. Basta de mulheres destruídas, em lares destruídos. Incentivem suas mulheres a denunciarem agressores, ensinem as crianças que quem ama, respeita. Chega de Saras, chega de Carolines, chega de mortes! Queremos as mulheres vivas! 

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