Psicodelicamente

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Psicodelicamente

Igrejas psicodélicas: ‘Meu sacramento é uma molécula’, diz fundador da IDMT

Reinvenção de cultos psicodélicos em centros religiosos com foco na espiritualidade e bem-estar moldam novo modelo de xamanismo urbano

Foto: Reprodução/Doc. La Voie Des Plantes
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“O que tem nesse copo?”, indagou a si mesmo Mark Collins, depois de experimentar ayahuasca pela primeira vez. A intensidade da vivência despertou a curiosidade sobre os ingredientes do misterioso chá amazônico. Um interesse tão grande quanto o que teve pela própria experiência.

Esse foi o ponto de partida de uma longa viagem. Um caminho que o levou a criar, segundo ele, a primeira igreja que tem como sacramento a DMT (N,N- dimetiltriptamina).

Collins explica que o foco de seu trabalho é a substância psicodélica conhecida como “molécula do espírito”, e não a beberagem indígena utilizada por grupos religiosos como Santo Daime e UDV (União do Vegetal).

Carioca de ascendência britânica, Collins, 63, vive hoje em Fortaleza, capital cearense, e se apresenta como um ‘filósofo-xamã’. Embora sua organização religiosa, a IDMT, não tenha sido criada recentemente, ela está se abrindo para o mundo somente agora.

“Essa é a minha primeira entrevista”, diz ele. Coincidentemente, neste mesmo momento, outras igrejas psicodélicas começam a surgir no Brasil e em outros países.

Uma explicação para o fenômeno está na mudança de como a sociedade enxerga essas substâncias. O novo olhar tem a ver com a crescente popularidade alavancada por pesquisas científicas e com a legalidade de algumas delas em certos lugares.

Um artigo da Vice News cita cerca de duas dezenas de igrejas psicodélicas nos Estados Unidos, mas admite que na clandestinidade o número deve passar de uma centena.

Para se conectarem com o divino, os seguidores utilizam substâncias como a psilocibina (presente nos cogumelos ‘mágicos’ do tipo Psilocybe cubensis), a bebida ayahuasca, o cacto peiote, entre outras.

Algumas igrejas cobram taxas de adesão e fornecem psicodélicos aos membros, outras oferecem orientação, terapias, cursos e retiros. Todas acreditam que estão protegidas pela liberdade religiosa.

Em grandes cidades brasileiras, um cenário antes ocupado por grupos religiosos ayahuasqueiros está ganhando outra cara. Centros religiosos psicodélicos desvinculados de usos tradicionais, mas focados na espiritualidade, no autoconhecimento e no bem-estar estão moldando um novo tipo de xamanismo urbano.

Xamanismo nordestino

“Eu vivia na clandestinidade underground”, relembra o fundador da igreja da DMT sobre o período em que começou a estruturar seu trabalho. Collins conheceu a ayahuasca em 1989, mas o grupo religioso iniciou por volta de 2008, quando conheceu a jurema-preta (Mimosa tenuiflora).

Com a planta, que tem alta concentração de DMT, é preparada uma beberagem, conhecida também como jurema. O chá tem uma história não muito conhecida de uso tradicional no xamanismo indígena do interior nordestino desde os tempos pré-coloniais.

O trabalho desenvolvido entre 2009 e 2011 não se restringe a uma igreja, detalha Collins. “É também escola e clínica, mas tudo dedicado a N,N-dimetiltriptamina”. Ele descreve seu processo no xamanismo no ebook “O Caminho de um Juremeiro”, lançado neste ano e todo escrito no formato de cordel.

Mas, para ter tudo legalizado, Collins enfrentou um processo judicial que durou três anos. Com regimento interno  e estatuto em mãos, ele foi até o cartório fazer o registro da igreja.

O tabelião, após olhar os documentos, disse que não tinha a menor ideia do que era aquilo e encaminhou tudo para o fórum, onde também ninguém entendeu nada. “Fui obrigado a obter três declarações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).”

Collins reconhece que peculiaridades de seu trabalho religioso causam mesmo confusão, como por exemplo ter como sacramento não uma planta, mas uma molécula. Seu propósito também não é arrebanhar seguidores.

“Meu projeto tem como finalidade o estudo e a pesquisa da experiência religiosa derivada do consumo de DMT”, explica o fundador da igreja psicodélica que hoje possui um CNPJ.

Atualmente seu trabalho ainda é com a bebida jurema, testada em laboratório, mas o próximo passo, diz Collins, é extrair a substância para o uso ritual da molécula na forma sintética.

Cogumelos psicodélicos e ‘microioga’

A Psicodelicamente localizou outra autodenominada igreja psicodélica em Barra Grande, na península de Maraú, litoral sul baiano, chamada CiênCéu. Segundo o fundador, Pedro Guedes, 38, que se apresenta como guia psicodélico, o nome tem a ver com o propósito do trabalho, que é o de alinhar ciência e religião.

As atividades do centro espiritual psicodélico começaram há cerca de um mês. No cardápio, tem sessão de cogumelos mágicos, ioga com microdose, crioterapia (imersão no gelo), breath work (trabalho de respiração), pintura em tela e muita conexão com a natureza, conta Guedes.

Uma nova prática que está começando a ser desenvolvida no centro une a prática meditativa da ioga com a microdosagem de “cogumelos mágicos” (que contém a substância psilocibina). “É a microioga”, explica. “Estamos ainda em fase de experimentação, testando as dosagens.”

Foto: Divulgação/CiênCéu

Cada uma das atividades trabalha aspectos específicos, que em conjunto se complementam, auxiliando no processo de autoconhecimento e desenvolvimento espiritual, que é o objetivo do centro, esclarece Guedes.

“A microioga nos leva a mergulhar em nossos corpos e mentes, a crioterapia, ou imersão no gelo, desafia nossos limites, as pinturas transcendem a tela, nos levando por uma exploração da nossa imaginação.”

“As plantas de poder nos ensinam que a cura está em nós mesmos e na natureza”, argumenta o guia psicodélico. Por isso – prossegue Guedes – a ideia do centro é proporcionar um mergulho no autoconhecimento por meio do uso ritual e do estudo das plantas de poder em paralelo com outras técnicas terapêuticas.

Ele conta que a motivação para a criação do centro veio de sua própria experiência pessoal, transformadora, em agosto de 2021.“Eu tinha um passado de ansiedade, déficit de atenção, pensamentos depressivos e de abuso de álcool e drogas”, conta. Tudo mudou após uma sessão com os cogumelos.

Após a experiência e as mudanças em sua vida, Guedes iniciou uma trajetória de estudos sobre o potencial terapêutico e de cura espiritual do uso de psicodélicos. Ele começou a cultivar os próprios cogumelos e também a realizar sessões com os ‘fungos mágicos’ para familiares e até profissionais de saúde.

“Estamos diante de uma oportunidade única de unir conhecimento científico, práticas espirituais e saberes ancestrais para explorar os benefícios das plantas de poder”, defende Guedes.

Cultos são protegidos por liberdade religiosa?

É fato que nos EUA, no Brasil e em outros países, está crescendo o número de novos cultos religiosos com psicodélicos diversos. Embora alguns cultos sejam legítimos, há casos em que o uso ritual é apenas uma forma de driblar a ilegalidade. Mas será que estes trabalhos estão mesmo protegidos pela liberdade religiosa?

Nos tribunais norte-americanos existem as noções de sinceridade da crença religiosa, que pressupõem o reconhecimento judicial de que determinada substância é sacramento, explica o advogado Kostantin Gerber, especialista em direitos indígenas e substâncias controladas.

Segundo o advogado, nos EUA, a tendência é a DEA (agência antidrogas do país) seguir esses critérios jurisprudenciais reconhecendo, por exemplo, o grupo religioso UDV como prática religiosa, mas não estendendo o entendimento para outras igrejas com outros formatos, como de retiro espiritual com uso de psicodélicos, por exemplo. Uma exceção são as igrejas do peiote que possuem norma específica para indígenas.

Entretanto, a recente legalização em alguns estados pode favorecer novos cultos. “Como lá o federalismo é forte, a partir da descriminalização estadual de certas substâncias, fica mais tranquila a prática religiosa e a constituição de igrejas, porém persiste esse risco em nível federal, em virtude da agência antidrogas”, observa Gerber.

Uso ritual de cogumelos psicodélicos

No Brasil, seja para fins medicinais ou recreativos, o consumo de cogumelos psicodélicos tem crescido. O uso é controverso por causa da ilegalidade do princípio ativo dos fungos, a psilocibina, substância proibida no País.

Neste cenário, uma via alternativa que tem sido utilizada é o uso ritual dos fungos psicodélicos. O argumento em geral é que a permissão para o culto com a ayahuasca abre essa possibilidade.

Na opinião do advogado Gerber, seria possível, sim, a analogia para cerimônias sem regulamentação, seguindo-se o regramento existente do uso religioso responsável da ayahuasca.

De acordo com o advogado, a regulamentação do Conad (Conselho Nacional de Políticas de Drogas), de 2010, que autoriza o uso religioso da ayahuasca, determina que exista uma pessoa experiente na condução de cerimônias, que seja conhecedora das espécies vegetais usadas.

O documento também orienta que sejam seguidos protocolos de segurança, como preenchimento de ficha de anamnese e assinatura de termo de responsabilidade.

A norma sugere ainda que o grupo busque a sustentabilidade, ou seja, que cultive as plantas, para que não haja comércio da substância. Outro ponto é que a igreja se mantenha com ajuda de custo de fiéis e que não possua caráter comercial ou terapêutico.

Para o advogado, uma questão ainda sem resposta é se o Conad tem planos de regular as novas práticas neoxamânicas, e em que medida isso irá interferir no meio ambiente e na cultura de povos originários.

Gerber observa que, neste caso, a decisão deveria passar por um debate público na sociedade, com uma consulta prévia livre e informada dos indígenas em questão.

“Antes de se criar uma igreja de cogumelos [psicodélicos] é recomendável saber respeitar as tradições existentes dos povos indígenas do México e valorizar a medicina tradicional indígena”, sugere o advogado.

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