Diálogos da Fé

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Declaração de pastor sobre abuso infantil é amostra da cultura do silêncio que assombra as igrejas

É a cultura de autoridade inquestionável que dá salvo-conduto a estes líderes para que façam declarações como a do pastor

Créditos: Reprodução Redes Sociais
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A declaração chocante do pastor Jonas Felício Pimentel, líder da congregação Tabernáculo da Fé, em Goiânia, causou indignação nas redes sociais. Durante um culto, ele sugeriu que certas crianças vítimas de abuso sexual, podem, sim, ter culpa pelo ocorrido.

Graças ao alcance das mídias digitais, o véu do silêncio que frequentemente encobre certas comunidades fundamentalistas está sendo cada vez mais levantado. Nessas comunidades, a autoridade do líder raramente é contestada e a voz dos vulneráveis, quase sempre, é suprimida.

O caso do pastor Pimentel, que por pouco não escapou aos olhos do público, é apenas a ponta do iceberg.

É a cultura de autoridade inquestionável que dá salvo-conduto a estes líderes para que façam declarações como essa – ainda que ferindo os fundamentos éticos e legais de proteção à infância. A falta de mecanismos de responsabilização e o medo generalizado entre os membros da congregação de expressar desacordo criam um palco perigoso, perpetuando ciclos de abuso e mal-entendidos sobre a justiça e a moralidade.

Quantas declarações similares são feitas diariamente longe dos microfones e câmeras, em ambientes onde o controle e a autoridade são exercidos sem oposição? A cada sermão que culpa indevidamente as vítimas de abuso, a justiça é silenciada e a barbárie ganha terreno, fortalecendo uma cultura já permeada pelo autoritarismo.

Muitos líderes religiosos se posicionam como guardiões de uma moralidade estrita, interpretando as mudanças na sociedade como sinais de degradação ou corrupção moral. Essa postura solidifica sua autoridade dentro da comunidade e serve como um mecanismo para diferenciar e até isolar seus seguidores das influências externas consideradas nefastas, fortalecendo a coesão interna por meio de um inimigo comum.

Muitos líderes religiosos se apresentam como guardiões de uma moralidade estrita e veem as mudanças sociais como sinais de degradação moral. Essa postura não só solidifica sua autoridade dentro da comunidade, mas também cria uma barreira contra influências externas consideradas prejudiciais, fortalecendo a coesão interna por meio de um inimigo comum.

Frequentemente, essa tática envolve declarações extremas que visam chocar ou provocar, como a condenação veemente de diferentes estilos de vida, liberdades individuais ou direitos humanos. Nessa toada, a violência doméstica pode ser vista como um mal menor – ou até justificável, caso ocorra no âmbito conjugal,  a submissão feminina é encorajada e membros da comunidade LGBTQIAP+ são apresentados como pessoas desviadas de Deus.

A cultura de silêncio e medo que permeia algumas comunidades religiosas é um veneno silencioso que vai corroendo a confiança e a saúde emocional de seus membros. Como consequência, injustiças são encobertas e danos continuam a ser perpetrados.

As declarações irresponsáveis do pastor Jonas Pimentel não podem ser vistas como um deslize verbal, e sim como a manifestação alarmante de uma cultura que precisa ser erradicada. É preciso condenar veementemente essas práticas e reforçar o poder e a importância da denúncia. A internet, neste caso, tem sido uma ferramenta importante para distinguir o joio do trigo.

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