Eloisa Artuso

Pesquisadora, educadora, designer estratégica e cofundadora e diretora executiva da Febre, plataforma de pesquisa, estratégia e conteúdo multimídia

Opinião

As urgências do mundo retratadas por mulheres na Bienal de São Paulo

O trabalho (e a vida) da artista Sarah Maldoror transcende a ideia de um tempo linear e progressivo e suas obras são mais atuais do que nunca

Créditos: Divulgação
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Estou me programando para escrever essa coluna desde que fui convidada para a abertura da 35ª Bienal de São Paulo. Tentando encontrar um fio condutor, eu tive a oportunidade de conversar com a Annouchka de Andrade, filha da Sarah Maldoror, artista presente na mostra. Eu não estou aqui para falar exatamente sobre arte. Depois de ouvir Annouchka, entendi que deveria escrever sobre a história e as razões pelas quais Sarah Maldoror agiu em um mundo tão cheio de conflitos.

Segundo os curadores da Bienal, os artistas participantes “desenvolvem estratégias de contorno, atravessam limites e escapam das impossibilidades do mundo em que vivem. Lidam com a violência total, a impossibilidade da vida em liberdade plena, as desigualdades, e suas expressões artísticas são transformadas pelas próprias impossibilidades do nosso tempo.” Assim, Coreografias do impossível, tema desta edição, diz muito sobre os espaços e papéis ocupados pelas mulheres (dentro e fora da arte), que sempre dançaram coreografias impossíveis em um mundo estruturalmente machista e racista.

Conhecer a trajetória da Sarah me trouxe ainda mais perspectiva sobre as lutas que são lutadas todos os dias, que percorrem décadas e ainda se fazem necessárias, continuam vivas, reverberando no mundo de hoje, se transformando e refletindo as urgências de novas gerações. Seu trabalho, com certeza, transcende essa ideia de tempo linear e progressivo e suas obras estão mais atuais do que nunca.

Sarah Maldoror, que faleceu em 2020, nasceu na França, em 1929, foi poeta e cineasta, com mais de 46 filmes de ficção e documentários sob sua direção, sendo uma das primeiras mulheres a dirigir uma longa-metragem num país africano. Como parte do movimento negro francês, foi uma das fundadoras da companhia de teatro Les Griots, em Paris. A artista nunca gostou de falar sobre sua infância difícil, em uma família negra, de origem humilde, tendo perdido os pais ainda criança, o que a fez ir parar sozinha, sem os outros 3 irmãos, em um orfanato. Sarah, pelo contrário, sempre preferiu olhar para frente e nunca reclamar sobre as dificuldades que enfrentou ao longo de sua vida, como enfatiza a filha: “ela sempre foi otimista”.

Aos 18 anos, Sarah decidiu se mudar para Paris, onde encontrou pessoas com quem se identificava, e trabalhar com teatro. A partir dos autores e poetas que ela passou a ler e ter contato, incluindo Mario de Andrade, um dos fundadores do Movimento de Libertação da Angola, que se tornaria seu marido, ela teve a oportunidade de começar a construir sua própria identidade – a identidade que queria – ela queria “criar tudo”, diz Annouchka.

Seu primeiro “gesto político” foi escolher o próprio nome, comenta Annouchka, “quando ela chegou em Paris na metade da década de 50, decidiu ser chamada de Sarah Maldoror. Isso, para afrodescendentes, é muito importante, já que as pessoas escravizadas tinhas os nomes que seus ‘donos’ decidiam por eles”. O nome veio dos Cantos de Maldoror, uma obra de poesia escrita pelo Conde de Lautréamont. Annouchka faz questão de destacar essa passagem como forma de manter a memória da mãe, não como uma cineasta ou militante, mas como uma poeta, porque “sua maneira de se comportar, tudo o que ela fez, tudo o que ela quis vem da poeta. Para ela, poesia e literatura eram absolutamente fundamentais.”

E, por falar em poeta, esse esforço da Annouchka em preservar a história e o trabalho da mãe e da artista, me fez lembrar de um trecho muito potente da Audre Lorde quando fala sobre filhos: “Sabemos que todo o nosso trabalho neste planeta não será realizado durante a vida, talvez nem mesmo durante a vida de nossos filhos. Entretanto, se fizermos o que viemos fazer nossos filhos levarão isso ao longo de sua existência. E, se pudermos manter esse planeta girando, e permanecermos sobre ele o maior tempo possível, o futuro pertencerá a nós e aos nossos filhos, porque estamos criando uma visão enraizada na capacidade humana e no crescimento, uma visão que não se apequena diante da adversidade.”

Com isso, eu deixo um pouco mais da minha conversa com a Annouchka de Andrade:

EA: Como a Sarah encontrou o seu lugar no mundo e na arte? Como foi sua contribuição para a construção da companhia de teatro Les Griots. O que significava ser uma mulher negra na cena artística francesa daquela época?

AA: Quando a Sarah resolveu trabalhar com teatro, ela se inscreveu em uma importante escola, L’École de la Rue Blanche, e lá começou a aprender a atuar. Mas por ser mulher e negra, o único papel que ela poderia conseguir era o de empregada doméstica. Foi quando Sarah decidiu, ao lado de 3 colegas vindos de países africanos que havia conhecido na época, a criar a primeira companhia de teatro negra da França (talvez primeira da Europa): Le Griots. Com a companhia eles tinham três objetivos: atuar em qualquer papel que quisessem; compartilhar autores negros; e criar a primeira escola de teatro para pessoas negras.

EA: A Sarah foi pioneira em muitos aspectos e é considerada a mãe do cinema africano, tendo sido uma das primeiras mulheres a dirigir uma longa-metragem em um país da África. Como ela se envolveu com o cinema e quais temas ela retratava?

AA: Em 1959, a Sarah decidiu deixar a companhia de teatro e descobrir a África com meu pai, Mario de Andrade, presidente do Movimento de Libertação da Angola. Eles foram morar em Guiné-Bissau. Nessa época, ela optou por trabalhar com cinema, porque entendeu que seria a melhor forma de alcançar as pessoas, especialmente na África. Então, aprendeu a trabalhar com cinema por necessidade. Ela não queria mais atuar e passou a trabalhar como diretora. Nos anos 60, ela desenvolveu um senso de responsabilidade muito grande e dizia que “todo mundo, em todo lugar fala sobre a Guerra do Vietnã, mas não há nenhum filme e não há ninguém falando sobre o que está acontecendo na África, sobre as guerras pela libertação de Guiné Bissau, Moçambique ou Angola.” Ela não iria esperar alguém falar sobre isso e decidiu que faria ela mesma. Dentro desse contexto político, seus três primeiros filmes foram sobre guerras de libertação. O primeiro falava sobre colonialismo, o segundo sobre a importância das mulheres durante a guerrilha em Guiné-Bissau, e o terceiro, sobre o nascimento do Movimento de Libertação da Angola, a partir do ponto de vista de uma mulher.

EA: Eu já ouvi você dizer que a Sarah não era uma militante feminista, mas é visível a abordagem de seu trabalho pela perspectiva da mulher, pelos seus próprios olhos. Como você acha que essa perspectiva se desenvolveu ao longo de sua carreira, na maneira de enxergar o mundo e criar filmes?

AA: Ela era uma mulher e passou por muitas dificuldades por causa disso. Mas isso não era algo que a detinha. Por isso, eu prefiro lembrar da Sarah como uma poeta ou como alguém muito envolvida com política e com o que estava acontecendo à sua volta. Ela tinha a mente muito aberta e era muito interessada pelo mundo ao redor. Estava muito à frente do seu tempo. Por exemplo, ela tinha um projeto de filme sobre AIDS no começo dos anos 80, naquela época todo mundo tinha medo e não queria falar sobre o tema. Mas ela sabia que era algo importante.

EA: Ao olhar para o trabalho da Sarah, com seus entornos políticos, a dinâmica Norte-Sul Global através das complexidades do processo de descolonização nos países africanos, vemos que ela desafia o impossível, como propõe a Bienal. Na sua opinião, quais foram as formas, contextos e estratégias mais significativas que Sarah utilizou para ultrapassar os limites e escapar das impossibilidades do mundo em que viveu?

AA: Eu acho que toda a sua vida, desde o início, foi sobre lidar com o impossível: ser uma mulher e uma pessoa negra, nos anos 30, na França, e querer trabalhar com arte sem contar com a ajuda de ninguém… Ter a Sarah na Bienal, não é somente simbólico, mas algo que faz sentido. Tudo o que ela conquistou foi graças ao seu jeito otimista de trabalhar. Ela não tinha medo de recusar oportunidades se não fossem boas para seus filmes, mas quando via que algo seria bom para um projeto, para a causa ou para ela, ela ia até o fim. Por isso, era também muito difícil para a Sarah conseguir fazer os filmes que queria. Ela fez muitos curtas porque não tinha possibilidades financeiras de produzir longas. Ela sempre teve essa consciência política e de não comprometer seus valores – e nunca se comprometeu com algo que não acreditava. Ela poderia ter tido outra vida, outra carreira, se tivesse aceitado o contrário.

EA: Ainda no contexto da Bienal, os participantes demonstram o objetivo dos curadores de enfrentar as urgências do mundo de hoje e reunir as vozes das diásporas e dos povos indígenas, ampliando o diálogo local e internacional. Como você acha que as obras de Sarah dialogam com os demais artistas?

AA: Eu acho que o grupo de curadores fez um ótimo trabalho, havia muito diálogo com os outros artistas. É muito interessante ter a Sarah lá, porque a Bienal não é uma cinemateca, não é um lugar que concentra somente cineastas, mas artistas. E isso é muito novo para nós, desde sua primeira exposição no Palais de Tokio, em 2021, em Paris. Ver agora a nossa mãe sendo reconhecida como uma artista e na Bienal, uma mostra de arte, isso é algo que a Sarah teria amado. O que eu gostaria que fosse lembrado sobre minha mãe é a mensagem: não esqueça, siga em frente, e se você cair, se levante e continue! A primeira imagem, na entrada da sala de exposição dedicada à Sarah, é uma foto sua que expressa que nós precisamos lutar em diferentes campos, sem fronteiras. Ela era francesa, mas sua identidade era africana, porque nossos ancestrais foram escravizados. Sarah fez parte da guerra em Guiné-Bissau, Angola e também lutou com os Panteras Negras e pelos palestinos, ela era parte do mundo. Então, estar na Bienal, em São Paulo, significa dizer que não importa sua nacionalidade, se você tem um objetivo, você precisa fazer tudo junto.

EA: Nesse sentido, o trabalho da Sarah parece transcender a ideia de tempo linear e progressivo e o que ela discute através de suas obras parece mais atual do que nunca. Como você vê o legado dela hoje e como você acha que o seu trabalho pode alcançar e inspirar as gerações futuras?

AA: O que eu entendi é que seus filmes não envelheceram, mesmo tendo sido lançados há 40 anos, ainda são muito interessantes. Eles falam sobre a luta de mulheres, sobre respeito e a solidariedade que temos com as gerações passadas. A solidariedade é muito, muito importante. Esse tipo de trabalho não fica ultrapassado e pode ser inspirador para as novas gerações. O que eu tento dizer para as pessoas jovens é o lema da Sarah: “não tenha medo de ser solidário, de ter a mente aberta e não pare no primeiro problema que aparecer, mas tente seguir em frente.”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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