Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

2019, um “novo tempo, apesar dos perigos”

Nunca um governo se valeu tanto da fé cristã para maquiar oportunismos e fragilidades

Bolsonaro e Damares (Foto: ABr)
Bolsonaro e Damares (Foto: ABr)
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Retomo nesta quarta-feira 6 a dinâmica da coluna Diálogos da Fé, depois daquela parada para o necessário revigoramento a fim de viver o novo ano. E 2019 já exige bastante vigor de quem se identifica com a busca de paz com justiça para todos.

A começar pelos feitos iniciais do novo governo. Primeiro, uma Medida Provisória para facilitar o porte de armas e a legalização de armamentos irregulares. Uma “política de segurança” baseada no salve-se quem puder e no “olho por olho dente por dente”. Depois, um decreto que viola radicalmente o princípio de transparência e do acesso cidadão às informações públicas, comprometendo a Lei de Acesso à Informação.

Seguiu-se o fiasco da participação do presidente na reunião do Fórum Econômico de Davos. Além de apresentar um discurso raso no evento, que havia aberto as portas para o político, cancelou a entrevista coletiva que é grande cartão de visitas a investidores.

Somam-se aí as bravatas da prisão e extradição do controverso foragido italiano dos anos 70, Cesare Battisti, e do reconhecimento da presidência interina de oposição na Venezuela, com consideração de participação em intervenção militar naquele país.

Testemunhamos ainda uma intensa militarização.

Desde o fim da ditadura, em 1985, nunca houve uma ocupação massiva de militares em cargos governamentais estratégicos como há agora.

Ao menos 45 estão em diferentes escalões de ministérios e estatais. Só entre ministros, são sete. Ação nada comum para uma democracia que demanda lideranças preparadas para atuar na política de forma justa e não dirigentes formados para combater inimigos.

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Por falar em preparo, passamos a conhecer ministros e ministras em aparições públicas, contato com a imprensa e mídias sociais recheadas de conteúdos vulgares e banais de guerrilha ideológica, como é o caso de Damares Alves (Direitos Humanos e Família), Ricardo Vélez Rodríguez (Educação) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores).

É um governo ideologicamente comprometido. Primeiro, pelos discursos que fazem uso retórico da religião para preencher o vazio da falta de projetos, de propostas que mudem positivamente a vida da população.

Nunca um governo se valeu tanto da fé cristã para maquiar oportunismos e fragilidades. O caso da controversa eleição para a presidência do Senado, uma artimanha do governo para impor seu candidato, com o uso da imagem Davi vs. Golias é a mais nítida ilustração.

Segundo, pelo discurso de combate à corrupção, com o qual foi eleito, que não se reflete na prática. Além de ao menos três ministros nomeados com graves acusações de roubo e favorecimento ilícito, a própria família do capitão se encontra sob graves suspeitas. Está envolvida em apropriação ilícita de dinheiro público e também em dar e receber apoio do crime organizado.

Por certo há quem expresse otimismo com estas propostas e admiração pelos avanços que supostamente trarão, identificando-se com estes discursos. Quem tem algum anseio de paz com justiça para todos sente-se, porém, desanimado, inseguro e desesperançado. É como se estivéssemos por atravessar um deserto, ou a vivência de um tempo de seca, esterilidade e muito medo do que se vai encontrar.

A simbologia do deserto

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Na tradição cristã, a figura do deserto é tudo isto e mais. As narrativas da Bíblia mencionam várias vezes o deserto como um lugar difícil de se experimentar, mas também espaço de passagem para um novo tempo.

Naquele contexto, o deserto tem uma aparência mais melancólica do que aquele das românticas dunas de areias brancas, com terra estéril, cinza, cheia de pedras, habitada por serpentes e escorpiões, inspirando desânimo e morte.

Entretanto, o deserto é ali um lugar de passagem, de refúgio, de autoexame, de escuta, de vivência de crises, de aprendizado e preparação. As narrativas falam de escravos que passaram pelo deserto, sob a liderança de Moisés, para fugir da opressão dos egípcios, em busca de uma vida nova com liberdade e terra para sobreviver.

Referem-se também ao deserto como espaço de refúgio para profetas perseguidos por autoridades políticas depois de denunciarem injustiças e iniquidades.

Foi lugar de onde emergiu a voz de João Batista, em oposição à opulência, à arrogância e à exploração do rei Herodes e da religião que o sustentava.

O deserto foi, de igual modo, o ambiente onde Jesus se preparou para atuar no seu tempo e lugar, e onde superou as tentações que o impediriam de andar na contramão da lógica dominante de sua época.

Os textos sagrados para os cristãos não deixam de falar do deserto como espaço de sequidão, insegurança e medo, mas reconhecem que, muitas vezes, é preciso passar por ele para se alcançar um tempo novo.

É um lugar simbólico, o qual todos nós experimentamos. Significa reconhecer a vida como uma caminhada composta de crises, individuais e coletivas, que são passagens, oportunidades de transformação.

Portanto, tomemos este tempo como um momento de aprendizado e preparação. Vivê-lo como uma oportunidade de mudança. Parafraseando o poeta, um novo tempo apesar dos castigos, dos perigos, da força bruta, em que estejamos crescidos, atentos, mais vivos para nos socorrer, a fim de que nossa esperança seja mais que vingança.

Estamos na luta para sobreviver aos desertos.

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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