Entrevistas
‘2022 foi a exceção da exceção’: Diretor-geral da PRF vê instituição reabilitada após Silvinei Vasques
Em entrevista a CartaCapital, Antônio Fernando Oliveira rejeita a pecha de polícia bolsonarista e defende a ampliação de atribuições prevista na PEC da Segurança Pública
O baiano Antônio Fernando Oliveira assumiu o comando da Polícia Rodoviária Federal em 2023, em um dos momentos mais delicados da história da instituição. Àquela altura, os episódios de abusos policiais e a atuação pró-golpe do seu antecessor, Silvinei Vasques (atualmente preso), deixaram a PRF sob forte desconfiança institucional, a ponto de o decano do STF, Gilmar Mendes, sugerir a extinção da corporação. Três anos depois, defende ele em entrevista a CartaCapital, a PRF superou a crise reputacional e hoje atua sob um novo padrão de governança e integração, à luz da possibilidade de ver suas competências ampliadas.
A ampliação das atribuições da PRF prevista na PEC da Segurança Pública, aliás, é interpretada por Oliveira como um sinal de mudança na percepção do governo Lula (PT) sobre a instituição. Com a proposta, em vias de ser votada na Câmara, os policiais rodoviários também atuarão na fiscalização de rodovias e hidrovias. A versão inicial do texto previa a transformação da corporação em “Polícia Ostensiva Federal”, mas o Ministério da Justiça e Segurança Pública recuou após críticas e reformulou a proposta.
O diretor-geral admite que a ampliação exigirá novos investimentos, mas afirma que a instituição está preparada para a transição. “Pelo que conheço da PRF, pela estrutura da nossa escola de formação e pela experiência acumulada no policiamento logístico, não teremos grandes dificuldades para nos adaptar e executar as novas missões”.
À reportagem, Oliveira apontou a competição institucional entre órgãos como um entrave histórico à eficiência do sistema de segurança pública, afirmando que em sua gestão tem atuado por uma aproximação com a Polícia Federal. Além disso, rechaçou a pecha de que a PRF teria se tornado a “mais bolsonarista” das forças policiais sob Jair Bolsonaro. Para ele, a aproximação de segmentos da categoria com determinados discursos políticos decorreu, em parte, de um sentimento de desvalorização institucional.
Em ano eleitoral, o diretor-geral avalia ainda que o cenário para 2026 é de normalidade operacional. “2022 foi a exceção da exceção”, afirma, pontuando que a PRF retomou em 2024 o modelo tradicional de atuação em eleições e repetirá o padrão neste ano. A diretriz é garantir fluidez nas rodovias federais e assegurar que o eleitor chegue à sua zona eleitoral sem interferência ideológica.
Confira, a seguir, os destaques da entrevista.
CartaCapital: A segurança pública é considerada um dos principais gargalos do País e deve ocupar um papel de centralidade nas eleições deste ano. O que nos levou ao atual cenário?
Antônio Fernando Oliveira: A pauta segurança pública no Brasil, verdadeiramente, nesses 31 anos que eu estou na polícia, nunca foi prioridade. Dizer que isso é responsabilidade do governo federal não me parece real, porque, pela própria Constituição, prioritariamente a segurança pública é responsabilidade dos Estados. Ela é subsidiariamente atendida pelas forças federais, mas a competência originária da grande maior parte das políticas públicas de segurança pública é dos Estado. Isso é uma questão legal. Mas, no governo atual, a gente percebe uma iniciativa para as políticas de segurança pública, tanto que o governo propôs uma PEC para tratar da segurança pública, onde a Polícia Rodoviária Federal é extremamente impactada. Talvez seja a instituição isolada com maior impacto.
Entendemos que a PEC resolve em parte essa estrutura, porque as forças de segurança pública no País hoje estão divididas entre o policiamento ostensivo preventivo e o policiamento judiciário. Nós não temos o ciclo completo de polícia, entendendo que a escolha foi por esse modelo, na União nós temos a polícia judiciária cuidando de todas as áreas de interesse da União, mas quem faz o policiamento ostensivo preventivo na União é a Polícia Rodoviária Federal. E ela está, por força constitucional, restrita às rodovias federais. Então, acho que o que se pode fazer verdadeiramente para melhorar a eficiência das polícias da União é criar realmente estrutura para uma Polícia Ostensiva da União, para fazer o policiamento ostensivo preventivo nas áreas de interesse da União.
CC: Com a PEC da Segurança Pública no Congresso, prevista para ser analisada na próxima semana na Câmara dos Deputados, a PRF pode ter suas atribuições ampliadas para atuar fiscalizando ferrovias e hidrovias, por exemplo. A corporação está estruturalmente preparada para isso?
AF: Vamos precisar de mais investimento, isso é óbvio. Se eu dissesse que, com o investimento que tem hoje, conseguiria assumir mais duas modalidades, eu estaria não só mentindo como sendo irresponsável. Vamos, sim, precisar de investimento em equipamentos, de aumento de contingente para poder assumir as outras modalidades, mas, pela expertise, pelo tempo e pelo conhecimento que nós temos de policiamento ostensivo preventivo e de policiamento de logística, diria que a PRF está pronta para fazer. Não tenho dúvida, pelo que conheço da PRF, pelo que temos hoje de escola de formação para preparar os policiais nessas novas áreas de atuação e pela prática de policiamento de logística, de que a PRF não terá grandes dificuldades para se adaptar e executar as novas missões.
CC: A versão inicial da PEC previa transformar a PRF em Polícia Ostensiva Federal, com atuação ampliada no combate ao crime organizado. O recuo para um modelo mais restrito, de Polícia Viária Federal, foi visto por parte do efetivo como perda de protagonismo. O senhor avalia que a PRF perdeu espaço estratégico nesse redesenho? Há, dentro da corporação, um desejo de ampliar a atuação para além da segurança viária?
AF: A PRF, na verdade, já tem as atribuições de combate ao crime organizado e de segurança viária, e a gente não faz muita distinção. Não priorizamos uma em detrimento da outra. Inclusive porque entendo que o conceito de segurança viária precisa ser ampliado, porque entendo como segurança viária a garantia da integridade e da segurança de quem usa uma rodovia, da origem ao seu destino. E não interessa qual seja a ameaça que leve a risco aquele cidadão que está usando a rodovia. Se é a atuação de um agente criminoso ou se é a questão da irresponsabilidade no trânsito, se ameaçou quem está usando a rodovia, se ameaçou a segurança de quem está usando a rodovia, a PRF tem que atuar para garantir essa segurança. Então, acho que a segurança é contra qualquer tipo de ameaça. Você me pergunta se a PRF tem interesse em atuar e a minha resposta é: a PRF tem interesse em servir ao Brasil. Se o Brasil precisa de uma polícia ostensiva que garanta maior segurança pública à nossa população, certamente a PRF tem interesse em prestar esse serviço. O nosso interesse é garantir a segurança para o povo brasileiro.
CC: O senhor assumiu a PRF quando a corporação era apontada como a mais alinhada ao bolsonarismo, especialmente após as blitze nas eleições de 2022 e a atuação do ex-diretor-geral Silvinei Vasques nos episódios investigados pelo Supremo Tribunal Federal. A imagem da instituição já foi plenamente restaurada?
AF: Não acredito que essa pecha de “a mais bolsonarista” seja verdadeira.
CC: Por que?
AF: Porque, como já falamos, as estruturas e as políticas de segurança pública demoraram muito para se tornar prioridade para o Poder Público. Historicamente, os governos demoraram a entender que isso precisava ser prioridade. E por que precisa ser prioridade? Porque, se a segurança pública não estiver garantindo a integridade das pessoas, físicas ou jurídicas, ‘negócio’ Brasil fica ameaçado. Se não combatermos o crime organizado hoje, ele inviabiliza o ‘negócio’ Brasil. O País fica ameaçado por uma atuação que já não se restringe a atividades ilegais. Nós vimos na Operação Carbono Oculto que o crime organizado está se inserindo em atividades lícitas de mercado. Então é preciso combater essas estruturas, e para isso a segurança pública precisa ser valorizada.
Quando uma categoria se sente excluída das prioridades das políticas públicas e alguém passa a dizer, ainda que não concretize, que vai valorizá-la ou que ela precisa ser valorizada, essas categorias tendem a aderir a esse discurso. E isso não aconteceu só com a PRF, mas aconteceu com todas as polícias. Basta observar as polícias militares nos estados. Quem era o ministro da Justiça quando houve a operação da PRF em 2022? Um delegado federal. Quem era a chefe da inteligência do ministério que levantou os dados para aquela operação? Uma delegada federal. Quem era o chefe da Abin [a Agência Brasileira de Inteligência]? Um delegado federal. Então, em verdade, nós fomos, como instituição, atingidos por essa narrativa, como todas as outras.
CC: Já foi possível reverter isso?
AF: O Brasil não nasce do nada, e as polícias são parte da sociedade. O País ainda está dividido. Não gosto muito de chamar de polarizado, porque polarização sugere estruturas equivalentes em lados opostos, e não enxergo isso. Vejo uma estrutura política mais radicalizada de um lado e uma estrutura mais de centro do outro. Não enxergo um extremo equivalente. Por isso não gosto do termo polarização. Mas a sociedade ainda vive esse cenário. E, sendo as polícias parte da sociedade, isso também se reflete nelas. Acho também — e isso é fato, não opinião — que as polícias tiveram maior valorização no governo atual do que nos sete anos anteriores. A PRF não teve qualquer reajuste salarial nos sete anos anteriores ao atual governo. Terminamos o período (2019 – 2022) com remuneração nominalmente menor do que no início, porque não houve reajuste e houve aumento do desconto previdenciário com a Reforma da Previdência. Isso é um sinal claro de desvalorização da segurança pública. No governo atual já houve recomposição salarial e, com a proposta da PEC, se aprovada, haverá uma reestruturação da própria segurança pública. E acho que isso tende a valorizar a segurança pública.
Câmera corporal em uniforme de policial militar do Estado de São Paulo. — Divulgação/Secom/GESP
CC: A instalação de câmeras corporais nos PRFs é uma promessa de sua gestão. O que já foi feito até aqui?
AF: Já instalamos em parte do nosso efetivo no Rio de Janeiro e estamos, nesta semana, instalando em Brasília, também em parte do efetivo. Como não podíamos fazer algo apenas porque eu queria, precisávamos fazer algo com evidência científicas, iniciamos um estudo em 2023 que tem sido conduzido por uma comissão. Nesses estudos, percebemos que a PRF tem uma peculiaridade que outras polícias não têm, nenhuma do mundo: nossas escalas de serviço são de 24 horas. Policiais que fazem policiamento ostensivo trabalham em escala de 24 horas. Não estou falando de policiamento judiciário, mas de policiamento ostensivo com uso de câmeras. Detectamos também que, no mercado, as baterias têm duração máxima de 16 horas. Então conseguimos desenhar, com base em todo o estudo realizado, um modelo de atuação que efetivamente funciona com o modelo de policiamento que a PRF executa.
Conectamos uma câmera que funcionará de forma vinculada às viaturas, associada às câmeras corporais utilizadas pelos policiais. Qual é hoje a grande dificuldade de implementação? A nossa licitação está em andamento e outras instituições, inclusive o Ministério da Justiça, estão associadas à nossa licitação. Terminamos, sem querer, tornando-nos referência para outras polícias. A grande dificuldade hoje é o custo. As câmeras, em si, não são o maior investimento. O maior custo está na manutenção e no armazenamento dos dados. O valor das câmeras é ínfimo em comparação [a isso], não chega a 10% do valor total que precisamos investir. A dificuldade atual é garantir orçamento para a criação de um banco de dados que suporte o armazenamento das informações produzidas pelas câmeras. Isso já está sendo discutido com o Ministério da Justiça e tenho esperança de que consigamos concluir essa contratação o mais rápido possível.
CC: As câmeras corporais, então, terão acionamento manual? Esse é um modelo criticado por especialistas porque isso poderia comprometer eventuais investigações. Existe algum mecanismo que impeça o desligamento deliberado das câmeras?
AF: Nós temos essa dificuldade [de ter câmeras com gravação ininterrupta] por conta das baterias e do consumo de energia. O que foi preconizado nesse modelo? Ele é acionado pelo policial, mas não é discricionário. O policial tem a obrigação de gravar toda a abordagem que fizer. Como os nossos procedimentos são todos feitos em meio eletrônico, em sistemas, a instituição fornece aparelho celular a todos os policiais, porque nossas plataformas rodam no celular. Tudo é feito e registrado ali. Então, se houver algum registro de abordagem e não houver gravação, ele terá que justificar por que não gravou. Portanto, não é discricionário. O acionamento inicial é feito por ele no início da abordagem. O que acontece é que a gravação permanece em baixa resolução contínua e, quando ele aciona, o sistema retrocede — se eu não me engano, três segundos — e passa a gravar em resolução maior.
CC: Existem muitas críticas de agentes policiais às câmeras corporais sob o argumento de que elas inibiriam o uso da força policial. Como foi a recepção da iniciativa na corporação?
AF: Fala-se muito na mídia sobre a câmera corporal como se ela fosse uma espécie de vigilância eletrônica do policial, mas não é assim. Este é um equipamento de garantia da atividade policial, que protege o terceiro de um possível excesso por parte do policial, mas essa proteção é, digamos assim, um efeito colateral da razão principal de existir do equipamento. A PRF é uma polícia muito rural. Trabalhamos muitas vezes em áreas onde estão apenas os nossos agentes e o abordado.
Há um caso registrado, por exemplo, de um policial que foi atender uma ocorrência de baixo risco, um acidente com danos materiais, sem vítima grave ou óbito. Ao chegar ao local, um dos envolvidos estava armado e alcoolizado. A tensão começou a evoluir e, por iniciativa própria, o agente retirou o celular do bolso e começou a gravar o áudio. Essa gravação registra exatamente o momento em que o envolvido saca a arma e aponta para o policial, que reage. O envolvido foi a óbito em uma ação típica de legítimo uso da força. Se não houvesse essa gravação, seria muito difícil para o policial comprovar o que ocorreu. Então a câmera corporal serve para isso: para demonstrar a lisura da atividade policial. Ela é, de fato, um equipamento de proteção do policial e da atividade policial. Por via oblíqua, por consequência, também protege o cidadão contra eventual abuso da força policial.
CC: 2026 é ano de eleição. Como garantir que a politização, a política partidária fique longe da corporação?
AF: Isso não me assusta. Por que não me assusta? Porque a polícia tem um histórico de 97 anos de existência. Não foi a primeira eleição que fizemos em 2022. [O ano de] 2022 foi a exceção da exceção. Já realizamos várias eleições. O que fizemos em 2024 foi retomar o modelo anterior, que sempre adotamos, com padrão de acompanhamento, e executá-lo naquele ano. E faremos o mesmo em 2026. O trabalho da polícia é garantir a fluidez do trânsito e assegurar que o eleitor chegue até sua zona eleitoral. Nosso trabalho, como instituição de proteção da lei, é proteger a lei e, por consequência, a democracia, que é de onde essas leis se originam. Cada cidadão tem o direito de escolher o modelo de sociedade que entende como adequado para si. Os policiais também têm esse direito, mas, na atividade, a PRF não tem partido.
A PRF não tem escolha ideológica. A nossa ideologia é o cidadão brasileiro, é garantir ao cidadão brasileiro a aplicação da legislação e a segurança no seu deslocamento, para que, no dia da eleição, brilhe quem tem que brilhar. Neste caso, a democracia.
Aquela portaria conjunta do Ministério da Justiça e do TSE nasceu de uma ideia minha. Conversei com a ministra Cármen Lúcia [presidente do TSE] no sentido de que, se já se posterga o cumprimento de mandados de prisão em determinados casos para preservar o princípio democrático por entender que a democracia é um valor a ser preservado acima da própria prisão naquele momento, seria razoável também haver um respaldo legal para não realizar retenção de veículos que não estivessem ameaçando a segurança das pessoas. Construímos essa ideia e isso resultou na portaria que garantiu a postergação de determinadas medidas administrativas envolvendo veículos, justamente porque o veículo garante a chegada da pessoa à sua zona eleitoral.
Ato liderado por Nikolas Ferreira, em Brasília, em 25 de janeiro de 2026. Foto: Sergio Lima/AFP
CC: Por que a PRF decidiu não intervir na caminhada promovida pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na BR-040, mesmo após pedidos de parlamentares do PT e uma notificação da corporação sobre os ‘riscos operacionais’ no ato?
AF: O que a PRF busca fazer, e essa é a nossa obrigação, quase uma obsessão, é garantir a segurança da vida das pessoas. Quando alguém realiza um manifesto em rodovia, qual é a nossa preocupação? A segurança de quem está fazendo o manifesto, que é um direito democrático, e a segurança de quem está utilizando a via. Temos que garantir a segurança do cenário. Por isso a legislação preconiza que o manifesto deve ser comunicado previamente, para que os órgãos de segurança possam se estruturar. Não apenas a PRF, mas todo o aparato público precisa poder se preparar para a manifestação. Nesse caso, não houve essa comunicação prévia. Mas, existindo um manifesto em execução, qual é a principal preocupação da polícia? Garantir a segurança das pessoas. Foi o que fizemos. Garantimos a segurança dos usuários da rodovia e também dos manifestantes. Mais uma vez: a PRF não tem partido, a PRF não faz escolha ideológica. A escolha da PRF é garantir a segurança do brasileiro e servir ao brasileiro.
CC: Após os bloqueios de rodovias em 2022, quais protocolos a PRF adotou para evitar novas interdições com motivação política? Em ano eleitoral, há preocupação com a repetição desse cenário?
AF: Fazemos o acompanhamento das rodovias em tempo integral, realizamos levantamentos permanentes sobre possíveis manifestações. Manifestos em rodovia são um cenário propício para chamar atenção, inclusive da imprensa. Nada chama mais atenção do que uma rodovia bloqueada, isso acabou se tornando algo cultural no Brasil. A PRF lida com esse tipo de situação o tempo inteiro e de forma contínua. Espero que a população brasileira compreenda as regras do jogo democrático. Que as pessoas tenham livre acesso, livre voto e livre escolha, que a maioria escolha seu governante e que quem optar por outra alternativa e seja derrotado nas urnas, entenda o funcionamento da democracia, respeite as regras e se reorganize para a próxima eleição. É assim que funciona a democracia. É isso que esperamos. Qualquer ameaça que ocorra fora do regramento legal encontrará a PRF, como força policial, pronta para agir. Atuaremos para garantir a segurança do trânsito, a fluidez das pessoas e das riquezas do Brasil, como sempre fazemos diante de qualquer ameaça.
CC: Qual legado o senhor pretende deixar à frente da PRF e por quais resultados gostaria de ser lembrado ao fim da gestão?
AF: Eu assumi a polícia talvez no pior momento histórico da instituição, a ponto de o decano do Supremo Tribunal Federal [Gilmar Mendes] ter publicado em rede social que o Brasil deveria repensar a existência da PRF. Com um trabalho sério, dedicado e comprometido com a segurança pública, o governo passou a se sentir tranquilo para propor uma emenda constitucional ampliando as atividades dessa polícia. Ou seja, é evidente a mudança de avaliação de um período para o outro e acho que isso já representa um legado importante.
Outro ponto fundamental é garantir a integração da PRF com as demais estruturas de segurança pública. O que hoje ameaça a ampliação da eficiência das estruturas policiais no Brasil é a competição institucional. Não vejo espaço nem razão para isso existir. As competências das estruturas públicas são definidas por lei, bem delimitadas e complementares. Desde o meu primeiro dia como diretor da PRF, por exemplo, trabalhei para integrar as corporações. Tenho excelente relacionamento com o diretor Andrei [Passos]. Hoje, a Polícia Rodoviária Federal tem uma relação muito boa com a Polícia Federal e esse tipo de integração amplia a eficiência das polícias.
Outro legado é a internacionalização da atividade da PRF. Pela primeira vez, integramos um organismo internacional de cooperação policial nas Américas. Assinamos memorandos de entendimento com polícias da Colômbia, Chile e Argentina; temos dois memorandos prontos para assinatura com Uruguai e Paraguai, assinamos também com França e Itália, e neste mês estamos indo a Portugal para formalizar novo acordo. Essa integração entre polícias é essencial para aumentar a eficiência. Sem integração, cada agência se aproxima rapidamente do seu limite máximo de atuação.
Se continuarmos fazendo exatamente a mesma coisa, não teremos resultados diferentes. Precisamos fazer algo diferente. E o diferente, para mim, é integração, não apenas entre polícias, mas entre todas as agências públicas. Por exemplo, entre a PRF, a PF e a Receita Federal, uma parceria que estamos construindo. Recentemente estive com o secretário especial da Receita Federal [Robinson Barreirinhas], justamente para aprofundarmos essa aproximação.
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