‘Se não fosse um banco público, não haveria auxílio emergencial’

Em entrevista a CartaCapital, o presidente da Fenae, Sérgio Takemoto, celebra 160 anos da Caixa Econômica com brado contra a privatização

Edifício da Caixa Econômica Federal, em Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Edifício da Caixa Econômica Federal, em Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sociedade

Maior banco público da América Latina, a Caixa Econômica Federal chegou aos seus 160 anos na última semana, em 12 de janeiro, sob risco de privatização. É o que apontam os trabalhadores da empresa estatal, que sopraram as velinhas com um ato em Brasília, em defesa da Caixa 100% pública e da valorização dos empregados.

 

 

 

Nascida por decreto de Dom Pedro II, em 1861, a Caixa Econômica logo tornou-se “o banco das pessoas escravizadas”, onde elas depositavam suas economias para que pudessem ser livres, segundo explica Sérgio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal, em entrevista a CartaCapital. Desde então, diz ele, o banco demonstra seu papel basilar na execução de programas sociais.

É o caso do auxílio emergencial, afirma Takemoto, algo possível apenas porque a Caixa é um banco público. Segundo o Ministério da Cidadania, 67,8 milhões são beneficiários diretos do programa.

“Se não fosse um banco público, não haveria condições no sistema privado”, diz Takemoto. “É preciso resgatar o papel da empresa pública, valorizar os empregados e mostrar que a população corre o risco de perder a Caixa.”

O governo do presidente Jair Bolsonaro apresenta intenções claras de privatizar uma série de empresas públicas. No entanto, o Supremo Tribunal Federal determinou, em 2019, que o Executivo só pode privatizar essas companhias se houver votação no Congresso Nacional.

Sem base de apoio até agora para aprovar essa proposta no Parlamento, o governo tenta desmontar a Caixa aos poucos, destaca Takemoto. Em 2020, Bolsonaro editou a Medida Provisória 995, que autorizou a venda de fatias da empresa. O texto perdeu validade meses depois, mas a tática segue em curso, diz o presidente da Fenae.

“Ele pega as partes onde a empresa-mãe atua e cria uma empresa subsidiária para administrar esse setor que eles querem vender”, afirma Takemoto, em referência a setores que o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, já sinalizou vontade de privatizar: cartões, seguros, banco digital e loterias.

Confira, a seguir, a entrevista completa.

 

 

CartaCapital: Nesses 160 anos, quais foram os principais momentos em que a Caixa teve atuação decisiva para o país?

Sérgio Takemoto: Destacar os principais momentos é muito difícil, porque a Caixa sempre esteve presente na vida do povo brasileiro. Mas vale realçar o início da sua criação, quando a Caixa logo se tornou o banco das pessoas escravizadas. Essas pessoas depositavam suas parcas economias para alcançarem a tão desejada liberdade. Então, desde a sua criação, a Caixa já se mostrava um banco preocupado com a questão social, para a realização dos sonhos da população brasileira.

Depois, houve outros momentos. Vamos pegar os mais recentes. A Caixa se tornou o banco da habitação com a incorporação do BNH [Banco Nacional da Habitação], em 1986.

Na década de 1990, a Caixa centralizou todas as contas do Fundo de Garantia.

Em 2008, a Caixa foi chamada para ajudar no controle da crise financeira mundial e foi fundamental para que os impactos não chegassem com tanta força aqui no Brasil.

No ano passado, com o auxílio emergencial, a Caixa atendeu mais de 110 milhões de pessoas. Então, sempre foi o banco que esteve presente nas políticas sociais, para ajudar a população mais carente. São vários fatos marcantes.

 

CC: Qual tem sido a estratégia atual para privatizar a Caixa?

ST: O Supremo Tribunal Federal proibiu a venda das empresas estatais “mães” sem votação no Congresso. Ou seja, não pode privatizar a Caixa, a Petrobras, o Banco do Brasil, sem o aval do Congresso. Então, o que o governo tem feito? Ele pega as partes onde a empresa-mãe atua e cria uma empresa subsidiária para administrar esse setor que eles querem vender. Ou seja, na Caixa, eles criam uma empresa subsidiária para os cartões, uma para o seguro, outra para o banco digital. Em seguida, transferem os serviços para a empresa subsidiária e, depois, vendem essa empresa.

Ou seja, eles criam as subsidiárias para vendê-las ao mercado financeiro internacional, para os grandes conglomerados, e isso enfraquece a empresa-mãe. A gente vê isso com mais rapidez na Petrobras. Já venderam refinarias, a transportadora de gás. E essas empresas são essenciais para a matriz. É como acontece hoje na Caixa: tentar vender o setor de cartões, de seguros, do banco digital. O Banco Central deu parecer favorável para a criação do banco digital da Caixa, e então o governo transfere os serviços para esse banco digital. Depois, você vende o banco digital e ele deixa de ser patrimônio do Estado para passar às mãos da iniciativa privada. Isso é privatização. Isso representa o enfraquecimento da empresa pública.

 

CC: A quem interessa privatizar a Caixa, e por quê?

ST: A privatização de uma empresa pública nunca é interessante para a população. Por que a gente afirma isso? Porque, privatizando, você passa recursos para a iniciativa privada. E a iniciativa privada só se interessa pelo lucro. Então, eles só vão se interessar por aquilo que dá rentabilidade. O governo ainda quer privatizar as loterias e a gestão do fundo de garantia, que são fontes de recursos para programas sociais. Nas loterias, 40% de tudo o que é arrecadado vai para programas sociais. Indo para a iniciativa privada, não haverá mais esses recursos, tudo vai para o bolso do dono da empresa.

A quem interessa a privatização? A esses grandes conglomerados financeiros. Um exemplo claro disso é o que ocorre na Petrobras. A transportadora de gás foi privatizada, o preço do botijão foi para as alturas, e quem está sendo beneficiado com isso? Somente o mercado financeiro.

A Caixa detém uma fatia muito grande do mercado em determinados setores, e a iniciativa privada, incomodada, quer abocanhá-la. A partir da crise de 2008, a Caixa e o Banco do Brasil cresceram muito. A Caixa detém 40% de toda as contas de poupança nacionais, 70% dos financiamentos de habitação, mais de 100 milhões de clientes. O setor privado tem muito apetite em pegar seu patrimônio.

 

CC: Parlamentares contrários à privatização defendem a aprovação de medidas que fortaleçam os bancos públicos. Quais seriam as medidas ideais?

ST: Sem dúvida nenhuma, essa é a nossa briga também. Eles não vão privatizar a Caixa, eles estão enfraquecendo e privatizando o banco. Então, é preciso fazer uma política contrária, de fortalecimento. Foi aquilo que os bancos públicos viveram de 2004 a 2016, quando eles foram atualizados tecnologicamente, receberam novas funções, houve a contratação de pessoal. Nós chegamos a ter 101 mil trabalhadores. Hoje, estamos com 82 mil empregados. Houve piora nas condições de trabalho e de atendimento.

É totalmente o contrário do que defendemos: investir em tecnologia, em pessoas, em programas que eles são responsáveis, como a habitação na Caixa e a agricultura familiar no Banco do Brasil. Fortalecendo as políticas públicas, fortaleceremos os bancos públicos.

 

CC: Como estão as condições dos trabalhadores da Caixa hoje?

ST: Os empregados da Caixa estão esgotados fisicamente. Desde que iniciou a pandemia, o trabalho continuou. É preciso atender mais de 100 milhões de pessoas em condições adversas.

E há uma responsabilidade perante a população, principalmente com os mais carentes que precisavam do atendimento na Caixa para receber o auxílio emergencial. O movimento sindical e associativo sempre reivindicou que houvesse uma diversificação dos bancos para fazer o pagamento do auxílio, para que não ficasse restrito à Caixa. Mas não fomos atendidos. Somente a Caixa fez o atendimento, apesar de todo o desgaste. Muitos trabalharam de segunda a sábado, de oito a doze horas por dia.

Os empregados também tiveram que cumprir com metas abusivas, desumanas, impostas pela gestão da Caixa. Metas em cartões, seguros, previdências, de todos os produtos da Caixa. Isso gerou um desgaste muito grande. Além de estarem preocupados com a saúde, os empregados foram cobrados por vendas de produtos.

Então, nós da Fenae lançamos uma campanha de valorização dos empregados. Tentamos negociar que não houvesse cobrança de metas nesse período, por entendermos que a principal meta dos empregados era atender a população no pagamento do auxílio emergencial. Estamos nos juntando a várias entidades na campanha em defesa da Caixa e das empresas públicas, articulando com parlamentares e entrando com ações na Justiça.

 

CC: Algo não pode passar despercebido na história da Caixa?

ST: O que a gente sempre reforça é qual o papel da Caixa, e que função desempenhou nesse momento de pandemia. Qual o banco teria condições de fazer esse papel que a Caixa fez, de atender mais de 100 milhões de pessoas em um curto espaço de tempo? Nenhum banco privado quis a responsabilidade de atender a população. Somente uma empresa pública é capaz de fazer isso. Assim como o Sistema Único de Saúde.

Então é preciso chamar a atenção das pessoas: olha, se não fosse um banco público, não haveria condições no sistema privado. É preciso resgatar esse papel da empresa pública, valorizar o trabalho dos empregados e mostrar que a população corre o risco de perder a Caixa. Se não fosse uma empresa pública, não haveria atendimento ao auxílio emergencial, não haverá habitação e outras políticas públicas. Esse é o recado que precisamos passar.

 

 

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Repórter do site de CartaCapital

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