Jaqueline de Jesus: ‘Covid mostrou que faltou pensar em saúde mental coletiva’

No episódio final de Relatos de Março, psicóloga fala do negacionismo, da morte e do aumento da violência doméstica

(Foto: Facebook Jaqueline de Jesus/Reprodução)

(Foto: Facebook Jaqueline de Jesus/Reprodução)

Diversidade,Sociedade

Depois de um ano de confinamento, o Brasil enfrenta agora as semanas mais trágicas da pandemia. São 270 mil mortos, em meio à um lento ritmo de vacinação e à explosão de contaminados pelas novas variantes do coronavírus. Há quem possa ficar, trabalhar e estudar dentro de casa, há quem não. Mas, para além deste longo e polarizado debate, há aqueles que escolhem se aglomerar em festas clandestinas. E há quem sofra violência doméstica pelo simples fato de existir.

Essas vivências distintas, mas não distantes, flutuam num caldeirão de traumas da sociedade brasileira, passando por escravidão e machismo. Em tempos de valorização da saúde pública, há uma necessidade negada tanto pelos brasileiros como pelos governantes. “Faltou pensar em termos de saúde mental coletiva.”

Quem faz a análise anterior é a psicóloga Jaqueline de Jesus, professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro e a quarta e última entrevistada do especial Relatos de Março, disponível no canal de CartaCapital no YouTube.

Ao mesmo tempo em que faltam vacinas nos postos e, repetidamente, brasileiros morrem à espera de um leito de UTI em todo o País parece haver uma pasmaceira geral. A constante exposição a essas feridas não resolvidas, explica ela, demonstra um forte incômodo em lidar com sua própria existência.

“Tem algo que tanto incomoda no estar contigo, no cuidar de si, de não lidar com essas questões, que pode ter a ver com um desejo de morte não explicitado”, explica. “Essa exposição [ao vírus] não [acontece] apenas por uma aventura ou para se mostrar forte, mas porque, no fundo, a pessoa pode se sentir tão frágil que preciso se expor para provar a se mesma que é forte.”

Além da aglomeração e da resistência contra os protocolos sanitários, pesam questões como o sexismo que, para as mulheres, desembocou no aumento da violência doméstica e dos abusos em meio à quarentena. Jaqueline atendeu um desses casos.

“A primeira pessoa que me pediu socorro foi uma mulher que vivia em um abrigo, aqui no Rio de Janeiro, para pessoas em situação de rua. Uma mulher lésbica e preta que havia sido estuprada. Ela estava desesperada porque não queria compartilhar com a companheira dela a violência que sofreu, e o pessoal do abrigo estava desorientado sobre o que fazer”, relata. 

A psicóloga reitera que “quem de fato e sistematicamente” auxiliou as populações periféricas, mulheres, LGBTs e outros grupos marginalizados foram ONGs, as associações comunitárias e a organização civil. Mas destaca que, mesmo com toda a solidariedade, a família e a sociedade ainda atribuem à mulher o local do silenciamento e da submissão ao masculino. Para ela, esse é outro fator que contribui para a deterioração da saúde mental do brasileiro.

“As mulheres nesse contexto também submetidas há um modelo de feminilidade extremamente subalternizante e estereotipado. (…) As nossas políticas públicas não valorizam a igualdade de oportunidades e direitos entre homens e mulheres. O que elas acabam estimulando, especialmente nesse governo, são apoio a o que elas acreditam que é relevante para determinadas mulheres.” 

Assista ao vídeo completo:

 

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