Sociedade

IML diz que homem abordado por PRF em SE morreu por ‘insuficiência respiratória aguda’

Vídeo mostra Genivaldo de Jesus Santos sendo contido no porta-malas de uma viatura policial de onde sai fumaça semelhante a gás

Homem morreu por asfixia em ação policial em Sergipe, no mês de maio. Foto: Divulgação
Homem morreu por asfixia em ação policial em Sergipe, no mês de maio. Foto: Divulgação
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Um homem de 38 anos morreu em Umbaúba, litoral sul de Sergipe, após abordagem da Polícia Rodoviária Federal na quarta-feira 25. Vídeos mostram que Genivaldo de Jesus Santos foi, inicialmente, imobilizado no chão por pelo menos dois agentes. Posteriormente, levado ao porta-malas de uma viatura, foi prensado no compartimento de onde saiu uma grande quantidade de fumaça, como em uma espécie de câmara de gás. Na filmagem, é possível ouvir os gritos do homem durante a ação.

Em relato à imprensa, o sobrinho da vítima, Wallyson de Jesus, que presenciou a cena, disse que o tio sofria de transtorno mental e que foi parado enquanto pilotava uma motocicleta. A família da vítima afirmou que Genivaldo tinha esquizofrenia e tomava remédios controlados há cerca de 20 anos.

“Eu estava próximo e vi tudo. Informei aos agentes que o meu tio tinha transtorno mental. Eles pediram para que ele levantasse as mãos e encontraram no bolso dele cartelas de medicamentos. Meu tio ficou nervoso e perguntou o que tinha feito. Eu pedi que ele se acalmasse e que me ouvisse”, contou.

Ainda de acordo com o relato do jovem, ele tentou dialogar com os policiais que não o ouviram. Ele também afirma que os agentes jogaram spray de pimenta no interior do veículo.

“Eles jogaram um tipo de gás dentro da mala, foram para delegacia, mas meu tio já chegou lá desacordado. Diante disso, os policiais levaram ele para o hospital, mas já era tarde”.

Laudo do Instituto Médico Legal apontou que o homem morreu de asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda. O laudo da análise foi confirmado pela Secretaria de Segurança Pública na manhã desta quinta-feira 26.

Em nota divulgada no dia 25, a Polícia Rodoviária Federal disse que o homem ‘resistiu ativamente’ à abordagem e que, ’em razão da sua agressividade, foram empregadas técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção’. O informe diz ainda que ‘durante o deslocamento, o abordado veio a passar mal e [foi] socorrido de imediato ao Hospital José Nailson Moura, onde posteriormente foi atendido e constatado o óbito’.

“A equipe registrou a ocorrência na Polícia Judiciária, que irá apurar o caso. A Polícia Rodoviária Federal em Sergipe lamenta o ocorrido e informa que foi aberto procedimento disciplinar para averiguar a conduta dos policiais envolvidos”, conclui o comunicado.

A família da vítima informou que registrou um Boletim de Ocorrência na delegacia da cidade. A Polícia Civil confirmou o registro do caso e a coleta de alguns depoimentos, que já foram prestados por familiares e testemunhas na delegacia da cidade.

Pesquisador vê com preocupação participação da PRF em ações policiais

A Polícia Rodoviária Federal, responsável pela abordagem de Genivaldo, também atuou na operação realizada na Vila Cruzeiro, zona norte do Rio, na última terça-feira 24. A incursão, em parceria com o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar deixou 26 mortos, segundo as últimas atualizações.

Em entrevista a CartaCapital na quarta-feira 25, o sociólogo, professor e coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense Daniel Hirata já tinha relatado ‘preocupação’ com a participação das polícias federais em operações, sobretudo as que terminam em chacina, como foi o caso no Rio.

“A Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal sempre foram consideradas, do ponto de vista do conjunto das polícias que temos no Brasil, como melhores do que as militares estaduais. Isso porque utilizavam tecnologias, faziam investigações. Mas, sabe-se que nos últimos anos nós tivemos uma série de intervenções nessas instituições pelo governo federal”, avaliou, ao citar a acusação feita pelo então ministro da Justiça, Sergio Moro, de que Bolsonaro tentou interferir em investigações da PF ao cobrar a troca do chefe da Polícia Federal no estado e ao exonerar o então diretor-geral da corporação, Mauricio Valeixo, indicado pelo próprio Moro. Em março deste ano, a Polícia Federal concluiu em relatório encaminhado ao STF que Bolsonaro não cometeu crime no caso.

“Talvez de forma coincidente, a gente vem percebendo uma participação maior dessas instituições nas operações policiais aqui no Rio de Janeiro”, acrescentou Hirata, que ainda exemplificou duas outras situações em que as instituições estiveram presentes.

“O primeiro é o caso do menino João Pedro, em São Gonçalo, um caso que ganhou muita repercussão e no qual houve participação da Polícia Federal”, citou. O adolescente, de 14 anos, foi morto em maio de 2020 durante uma operação conjunta das polícias Federal e Civil do RJ no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Região Metropolitana do RJ. Família e testemunhas afirmam que policiais chegaram atirando à casa onde João e amigos estavam, na Praia da Luz, em Itaoca. O rapaz foi atingido na barriga.

Hirata também citou outra operação deflagrada na Vila Cruzeiro pelas polícias Militar e Rodoviária Federal, em fevereiro deste ano, que tinha como alvo principal o traficante Adriano Souza de Freitas, conhecido como Chico Bento. A ação deixou 8 mortos. A busca ao traficante foi o que as corporações alegaram para a ação no Jacarezinho, em maio de 2021, que deixou 28 mortos.

“Tivemos 36 mortos para fazer cumprir um único mandado de busca por um criminoso só”, aponta o pesquisador.

“Acho muito preocupante que instituições que até então tinham papel constitucional muito bem definido e uma atuação profissional melhor do que as polícias estaduais estejam agora atuando em conjunto com as polícias estaduais neste tipo de operação policial que termina em chacina. Acho muito preocupante, muito preocupante mesmo”, finaliza.

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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