Política

O vírus da inércia

Pior que a Monkeypox é a inação do Ministério da Saúde diante de mais uma emergência sanitária global

Imagem: iStockphoto
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A varíola humana foi extinta nos anos 1980. Desde então, não se falava mais na moléstia. Em maio, a Organização Mundial da Saúde emitiu, porém, o alerta de uma nova ameaça, o Monkeypox, mal traduzido como “varíola do macaco”. O vírus, oriundo de um roedor, foi identificado em humanos pela primeira vez em 1970, na República Democrática do Congo. Agora, voltou a se espalhar e está presente em 74 países, dos quais 68 nunca tinham registrado um único caso.

Até a terça-feira 2, o Brasil registrou mais de 1,3 mil infecções pelo ­Monkeypox. A maioria dos casos concentra-se em São Paulo, estado com o maior número de viajantes que passaram pela Europa e EUA. Endêmico na África, o vírus alastra-se nos países do Norte, além da América do Sul, Ásia e Oceania.

De acordo com especialistas, existem duas cepas diferentes do vírus, uma da África Ocidental e outra da Bacia do Congo. Esta última é mais contagiosa e apresenta taxa de letalidade que varia de 1% a 10%. A primeira variante, por sua vez, tem mortalidade mais baixa, entre 1,4% e 3%. A doença, em si, não deveria ser motivo de pânico no Brasil, que dispõe de um sistema universal de saúde a cobrir todo o território nacional, além de expertise no enfrentamento de epidemias. Mas, com a asfixia financeira imposta ao SUS pela emenda do Teto de Gastos Públicos e com o histórico de negacionismo do governo Bolsonaro, a OMS tem enviado sucessivos alertas para o Brasil não deixar o vírus correr solto.

Professor do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp e ex-ministro da Saúde, Arthur Chioro é taxativo ao afirmar que o pior não é a doença propriamente dita, e sim a fragilidade do SUS. “O grande problema no Brasil é a desarticulação do nosso sistema de saúde, em razão da postura fragilizada, omissa e desqualificada do nosso Ministério da Saúde. Eu diria que, talvez, esta seja a maior gravidade da situação, nos pegar num momento de tanta fragilidade.”

Tão grave quanto o vírus é a falta de informação. “A esta altura do campeonato, o Ministério da Saúde tinha de estar liderando a informação para a população”, explica Chioro. De acordo com o médico sanitarista, o quadro atual da doença exige que o governo federal faça uma campanha de comunicação de massa para orientar não só a população em geral, mas também os agentes de saúde, que estarão na linha de frente no combate ao Monkeypox.

Até agora, o governo não apresentou um plano de ação. Na segunda-feira 1º, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou a compra de 50 mil doses de vacina, que deverão chegar ao País em dois lotes, o primeiro em setembro e o segundo, provavelmente, em outubro. A medida mostra-se insuficiente porque, diferentemente do ocorrido na pandemia da Covid-19, ainda sem desfecho, a vacina contra o Monkeypox não será aplicada em toda a população. Orientar sobre as formas de prevenção e a busca por atendimento seria mais eficaz para controlar a disseminação do vírus, afirmam especialistas consultados por CartaCapital.

O Brasil registrou mais de 1,3 mil casos confirmados até a terça-feira 2

Tão logo a doença começou a ser detectada fora da África, a OMS declarou estado de emergência global de saúde, em 23 de julho. Isso significa que os Estados membros da Organização Mundial da Saúde devem cumprir um protocolo sanitário e preparar seus sistemas de saúde para lidar com a situação. Nos EUA, a cidade de Nova York e o estado da Califórnia decretaram estado de emergência. No Canadá, os pacientes começaram a ser vacinados.

Com o SUS, o Brasil tem condições de criar uma rede eficaz de diagnóstico, isolamento e busca de infectados. Seria possível, inclusive, isolar todos os pacientes contaminados e conter o alastramento do vírus desde o começo, comenta Chioro. Individualmente, não há muito a ser feito além de cuidados básicos, alguns dos quais já foram incorporados à nossa rotina devido à pandemia da Covid-19. Lavar as mãos com água e sabão, ou higienizar com ­álcool 70%, manter distância e usar máscara em ambientes cheios. Em hipótese alguma tocar na pele de uma pessoa contaminada sem equipamentos de proteção.

O vírus é transmitido principalmente através do contato de pele com pele, por isso manter relação sexual com uma pessoa contaminada tem sido a principal forma de contágio. Além disso, gotículas de saliva também podem transmitir a doença. Em menor escala, superfícies, roupas comuns e roupas de cama utilizadas por pacientes contaminados também podem armazenar o vírus.

Neste primeiro momento, identifica-se um grupo mais vulnerável à doença: os homens que mantêm relações ­sexuais com outros homens (HSH). Mas tanto a OMS quanto a Sociedade Brasileira de Infectologia ressaltam que não se trata de uma predisposição desses pacientes. O que aconteceu, segundo o presidente da entidade no Distrito Federal, José ­David Urbaez Brito, foi uma infeliz coincidência: o vírus começou a se alastrar no mundo justamente nos meses em que os movimentos LGBTQIA+ cumprem ­suas tradicionais agendas. Com isso, muitas pessoas viajaram para a Europa para participar de manifestações.

O Brasil também abrigou paradas gays nas principais capitais do País, favorecendo a propagação do vírus, que precisa apenas de um contato para se instalar. Urbaez Brito é incisivo ao dizer: “Poderia ter acontecido no Carnaval, em abril, mas nessa época o vírus ainda não estava circulando”.

Diante da concentração de casos nesse grupo, o infectologista sugere a criação de campanhas de informação dirigidas a esse público, com o cuidado de não criar estigmas. A OMS recomenda, ainda, a redução do número de parceiros ­sexuais para evitar o contágio. Ao menos enquanto o Monkeypox estiver à espreita. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1220 DE CARTACAPITAL, EM 10 DE AGOSTO DE 2022.

Mariana Serafini

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